HBO/Lacey Terrell
Este post contém spoilers da segunda temporada de True Detective.
Videos by VICE
True Detective, sexto episódio: Athena (Leven Rambin) tenta dissuadir sua irmã, Ani Bezzerides (Rachel McAdams), de ir a uma orgia sexual. Com a voz trêmula, ela diz, apontando para uma pintura: “Fiz para você. Foi pensando em uma mulher se afogando na terra”. Bezzerides, com sua típica aspereza, é rápida em sua resposta. “Não entendo nada de arte.”
Para nossa sorte, o criador da série Nic Pizzolatto e o designer de produção Alex DiGerlando entendem. Dentre as diversas as obras de arte que ornam as mansões e casas de subúrbio da sombria Los Angeles de Pizzolatto, a pintura de Athena é na verdade uma obra comissionada de William Logan, artista que reside no Brooklyn e descreve sua obra como “algo entre a abstração e a representação”. Em parceria com DiGerlando e a cenógrafa Karen O’Hara, que já foi premiada com o Oscar de Melhor Direção de Arte, Logan captura a imagem da “mulher se afogando na terra”, descrição tão plausível da solitária e belicosa Bezzerides.
Athena Mute (2015), William Logan
“Esta obra é baseada em um desenho que fiz no Metropolitan Museum, da Estátua de Sappho de Prosper d’Epinay – uma incrível escultura que sempre me cativou por sua angústia sutil e sua paixão penetrante”, diz Logan em entrevista ao The Creators Project. Embora admita não ser um espectador assíduo de True Detective, Logan conseguiu um bom resultado após uma conversa detalhada com o departamento de arte da série. “Sappho poderia muito bem estar afundando sob o peso de suas emoções nessa escultura. Ela foi uma poeta de grande sensibilidade na Antiguidade, e talvez Athena deixe isto implícito ao reprimir suas emoções. Assim como sua mãe, Antigone estáse afogando.”
Esta não é a primeira vez que DiGerlando e Pizzolatto se utilizam da arte para dar vida a seus personagens: o apartamento espartano de Rust Cohle era mais um reflexo de sua mente obsessiva; já na primeira temporada, o paraíso suburbano de Marty Hard denunciava seus valores tradicionais. O trabalho de DiGerlando como designer de produção nos diz muito sobre os personagens, das lembranças das festas depravadas de Caspere aos totens esculpidos à mão que habitam as lembranças de Ani e Athena de sua falecida mãe. Os totens, por exemplo, são trabalho de Josh Walsh, o mesmo artista que criou os artefatos de madeira que apareceram ao longo da primeira temporada junto às cenas de crime. “Não é algo que a gente fosse encontrar igualzinho [ao descrito no roteiro], precisava ser feito sob medida”, diz DiGerlando em entrevista ao The Creators Project. Ao que parece, arte e nuances devassidão sexual são as únicas verdadeiras conexões entre os dois mundos que os fãs receberão.
Immaculate Reflection, 2006, Terry Rodgers. HBO/Lacey Terrell
As duas ideias se encontram através da vasta coleção de arte erótica de Caspere. “Nic queria que Caspere fosse um personagem fetichista que objetificasse mulheres e as colocasse em um pedestal de perversões, mas ele não queria nada grotesco ou particularmente violento em relação ao sexo”, explica DiGerlando. Enquanto lia o script, quem veio à cabeça imediatametne foi Terry Rodgers , pintor especializado em arte de personagens e política do corpo. “Mergulhamos em seu trabalho e vimos quais obras combinavam mais com Caspere. Decidimos optar por coisas que tinham uma atmosfera sinistra e misteriosa, mas não completamente perturbadora.”
Assista abaixo a história dos “verdadeiros detetives”Stuart Murphy e Tom Tedder:
Duas telas de Rodgers, Immaculate Reflection (2006) e Stealing Scenes (2006), foram utilizadas em cena, assim como a vídeo-escultura de Peter Sarkisian White Water (1999), uma obra do ilustrador de quadrinhos eróticos Milo Manara (que játrabalhou com Fellini), e pinturas de Melissa Mailer-Yates.
Esses trabalhos sexualmente carregados são frustrados pela escultura de um esqueleto coroado, criado pelo artista Deb Jones, de Los Angeles. “Nos inspiramos nos nos opulentos esqueletos de santos folheados a ouro da Europa e no kitsch mexicano de Santa Muerte para criar nosso próprio híbrido”, diz DiGerlando. “Nesse ponto da história, o importante era destacar a cultura bizarra do espiritualismo de Los Angeles. Afinal, True Detective é assim, essas coisas ocultistas assustadoras sempre rolam nos bastidores da série”.
Está bem claro que Chessani, o prefeito, não é um homem do gosto refinado como Caspere. Sua casa, em Bel-Air, é um verdadeiro carnaval de obras (intencionalmente) bregas – indo desde de imagens retocadas no Photoshop de Chessani cumprimentando George W. Bush a retratos oficiais de seu clã (que há gerações governa a cidade de Vinci), pintados pela artista Andrea Dopaso, membro da equipe do programa. DiGerlando, porém, tem uma peça preferida: o recorte em tamanho real da esposa de Chessani, que fica no escritório do prefeito.
O recorte em questão funciona como mais uma ligação entre as duas temporadas e foi inspirado em um fato real. “Na primeira temporada, usamos esta mansão nas filmagens da propriedade dos Tuttle, aquela onde Rust Cohle se infiltra e encontra a fita em um cofre. Um dia, quando explorávamos o local com o dono verdadeiro, vimos em seu escritório um recorte de papelão de sua esposa, que era uma pop star na Rússia. Então, quando fomos fazer a mansão Chessani, tive a ideia de fazer algo parecido e Nic concordou.
HBO/Lacey Terrell
Então, do ponto de vista do design de produção, o que é importante no mundo de True Detective? Sexo, arte e recortes – alguma conexão com os olhos de Ben Caspere? Você é o detetive.
“Black Maps and Motel Rooms” de True Detective, 2ª Temporada, Episódio 7, estréia em 2 de agosto, na HBO.
Tradução: Flavio Taam
More
From VICE
-

Robin Williams (Photo by Sonia Moskowitz/Images/Getty Images) -

(Photo by Jim WATSON / AFP via Getty Images) -

Seinfeld (Photo by FILES/AFP via Getty Images)
