
ENTREVISTA POR CLAUDINE KO
RETRATOS POR ALIYA NAUMOFF
heguei ao loft de Edward Albee em Tribeca às dez da manhã. O sobrenome do dramaturgo está claramente impresso ao lado da campainha. A voz soou pelo interfone: “Quem é?”, perguntei. Silêncio. Esperei alguns minutos, mas resisti à vontade de tocar novamente. Finalmente, ele chamou meu nome. Albee apareceu do lado de fora atrás de mim e, quando me virei, vi um octogenário cheio de vida com um aparelho auditivo em um ouvido, Reeboks brancos, uma camisa cinza de mangas curtas, um relógio Swiss Army e shorts. Ele acenou e perguntou onde estava minha bicicleta. Fiquei surpresa por ele ter lembrado que eu ia de bicicleta até sua casa e me desculpei por estar suada quando entrei no elevador. Perguntei que nome ele gostaria que usássemos na entrevista. Ele respondeu: “Edward se for uma entrevista amigável, Sr. Albee se não for uma entrevista amigável”. “Edward, então”, eu disse. Adotado pelo herdeiro de um magnata do teatro e sua esposa duas semanas após seu nascimento, o dramaturgo ganhador de três prêmios Pulitzer cresceu rico e rebelde em Larchmont, Nova York: empregados, professores particulares, Rolls-Royce com motorista, múltiplas expulsões de diversos colégios internos e escolas militares. Acabou abandonando a faculdade, afastou-se dos pais adotivos e mudou para o Greenwich Village, onde fez bicos e escreveu sua primeira peça, The Zoo Story, em 1958. Seu final chocante impressiona até hoje público e leitores desavisados. Desde então, Albee escreveu 32 peças (e continua escrevendo), mas é mais conhecido pela boa e velha Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1962), sua obra sobre um casal bêbado e mau-humorado, que foi posteriormente adaptado para o cinema em um filme dirigido por Mike Nichols e estrelado por Elizabeth Taylor e Richard Burton. O trabalho mais recente de Albee, Me, Myself, and I, estreou em Nova York em setembro.
A porta do elevador se abriu para o loft, com um pé direito duplo e paredes repletas de obras de arte e uma confortável sala de estar cercada por esculturas aborígenes de madeira. Em uma das paredes tinha um Kandinsky ao lado de um Jean Arp. Na quina do loft uma janela em L deixa a luz natural entrar e dá ao lugar uma leveza e claridade apesar de toda a madeira escura. Dava para ver a escada em espiral na frente da entrada da cozinha. Eu me sentei num sofá gasto e aconchegante de couro marrom, ao lado da cabeça enrugada de uma das esculturas aborígenes. Albee tem um carisma natural—que faz lembrar Paul Newman imediatamente—e, desculpe o clichê, “um brilho no olhar”. Ele me ofereceu uma bebida e, quando voltou com os copos, fez a primeira pergunta.
Edward Albee: Você conhece bem Tribeca? Sabe como tudo aconteceu, como se tornou residencial? Era um distrito de atacadistas em Nova York, ia da 14th Street, onde ficavam os açougues, até a Canal Street. Café, comida, queijo… Então decidiram levar todos os mercados para o Bronx, claro. E só sobraram galpões vazios. Muita gente se mudou para cá e comprou imóveis. E então virou residencial, e aqui temos esse estranho bairro chamado Tribeca.
Vice: Como você se sente em relação `a proliferação de residências de alto padrão que começou aqui nos anos 80?
Eu gosto de lugares onde você não precisa ser um milionário para viver, mas todos os artistas pobres foram expulsos daqui por especuladores imobiliários.
Você é milionário?
Não é da sua conta. Não penso em mim mesmo nesses termos. A questão é que uma área é melhor se ela tem rendas variadas. É melhor para todos. Gente de Wall Street, é isso que temos aqui agora.
Eu gostaria de ter uma ideia melhor de como é a sua vida. A que horas você acordou hoje?
Sete.
Você tem uma rotina?
Eu saio e vou comprar o New York Times. Tomo minha primeira xícara de café e faço todos os testes que preciso para a diabetes. Tenho diabetes há quatro anos. É preciso furar o dedo.
Toda manhã?
E toda noite.
Qual era a matéria mais interessante no jornal hoje?
Esses testes, que tinham para determinar se a pessoa tinha mal de Alzheimer e se podia ou não ser tratada, foram um fracasso. Cheguei a uma idade em que Alzheimer é uma possibilidade.
