Matthias Connor, aka Wolfboy, é um escritor que mora em Londres que publica fanzines que dá para pessoas de graça. Ele faz isso há mais de 20 anos. Atualmente, a Ooga Booga, em Los Angeles, é a única loja que tem cópias do seu trabalho à venda. Há alguns anos, num réveillon, um garoto de 18 anos disse a ele que a única coisa que tinha lido duas vezes na vida foi um de seus “livros”. Escutar isso satisfez todas as ilusões vãs que Matthias sempre teve sobre o que significava se dar bem como escritor. Devemos mencionar aqui que o tal leitor é disléxico, o que pode ou não explicar a razão dele ter lido o “livro” duas vezes. Outro fato relevante é que o mesmo leitor tinha acabado de tomar um ecstasy. Matthias trabalha meio período numa livraria. Quando ele não está lá, pais o contratam para tomar conta de seus filhos. No ano passado ele fez uma performance de spoken word com acompanhamento musical da banda Gang Gang Dance (ele também tem um fanzine sobre a tarântula de estimação de Brian, um dos membros da banda). A editora de fanzine de Matthias se chama Poppy Books, em homenagem a sua afilhada. Ela acabou de participar da Los Angeles Art Fair em janeiro.
A inspiração para essa história veio de uma das pessoas para as quais Matthias trabalha como babá. “Matt”, ele disse, “Você sabe que é uma péssima ideia correr de ressaca”.
Parece que foi ontem que ele ia a bares, se via cercado de pessoas mais velhas e se sentia maduro na companhia delas. Mas agora, sempre que saía, sentia o oposto. As pessoas da sua idade já deveriam ter filhos, e apesar de haver bares cheio de homens mais velhos que ele, e de ele mesmo às vezes dar uma passada nesses bares para tomar uma, ainda não tinha a menor vontade de se tornar um cliente assíduo. Primeiro porque ele era solteiro e a chance de se dar bem num desses bares, como todo mundo sabe, é pequena. Ele tinha amado, e esperava amar novamente no futuro, mas até lá, quem poderia dizer como as coisas seriam? Estava otimista. Mas é verdade que ser solteiro na sua idade tinha lá suas frustrações. Primeiro porque ele já estava de saco cheio de ir toda vez aos mesmos bares. Qualquer que fosse a ordem em que entrasse neles, todos acabavam se misturando no mesmo lugar. Às vezes pensava que se fosse casado, desconsiderando todos os homens casados que frequentam bares, não teria que passar por isso.
Ela se aproximou dele numa danceteria, só que ele não estava dançando. “Se aproximou”, não, ela foi direto até ele, com uma confiança que o excitou. Ele não conseguiu não olhar. A visão de um par de peitos espremidos bem na sua cara e, tomado pela atmosfera, ele não se importou que ela notasse. Na verdade, esperou que ela percebesse que ele não se importou que ela havia notado. Ela falava. O som da suas palavras ia e vinha com a música até que, escutando-a, se tornaram inseparáveis. Ela disse que o via por aí há anos, que sempre teve uma queda por ele. Que queria perder o juízo e fazer merda, e como a música, sério, que música era essa que o DJ estava tocando, tinha começado a fazer sua cabeça. Ele não foi pego tão surpreso a ponto de ter perdido o chão com a sua honestidade insolente. Apesar de ela ter dito que sempre se sentira atraída por ele, ele tinha certeza de nunca tê-la visto antes. Ela não era o que você descreveria como o tipo dele e, quando ele parou para pensar brevemente nesse dilema, nem ele o dela. Por isso estava tão encantado por sua atenção. Existem muitos tipos, mas, a essa altura da vida, ele tinha se acostumado a ser sempre um único tipo que parecia contradizer a crença geral e achá-lo encantador. Mas esse era o tipo de garota que ele imaginava saindo com um jogador de futebol da segunda divisão ou com um traficante de drogas. Alguém com um carrão; não com um poeta esforçado nos seus trinta e muitos anos que tinha que ir a pé para os lugares e que recentemente teve que trocar a cerveja pela vodca depois de constatar, em frente ao espelho, uma barriga de cerveja se delineando. Tudo bem se você já está casado, e mal, tudo mal se você ainda é solteiro procurando uma esposa. Por isso ele tinha começado a correr ao longo do canal todas as manhãs. Mas então, um amigo o avisou que correr de manhã depois de haver bebido era perigoso, você tinha duas vezes mais chances de ter um ataque cardíaco. E mesmo ele tendo lá seus frequentes pensamentos suicidas, tratava