Fresh 2 Deaf

Prinz-D, o Primeiro Rapper Surdo. Todas as fotos por Erik Tanner

Não sei por que algumas pessoas ainda ficam chocadas com a garotada surda que curte música. Recentemente, fui a uma festa na Gallaudet University – uma escola particular para surdos e deficientes auditivos de Washington – e foi uma baita balada. O salão estava cheio de gente vibrando. Os estudantes sinalizavam empolgados na cara um do outro. Cada um tendo uma experiência única – alguns apreciando as altas frequências, outros os tons baixos e muita gente só sentindo as vibrações.

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O DJ da noite fez uma pausa e o palco se acendeu para um jovem vestido todo de branco – Darius McCall, também conhecido como Prinz-D – segurando o microfone. Quando as vibrações começaram, o DJ começou a traduzir o que o rapper estava cantando na linguagem de sinais, mesmo que boa parte do pessoal estivesse com dificuldades para acompanhar.

Prinz-D começou a rimar quando tinha nove anos. Ele tem dois As vermelhos tatuados em cada braço, uma homenagem ao Alabama, onde ele cresceu. Ele tem surdez profunda dos dois ouvidos e diz que seu aparelho auditivo é “pão e manteiga… sem ele estou tostado”. Algumas semanas atrás, chamei ele pelo Gchat para saber mais sobre sua carreira, namoros, couchsurfing e as imagens sombrias de seus clipes.

VICE: Você se autointitula “O Primeiro Rapper Surdo”. É evidente que sua surdez é grande parte de sua identidade artística. Que desafios você experimentou na indústria do entretenimento como surdo?
Prinz-D: Tentar não usar linguagem de sinais em toda cena de um clipe! A maioria do meu público é formada de surdos, então tenho que sinalizar senão eles perdem o interesse. Então, tento fazer os clipes um pouco mais auditivos ou mainstream e acrescentar toques de sinais aqui e ali para mostrar qual é a minha.

Acabei de assistir aos clipes de “You Were My Everything” e “Me Crazie”. Eles são meio sombrios.
Imaginei eles assim. Era assim que eu estava me sentindo na época. Já superei isso, mas estava procurando fazer vídeos controversos, e isso se encaixou bem. E eu queria fazer uma história neles. Esses sentimentos são autênticos; a única coisa é que nunca se materializaram.

Que tipo de sentimentos?
Como pode [uma garota] não querer sair comigo? Isso e lutar para ter meios de alcançar a carreira que sonho para mim.

Como está a questão do dinheiro para você agora?
Estou ganhando o suficiente para me sustentar, gravar e fazer aulas de atuação. E estou economizando para me inscrever na Juilliard e na Yale School of Drama. A atuação é uma plataforma para o meu rap. Planejo transformar meus shows de rap em apresentações de um homem só, para abordar esses dois mundos. Quando eu for rico e famoso como ator, posso usar isso como alavanca para meus objetivos musicais. Sabe, como o Jamie Foxx ou o Will Smith.

Quais são seus assuntos preferidos para fazer rima? Percebi que o amor é um dos principais.
O amor é um deles, e a surdez. Algumas das minhas músicas são tipo: “E daí? Aposto que rimo melhor do que você. Aposto que posso dar mais duro que você”. E histórias reais da minha vida e sobre as coisas que passei nesse último ano.

Ser um rapper surdo motiva você a trabalhar ainda mais arduamente, não?
Eu sempre quis ser o primeiro. O primeiro cara surdo a ganhar um Tony, o primeiro cara surdo a ganhar um Oscar, o primeiro cara surdo a ganhar um Grammy. Mesmo se isso levar 20 anos, nunca vou desistir. Até já morei na rua para não ter que pagar aluguel. Sacrifiquei ter filhos e uma namorada para perseguir esses sonhos. É uma vida solitária. Mas no final das contas, supero isso e todo dia passo mais de oito horas trabalhando em meu ofício.

Você está morando nas ruas agora?
Não. Tenho amigos que estão me ajudando, eles me deixam ficar na casa deles de graça. As pessoas veem como acordo às quatro da manhã, como trabalho sem parar.

Da última vez que nós saímos, ficamos acordados até tarde fumando maconha na sua cozinha. Você disse gostava de escrever músicas sobre maconha. Você ainda está trabalhando em algo assim?
Tenho que ter cuidado com isso do ponto de vista comercial. A maioria dos meus fãs é surda, e nessa comunidade, ser um exemplo ajuda. Eu posso ter decepcionado alguns garotos surdos, então é provável que tenha perdido algumas oportunidades de show.

Qual é o impacto disso na maneira como você constrói sua imagem?
Continuo fumando! Mas sabe, estou tentando ser um artista mais acessível e menos estereotipado.

Como você diria que é a divisão do seu público, entre quem ouve e quem é surdo?
Eu diria 80 para 20, surdos e ouvintes.

Legal. E seu álbum novo? Fale um pouco sobre ele.
First Deaf Rapper: Volume 3 vai ser um disco incrível, minha enunciação está onde preciso que ela esteja. Estou falando com mais substância agora. As batidas são melhores e, pelo que ouvi das pessoas que ouviram o disco, esse é o melhor trabalho que já fiz. Estou empolgado – mas só vou lançar o disco no outono [dos EUA]. Vou esperar pelos feriados.

O que você quer que as pessoas saibam sobre sua carreira, sua paixão, sua vida?
Quero que elas saibam que não há desculpas, independente de sua deficiência e limitações. Você escolhe se tornar um sucesso e pensar como um campeão. Tudo se resume a perguntar a si mesmo quão bom você quer ser. Quando você responde essa questão, você consegue visualizar o resultado final do que está buscando. E para os executivos de gravadora que estiverem lendo isso: me dê uma chance e assine um contrato comigo. Estou cansado de esperar no banco enquanto outros caras têm sua chance.

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Tradução: Marina Schnoor

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