Então, café, teste de diabetes, o New York Times…
Um bolinho de milho ou, geralmente, aveia com leite desnatado e sal.
É bem light.
Açúcar me faz mal.
Você pensa muito em comida?
Bom, a pessoa morre sem comida.
Certo.
Você precisa comer alguma coisa interessante. Ontem à noite fui ao restaurante japonês perto de casa, por causa do sushi que eu adoro.
Você foi sozinho?
Não, fui com um jovem pintor amigo meu.
Você se considera sociável?
Vejo pessoas de vez em quando. Eu não me chamaria de sociável. Não vou a restaurantes com um grupo de oito, dez pessoas toda noite. Passo bastante tempo sozinho. Gosto de pensar. E é difícil pensar quando você está cercado de pessoas. Ficar sozinho é bom.
Sobre o que você pensou hoje além de Alzheimer, bolinhos de milho e café?
Se esta entrevista ia valer a pena ou não. Se você chegaria na hora ou não.
E eu cheguei.
Sim, chegou. Na hora exata. Não é legal atrasar. E eu estava pensando muito nos ensaios [de Me, Myself, and I] e no fato de que depois que acabarmos aqui, preciso ligar para o meu diretor para falar sobre algumas coisas que pensei sobre o ensaio de ontem.
Li uma entrevista sua online em que você, no final, disse ao entrevistador que não tinham falado sobre as três coisas das quais os dramaturgos mais gostam de falar: sexo, dinheiro e comida. Foi por isso que perguntei se você é milionário e o que come. Ainda não falamos sobre sexo, mas vamos chegar lá.
Talvez. Eu gosto. Sou a favor, digamos assim.
Você tem praticado bastante ultimamente?
Ninguém nunca pratica o bastante [risos].
Você está namorando?
Vagamente. Não sei se estou namorando ou não, e não quero falar sobre isso. Se eu estiver, é uma tolice da minha parte. Muitas pessoas depois dos 80 não têm interesse em namorar. Elas se fecharam física, psicológica e emocionalmente.
Mas você não.
Alguns de nós não. Faz cinco anos, desde que perdi minha companheira que esteve comigo por 35 anos, por causa de um câncer, que não me envolvi com ninguém, e por diversas razões, o luto é uma delas. Mas vejo algumas pessoas de tempos em tempos. Elas vão permanecer anônimas para proteger a culpa [risos].
O que você diria se eu te pedisse conselhos sentimentais?
Se você não estiver disposta a fazer papel de boba, nunca vai chegar a lugar nenhum. E se tiver que se preocupar com o motivo de alguém estar com você, não deveria estar com essa pessoa. É uma das poucas desvantagens de ter um nome que as pessoas reconhecem. Você nunca sabe ao certo por que certas pessoas estão conversando com você, mas normalmente dá para descobrir bem rápido.
Que tipo de música você escuta?
Clássico, jazz antigo, gospel e música folk do mundo. Escuto todo tipo de música, mas estou mais interessado em começar com Bach e seguir nas duas direções, antes e depois.
Você ouve música enquanto escreve?
Meu Deus, não. Ela entraria no ritmo do que estou escrevendo. Quando componho meus personagens, eu os ouço conversar. Preciso ouvir o ritmo de sua fala. Não posso deixar outra música interferir nisso. Além do mais, não acho que as coisas sérias devem ser ouvidas como acompanhamento de outra coisa, como “ah, preciso comer agora, então vou colocar um quarteto de cordas”. Ouvir música e comer são duas coisas diferentes. Você deve se concentrar em uma coisa ou outra.
O que o levou a criar a Edward F. Albee Foundation, sua organização que ajuda artistas jovens?
Duas coisas. Eu tinha visitado amigos em lugares como MacDowell Colony e Yaddo, que são fundações onde pessoas criativas vão morar e trabalhar. Achei que eram interessantes, mas geralmente não aceitavam pessoas em início de carreira. Jovens talentos. Aceitavam pessoas com alguma reputação, que na verdade não precisavam do espaço. E depois que comecei a ganhar bastante dinheiro com Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, eu não queria pagar impostos. Então me disseram que seu eu montasse uma fundação e fizesse algo útil, não teria que dar aquele dinheiro para o governo. Aí comprei os galpões em Montauk, onde fica a fundação, e montei um lugar onde pintores, escultores e escritores pudessem viver e trabalhar. Existe há quase 40 anos. Foi útil tanto para mim quanto para os jovens.