de mantê-los longe, um dia de cada vez—dizendo a si mesmo, “Hoje não, espere e veja o que acontece amanhã primeiro”—e não queria morrer correndo ao longo do canal. Se seu amigo não o tivesse alertado sobre os perigos de correr de ressaca, provavelmente teria continuado, pois sentia que lutava contra a dor com dor, e seu rosto, vermelho e contorcido pelo esforço físico, era testemunha da noite anterior, assim como do próximo passo. Completamente acabado depois de 40 minutos, acreditava que esta era a prova de que o exercício estava funcionando. Mas agora que sabia que correr de ressaca era potencialmente mortífero, continuar a fazê-lo seria suicida. Pelo bem de sua reputação de poeta não poderia se imaginar cometendo suicídio por corrida, não que alguém além dele saberia que teria sido suicídio. “Um acidente horrível”, imaginava as pessoas comentando. “Como ele poderia saber que não dá pra suar o álcool da noite anterior correndo na manhã seguinte?” “Um acidente horrível!” Se imaginava gritando em seu túmulo. “Não foi acidente! Pareço estúpido a ponto de não saber dos perigos letais de correr de ressaca?” Não dava; se fosse inter-romper sua vida dessa maneira, teria que deixar um bilhete explicando que fora suicídio e não acidente. Mas se fosse se suicidar, ele, entre todas as pessoas, cujos escritores, músicos e artistas favoritos haviam cometido suicídio, teria que escolher uma maneira que caracterizasse sua percepção da forma. O método escolhido não deveria ser muito sofisticado, mas não poderia ser cômico nem displicente, pois a morte era assunto sério. Mas agora ele tinha 37 e não poderia mais morrer jovem, como havia imaginado fazer, e, enquanto houvesse um amanhã, continuaria a adiar uma maior contemplação do tema. E, como frequentemente se encontrava tentando apressar o fim do dia de hoje bebendo, sempre acordava de ressaca. Saber disso, por si só, o impediria de continuar a ter pensamentos suicidas, mas se esquecesse essa simples verdade, pensava que teria o motivo para acabar com tudo. E, mesmo assim, nem tinha certeza se a corrida estava surtindo efeito sobre o formato de sua barriga. Naquela noite, antes de sair, havia ficado em frente ao espelho e analisado sua forma de todos os ângulos possíveis, inclusive sobre suas mãos e ajoelhado, quando a barriga parecia empurrá-lo para o chão. Percebendo o absurdo de analisar sua forma desse ângulo, fez umas flexões, como se isso fosse sua intenção desde o início, mas então, depois de umas poucas, seus braços fraquejaram e ele se viu deitado de bruços, fora do alcance do espelho. Flexões eram melhor que correr se você quisesse se li-vrar da barriga. Correndo você teria de literalmente suar a gordura, e quanto tempo isso levaria em comparação com transformar a gordura em músculo? Era a diferença entre cozinhar devagar na panela e dar uma fritada rápida. Agora que ele havia decidido adiar a corrida, estava feliz porque não teria que encarar os gansos de novo. A razão pela qual corria ao longo do canal era porque lá você não encontrava ninguém de manhã, comparado com o parque local, cheio de malditos fanáticos por saúde. Mas o que ele não havia previsto sobre correr ao longo do canal eram os gansos selvagens desacostumados a seres humanos, além daqueles determinados a capturá-los para fazer um jantar barato. Diferentemente dos gansos que viviam nos canais que passavam pelos bairros simpáticos de classe média, esses gansos haviam adotado os modos dos seus cruéis vizinhos humanos. Não tinha problema se os gansos estavam na água—eles nem olhavam para as figuras humanas correndo perto deles. Mas se estavam no caminho ao lado do canal, independente de quão silencioso e devagar ele passasse, eles virariam suas cabeças na sua direção, abrindo seus bicos, e assoviariam como se ele estivesse roubando seus ovos. Ele tentou conversar, como se conversa com um cachorro ou com um gato, mas isso não surtia efeito algum com os gansos e ele tinha que recuar como se tivesse uma arma apontada em sua direção, e eles só paravam seus assobios quando ele estava bem longe. Então, derrotado, daria meia-volta e retomaria a corrida de volta pra casa. Esta havia sido a razão original para começar a questionar os efeitos da corrida. Com uma razão estabelecida, as outras apareciam facilmente, até que foram completadas seis semanas sem pisar na pista do canal.

