Saca Só Essas Botas

Fotos por Edith Valle


Martín Hernandez Rodriguez (de vermelho), Saul Nicolás Coronado (de preto) e Gabriel Rodriguez Flores (de branco) formam uma equipe de dança de Buenavista.

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No mês passado fomos até a poeirenta cidade mexicana de Matehuala, no planalto de Huasteca Potosina, em busca das botas de caubói mais pontudas de todos os tempos. No ano passado, o fenômeno das botas vaqueras exóticas tomou conta das pistas de dança e das casas noturnas da região, para o desgosto de muitos mexicanos, que criticam o modismo de seus conterrâneos interioranos em blogs de estilo superacessados.

Mas nos disseram que perdemos a viagem, que os usuários daqueles que são de longe os calçados mais impressionantes que já vimos agora usam botas sem graça de bicos curtos e quadrados. 

Também ouvimos dizer que as botas pontudas estão chegando aos Estados Unidos e se espalhando por cidades onde grandes grupos de imigrantes mexicanos fincaram raízes. Achamos bem improvável essa moda ter desaparecido por completo no México. Sendo assim, fomos ao Mesquit Rodeo e ao Desierto Light, dois locais frequentados por caubóis que promovem concursos de dança ao som de tribal guarachero – basicamente, uma combinação de música eletrônica bate-estaca com flautas tribais, cânticos mexicanos pré-hispânicos e a animada cumbia colombiana.


As botas de Los Hermanos.                                                                Botas brilhantes personalizadas Zaragoza de Solís.

Em Matehuala, o guarachero se tornou um estilo improvável de música, em torno do qual várias pessoas que em teoria não se bicam acabam se divertindo juntas. É também o som preferidos dos homens e garotos que usam botas longas e pontudas.

Os participantes desses concursos de dança passam vários dias ensaiando coreografias elaboradas e criando os próprios figurinos com material local (leia-se barato). O grande prêmio, além dos aplausos entusiasmados da plateia, é uma garrafa de uísque e talvez até uma quantia em dinheiro.

Para nossa satisfação, havia um outro concurso destinado a premiar as botas mais longas, pontudas e mais adornadas, que também ganham destaque em programas de música e dança. As botas exóticas são calçados normais customizados com materiais encontrados nas lojas de ferragens e artigos para artesanato. As mais incrementadas são enfeitadas com luzes de LED, espelhos ou até lantejoulas de todas as cores possíveis. Todas elas incorporam algum tipo de brilho, seja ele qual for. Algumas botas chegam a ter mais de dois metros de comprimento.

Talvez os comentários que ouvimos de que as pessoas tinham se cansado dessas botas fossem apenas intrigas de um bando de invejosos que não têm seu par de botas pontudas.


Botas personalizadas feitas para a equipe Los Parrenderos.      Botas exóticas customizadas Zaragoza de Solís.

Gabriel Amaro Barajas, conhecido como Minri, nos disse que isso se deve em parte a uma disputa mal resolvida. Segundo ele, o povo de Matehuala recebeu injustamente o crédito pela criação das botas vaqueras exóticas. Gabriel explicou que quando as criações do pessoal da cidade se mostraram incapazes de competir com modelos espalhafatosos como os dele, os habitantes de Matehuala resolveram fingir que tinham perdido o interesse pela cena. O Gabriel aparece em uma foto no Chuntaritos.com, um site dedicado a esse estilo, e é identificado como o dono das “botas mais pontudas de 2010”. Existem mais de 100 comentários zombando das botas premiadas, que são tão longas que ele tem que amarrá-las no cinto para conseguir andar. Gabriel garantiu que essa moda foi criada por ele e sua equipe de dança, a Barrio Apache Hyphy, em Zaragoza de Solís.

“Não usam mais essas botas em Matehuala porque não estavam mais conseguindo competir com a gente”, contou Gabriel orgulhoso. “Eles não podem com a gente.”

Perguntamos ao Gabriel se ele tinha alguma ideia do que as pessoas em geral achavam sobre essa moda.


Gustavo, 11, e Carlos Mendoza, 15, são conhecidos como Los Hermanos. Eles ficaram em segundo lugar na final do concurso de dança.

“Quando as pessoas veem alguém com botas pontudas dizem: ‘Nossa, isso é muito louco! Por que você usa essas botas?’ E eu digo que cada um tem seu estilo, né?”

O Gabriel nos apresentou para alguns amigos seus, como o Francisco do Celular, um grupo intitulado Los Pachangueros, uns garotos de Guadalupe e uns caras conhecidos como Los Carnales, do rancho de San Francisco. Todos eles ostentavam suas botas espetaculares.

O Francisco é um rapaz de 18 anos que vende cartões telefônicos pré-pagos e capas para celulares em uma lojinha e perambula orgulhoso pelo centro da cidade com sua calça jeans skinny azul-clara e suas botas de mais de um metro de ponta decoradas com pedrarias vermelhas.

Além de confeccionar as próprias botas, Francisco também cria modelos para vender, de acordo com suas estimativas ele já fabricou mais de 100. Ele até já exportou algumas para os Estados Unidos.

Perguntamos o que ele acha da rivalidade entre os entusiastas e os detratores das botas pontudas.

“Cada um com seu estilo. Para mim, essas botas são as melhores e pronto. Gosto muito delas e não me importo com o que os outros acham. Com tanto que eu goste, não estou nem aí. É assim que eu penso.”


Luis Angel Castillo Sierra, de Buenavista.                                        Nossas botas brilhantes favoritas de Zaragoza Solís.


Martín Cerda Cruz, da equipe Apache Hynphy.                               Jesús Briones, de Zaragoza de Solís, também é membro da equipe
                                                                                                                    Barrio Apache Hyphy
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