Como você escolhe os artistas?
Eu apenas acho que são pessoas talentosas—um pouco provocadoras e originais, e que têm futuro. Nunca se sabe. Quando estiverem com 30 ou 35 anos, o talento pode evaporar ou podem virar redatores para sobreviver. Então gosto de pegar pessoas jovens e torcer para que se desenvolvam como artistas. É bom ter esperança. É uma responsabilidade ajudar outras pessoas, não é?
Eu também acho. Mas nem todos pensam assim.
Eu sei. Estão errados.
Ouvi dizer que você era uma criança difícil. Você não obedecia seus pais e se metia…
Eu fui adotado. Aqueles não eram meus pais. Eram pessoas ricas que me acolheram. E se eu tivesse gostado deles, se tivéssemos nos dado bem, eu provavelmente teria prestado mais atenção a eles. Mas eles tinham suas próprias vidas. Estavam ocupados com as coisas deles, e isso permitiu que eu desenvolvesse meus próprios interesses, ideias e me tornasse eu mesmo sem tanta interrupção das outras pessoas como acontece com a maioria das crianças. Então, um dia, eles disseram: “Nossa, meu Deus, ele pode estar virando um escritor ou algo assim. Precisamos fazer alguma coisa. Por que ele não quer ser advogado ou CEO, algum cretino de Wall Street? Por que ele não quer ser algo útil?”. Mas eu já tinha decidido que queria ser escritor e não queria interferência. Então fui expulso de casa, da faculdade, me mudei para o Greenwich Village, e as coisas começaram a melhorar. Mas você sabe disso tudo. Você leu a biografia?
Li sim. Você já pensou em adotar crianças?
Não. Por que eu faria isso?
Seu programa de residência é como uma adoção de curto prazo. Você os recebe, dá moradia a eles.
Sim, mas isso também acontece nas clínicas para drogados.
Então você nunca pensou em ser pai?
Não. Para morar com alguém, só se for para dividir a cama. Nós, as pessoas criativas, escritores e tal, passamos bastante tempo sozinhos. Mais do que as outras pessoas. Ser escritor não é um trabalho de oito horas por dia. Você descobre muito rápido que é um trabalho de 24 horas por dia. Ninguém diz: “Vou começar a pensar como escritor”. É mais uma coisa de: “Ops, estou fazendo isso há quatro horas, posso parar agora”.
Mas você não escreve 24 horas por dia.
Você está se comportando como um escritor. Está olhado as coisas e as pessoas, ouvindo e observando como escritor o tempo todo—com estranhos e com amigos, sempre.
Li sua peça The Sandbox hoje de manhã, antes de vir para cá.
Eu gosto daquela peça. Não cometi nenhum erro nela.
Você comete erros?
Eu cometo muitos erros. Se você não estiver disposto a cometer muitos erros, não vai correr nenhum risco. E se não correr riscos, não vai fazer nada interessante. The Sandbox, que só tem 12 minutos, é basicamente perfeita. Está absolutamente certa. Se tivesse dois minutos a mais, eu a teria estragado.
Você a escreveu para sua avó, certo?
Não, eu não a escrevi para ela porque ela estava morta. Eu baseei a personagem da avó até certo ponto na minha avó materna, só que fico quase constrangido em dizer que a personagem que criei é mais interessante do que minha avó de verdade.
Você tinha uma boa relação com sua avó?
Sim, a mãe da minha mãe adotiva. Ela e eu éramos os inimigos da família. Eles também não gostavam dela. Ela era uma peste, era velha e rabugenta. Queria as coisas do seu jeito. Tinha três pequineses no andar superior. Ela também era muito inteligente, cheia de vida e teimosa, e eu gostava dela. Ela era interessante. E também me ensinou a jogar bridge.
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Quando eu fui adotado, era impossível. Então não se tenta fazer o impossível. E, no fim das contas, quando descobri quem eu era, não precisei mais saber de onde tinha vindo.
De quem mais você gostava, algum mentor?
Não gosto de ser específico com nomes, mas pessoas que me interessavam, que podiam me ensinar alguma coisa, pessoas que me envolviam. Você escolhe as pessoas com quem quer estar. Todo mundo tem que passar muito tempo com pessoas que são uma perda de tempo. Quando eu estava crescendo, claro, eu fugi algumas vezes—não adiantou nada.
Para onde você fugia, e qual era o seu plano?