Ela estava aqui, numa noite de despedida de solteira, olhando em volta, todas as suas amigas devem ter ido à próxima boate sem ela. Não queria ter ido com elas? Ela respondeu, “Amo elas, mas que se fodam, o que você quer fazer?” Compare isso com o tipo que normalmente divertiria um poeta, alguém que recentemente havia chegado à conclusão, depois de um início arrogante nos seus 20 e 30 anos, de que tentar entender a escrita da poesia era tão complicado quanto tentar estudar os padrões deixados na areia pelo vento. Um estudo, ele havia decidido, que estava condenado a não chegar a conclusão nenhuma. Sabia disso e ainda assim persistia, mas não lhe fazia sentido outras pessoas como ele saberem disso, e ainda assim se sentissem atraídas por ele. Parecia ser o limite do gosto vulgar, ainda assim, aspirantes a poetas, artistas e cantoras esforçadas que se sustentavam trabalhando em bares ou cafés pareciam ser as únicas mu-lheres que gostariam de conhecê-lo. A possibilidade de se estabelecer com alguém desse tipo o deprimia quase tanto quanto ficar só, e talvez por isso ainda andasse pelos bares do centro da cidade com o olhar sempre atento à próxima pessoa que entrasse pela porta. Se ele quisesse conversar sobre poetas mortos e álbuns conceituais amaldiçoados, poderia fazer isso com um de seus amigos, mas ele não queria casar com eles, e estava cansado de dormir com mulheres que teriam sido melhores como amigas, exceto que, já tendo dormido com a maioria delas, elas tampouco poderiam sê-las.\
Mas uma garota assim, pensou, um quarteto de copos de shot vazios no balcão na frente deles, poderia me casar com ela. Gosta de beber, se veste de um jeito que provocaria todos os meus amigos poetas sensíveis, e—“Vamos pra sua casa, tem muito barulho aqui”—não gosta de eufemismos. No táxi, ela ficou em silêncio. Olhando para ela, sentada ali, pensou que a reconhecia, mas não sabia de onde. Na boate, ela o havia empur-rado para a pista e o beijado com toda a sua determinação. Depois eles foram até o bar da esquina, seus braços apoiados no corpo um do outro. Ela perguntou, sua voz começava a embaralhar as palavras, se ele tinha mais bebida em sua casa. A vodca a acordaria. Ele se inclinou para ela, seus braços em volta dela, e sussurrou o que queria fazer com ela. Ela se virou e começou a beijá-lo, despertada por suas palavras, ainda que o significado exato dessas palavras não fizesse sentido para ela. De volta ao apartamento, ela se sentou no sofá. Jogou seus saltos dizendo “Malditos: nunca uso saltos”. Ele preparou drinques na cozinha. Quando voltou, ela estava removendo os cabelos loiros. “Um vestido chique é tudo”, ela comentou, levantando para se examinar no espelho. Mesmo sabendo que seu cabelo havia sido penteado de uma maneira considerada apropriada para uma despedida de solteira, não esperava que fosse tão diferente. Era curto e marrom como de um cervo novo. Olhando para ela no sofá, pensou novamente tê-la reconhecido. Vendo que ele a olhava daquela maneira, perguntou se ele queria que ela colocasse a peruca de volta. Ele se sentiu besta dizendo que sim, agora que sabia que era uma peruca. “Eu não ligo”, ela disse coçando a cabeça enquanto falava. “De verdade, se você me