Ah, eu queria ir para a Europa. Eu não tinha dinheiro, mas achava que se encontrasse um jeito de entrar em um transatlântico seria uma boa maneira de ir para a Europa.
Quanto anos você tinha quando fugiu pela primeira vez?
Doze.
Uau. E você estava em Larchmont, Nova York?
Sim, e fui para a cidade de Nova York. Acho que eu tinha 50 dólares ou algo assim. Não cheguei muito longe. Alguém ligou para os meus pais, e eles mandaram o motorista me buscar. Eles mesmos não vieram [risos].
Quem você considera sua família?
Tenho muitos amigos. A maioria morreu. Acabei de perder uma amiga maravilhosa chamada Joanna Steichen, que era a viúva do [fotógrafo] Edward Steichen. Ela foi uma grande amiga minha por cerca de 40 anos. Morreu há poucas semanas. Ela tinha mal de Parkinson. Eu meio que cuidava dela. Percebi que ia ter que colocá-la em algum tipo de lar porque ela não podia morar sozinha—ela caía o tempo todo e não falava mais coisa com coisa. Ela ia ter que ir para um asilo e isso a teria matado, então fico feliz que ela tenha se afogado em sua piscina.
Ela se afogou na própria piscina?
Foi bom, fico feliz que ela tenha feito isso. Fico feliz que isso tenha acontecido. Ela não se matou. Seja como for, quanto mais velho você fica, se for sábio, a maioria dos seus amigos é mais velha que você para que você possa aprender com eles, e é por isso que eles geralmente morrem antes que você. O número de amigos próximos que eu tenho diminui a cada ano.
Você quer continuar firme.
Bem, eu quero continuar firme, vamos dizer assim. Não tenho nenhum desejo de ser o último, mas se eu for o último, quero estar firme. Quero ser o último se eu tiver que ser o último. A vida é muita curta. Quero dizer, meu Deus, 100 anos? Não é muito tempo. Então você sempre deve participar da vida plenamente. Foi por isso que eu escrevi em algum lugar que as crianças devem aprender—tão rápido quanto aprendem qualquer outra coisa—que estão morrendo.

Eu era bem jovem quando me dei conta de que a vida é finita, e o resultado dessa descoberta foi: não perca tempo. Viva plenamente. Não passe a vida assistindo televisão ou votando nos republicanos. Eu não acredito em desligar. Uma das minhas coisas preferidas é a minha casa em Montauk. Eu amo andar pela praia. Simplesmente amo estar no mar.
Você consideraria a possibilidade de um remake de Quem Tem Medo de Virginia Woolf? para o cinema?
Se eles conseguissem o elenco que eu quero. Eu teria de aprovar o elenco e o diretor, e não permitiria que ninguém escrevesse nada. Aí eu consideraria. Claro. A peça é melhor do que o filme, mas é um bom filme. [O diretor] Mike Nichols não é bobo.
Você escreveu sua primeira peça, The Zoo Story, quando tinha 30 anos. O que o levou a fazer aquilo? Qual foi a epifania?
Obviamente, estava na hora de eu escrever uma peça. E escrever algo bom.
Você não se lembra de um momento específico?
Não, não. Não funciona assim. Só funciona assim com ficção ruim.
Você tem um espaço específico para escrever?
Eu escrevo na minha cabeça. Tenho algumas mesas para qualquer momento que eu queira anotar alguma coisa. Não importa onde eu escrevo. Se chama manuscrito, então eu escrevo à mão.
É bem à moda antiga.
Eu não acredito em todas essas máquinas.
E a Internet?
Eu sei que existe. Eu não uso.
Você tem um telefone celular?
Não. É um desperdício de tempo. É a mesma coisa que assistir televisão. Eu ando pelas ruas de Nova York e vejo pessoas esbarrando umas nas outras, esbarrando nas coisas, e estão com essas coisas na orelha ou no rosto. Não estão vendo nada do mundo real.
Mas pode ser Bach nos fones de ouvido.
Nunca é. Nunca é. Se eu ouvisse alguém escutando Bach em uma máquina, daria os parabéns. Perguntaria que gravação é e diria que existe uma gravação melhor.
Você anda de bicicleta?
Não, mas eu costumava andar. Eu ando de metrô, sempre. Você pode olhar para as pessoas no metrô. Você pode ouvir e olhar as pessoas.
Então você está constantemente bisbilhotando?
Sim, sim.
Existe um tipo específico de pessoa que você gosta de olhar?
As interessantes. As chatas eu não olho.
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