prefere loira, posso ser loira pra você.” Era uma piada, mas ele não riu. Ao invés disso, ficou olhando pra ela e percebeu que de fato lembrava dela. Anos atrás, quando ele ainda estudava, trabalhou num café, e ela às vezes ia lá com suas amigas. Elas eram alguns anos mais novas que ele, pois ainda usavam uniforme, enquanto ele estava no segundo, talvez terceiro ano da faculdade de Letras. Se lembrou de ter gostado de uma das suas amigas, como gostava de várias que frequentavam o café, mas nada nunca aconteceu. E, muito de vez em quando, ele pensava o que teria acontecido com sua bela amiga. Mas essa garota, sentada próxima a ele agora, era umas das duas amigas da bela. Gradualmente, foi se lembrando de tê-la visto aqui e ali, mas sem sua amiga. Ele não tinha percebido que ela era uma das meninas. Atrás deles, o céu da noite dava espaço para a luz. “Acho que me lembro de você”, ele disse, lembrando do café, sua amiga linda e a outra normal, que provavelmente não devia ser tão normal, pensou. Mas na época ele tinha ficado tão absorvido pela amiga que nunca havia prestado atenção nela. “Você se lembra?”, ela perguntou, seu ânimo ascendia enquanto ele falava. “Claro, você costumava ir com suas amigas ao café onde eu trabalhava, anos atrás”, ele respondeu tentando não parecer empolgado. “E o que aconteceu com a sua amiga?” “Qual delas?”, perguntou. “Becky? Que se vestia meio como puta?” “Não consigo me lembrar”, ele disse, soando deliberadamente vago, “Acho que sim”. “Casou com um milico, mora numa base militar com seis pentelhos que gritam o tempo todo.” “Seis?”, ele perguntou. “Católica”, ela bufou. “Eu frequentava uma escola católica em Stockport. Costumava ir a Manchester às quartas, quando a gente tinha as tardes livres. Ficava por ali, pela (rua) Palácio Affleck, como você. Minhas amigas nunca gostaram do seu café, mas eu fazia com que elas voltassem lá porque eu gostava de você. Aí, não te vi por anos. Morei em Londres por um tempo”, ela silenciou. Ele deve tê-la visto de vez em quando, mas nunca se deu conta. Na boate, ele imaginou essa jovem audaciosa, com cabelo oxigenado e uma boca pra beijar, trabalhando atrás do balcão de maquiagem de uma grande loja de departamentos, que fazia pessoas como ele se sentirem desprezíveis. Mas agora que ela estava aqui, sob a luz fraca do seu apartamento, levantando pra dar uma olhada nas suas prateleiras, percebeu que se ela traba-lhasse numa loja de roupas, era mais provável que fosse num brechó, como os que ele costumava ir. Deve ter sido num desses que ele a viu. Ela havia se transformado: de alguém que achava poetas risíveis, para o tipo de pessoa que gosta de entreter um. Por conta do alto grau de excitação que havia sentido antes, ele agora sentia como se estivesse caindo, deprimido, olhando para seus pés. Ela estava falando sobre a ideia que tivera para um curta-metragem. Ele serviu a ambos mais vodca, esperando que isso o motivasse. Nessa altura, era tecnicamente impossível que ela fosse embora para casa. Mais tarde dormiriam juntos, e, enquanto estivesse com ela, se esforçaria ao máximo para imaginar-se na cama com o tipo de mu-lher que nunca iria para a cama com ele.
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