Antes de entrar nos detalhes de como o “Dia Nacional de Lutas” rolou na cidade maravilhosa, vamos dar um breve apanhado dos acontecimentos recentes desde o início da onda de protestos. No dia 24 de junho, um protesto que fechou a Av. Brasil, na Zona Norte do Rio, terminou em confronto com a polícia que perseguiu até a favela da Maré pessoas que supostamente aproveitaram o conflito para fazer um arrastão. Houve troca de tiros na favela e um sargento da BOPE morreu, em resposta a PM matou nove pessoas, pelo menos três inocentes. Na mesma semana algumas dezenas de pessoas acamparam em frente à casa do governador Sérgio Cabral, no Leblon, ficando lá por uns dez dias, acarretando uma queda abissal no movimento do Antiquario´s, um dos restaurantes mais caros da cidade, que fica em frente ao apartamento do governador. No dia 4 de julho, dois dias após serem expulsos de forma truculenta numa madrugada, uma manifestação foi convocada e cerca de dez mil pessoas cercaram o bairro mais rico do Rio e foram recebidos com as bombas de gás e tiros de borracha. Na mesma semana a grande mídia carioca revelou as “estripulias aéreas” do governador, que dispõe de uma frota de sete helicópteros para o governo do estado (enquanto o Corpo de Bombeiros do estado do Rio tem três, sendo apenas um aeromédico). Ele utiliza os helicópteros para levar sua família, empregados domésticos e o cãozinho Juquinha para fim de semanas em sua casa de praia em Mangaratiba. Isso fora o vôo diário do heliporto da Lagoa para o Palácio Guanabara, trajeto que leva vinte minutos em condições normais de trânsito.
Várias atividades tomaram conta do Dia Nacional de Lutas na cidade, começando com atos no centro a partir das 13h, e uma grande marcha com concentração convocada pelas centrais sindicais às 17h na Candelária. Um grupo de umas cem pessoas convocado pela página “Black Bloc RJ” compareceu à concentração e logo foi hostilizada pela turma de vermelho, gerando de cara um início de confusão que culminou com spray de pimenta no ar. Uma hora depois a Marcha saiu rumo à Cinelândia e terminou em confronto com a polícia. Simultaneamente, às 18h40, um grupo de umas duas mil pessoas saiu do Largo do Machado rumo ao Palácio Guanabara, que estava cercado por grades e grande contingente policial. Deu-se início a um protesto que contou com intervenções visuais e palavras de ordem do tipo “Não quero Copa, não quero UPP, quero dinheiro pra saúde e educação”. Não demorou pro protesto ganhar um reforço de uma galera, sobretudo Black Bloc, que veio marchando pelo centro, devidamente escoltados por helicópteros da PM e canais de TV.
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Desde o início da onda de protestos, tem-se notado a volta de um pitoresco personagem da cultura popular carioca — o carinha do isopor de cerveja, carinhosamente conhecido como “ambulante” — afinal, o carioca é de ferro e água enferruja. Fanfarronices à parte, o ato de ocupar praças e ruas para socializar e beber nos ambulantes é uma tradição da cidade, um hábito saudável e barato, que só não agrada muito aos donos de boates, bares e especuladores imobiliários. No processo recente de higienização étnico-social da cidade, os ambulantes foram perseguidos da Lapa ao Baixo Gávea e proibidos de ganhar seus trocados nos fins de semana. Até da maior festa ao ar livre do planeta — o carnaval de rua carioca — eles foram barrados, e só consegue vender cerveja tranquilamente quem conseguir, por conchavo ou mérito de ficar dias acampado na fila, uma das disputadas licenças, e mesmo assim irá fazê-lo coberto de merchandising da única marca de cerveja que ele pode vender. Na Copa das Confederações foi expressamente proibida a venda de bebida alcoólica no perímetro de 3 km dos estádios (ainda que fosse permitida dentro dos estádios) e neste período todo a salvação desta classe foi justamente os protestos, aonde além de cerveja e água gelada, dá pra descolar um extra vendendo máscaras do V de Vingança e óculos de natação. No entanto, provavelmente por estarem impedidos de beber em serviço, a PM dispensa aos ambulantes o mesmo tratamento VIP de qualquer um, e nessa vários carrinhos acabam abandonados, a mercê dos “badernistas mascarados” dispostos a cruzar uma nuvem de gás lacrimogêneo para descolar uma gelada.
Enquanto a galera protestava e bebericava numa boa, volta e meia alguém assustava todo mundo atirando um rojão. Não demorou pra identificarem o autor dos disparos, um sujeito fortão muito suspeito que logo foi cercado por câmeras e vaias e refugiou-se para dentro do Palácio Guanabara, junto com os demais policiais. Quando o protesto finalmente conseguiu fechar a Av. Pinheiro Machado nas duas vias, a polícia logo começou a atirar. A maior parte da galera correu para a Rua Paissandu, virando e queimando lixeiras pelo caminho, alguns moradores gritavam “vândalos”, mas rapidinho mudaram de ideia quando o gás lacrimogêneo tomou conta de seus apartamentos. Depois de esgotar até as bombas vencidas, o governo fluminense comprou em regime de urgência 50 milhões em armamento não-letal, incluindo aí bombas de gás lacrimogêneo destinadas ao governo da Angola, e que têm o dobro da potência. O episódio mais surreal da noite ocorreu com um grupo de umas vinte pessoas que correram para dentro da Clinica Pinheiro Machado, um hospital particular em frente ao Palácio do Governo, e foram seguidos por policiais, que não hesitaram em atirar balas de borracha e gás lacrimogêneo dentro do hospital. Motoqueiros da PM caçavam e revistavam manifestantes e pessoas suspeitas da praia de Botafogo ao Largo do Machado, lançando bombas a esmo pelo caminho. Vários porteiros abriram os edifícios para acolher manifestantes, alguns já contavam com soro e vinagre providenciados por moradores mais engajados. Algumas pessoas arremessavam coisas na polícia pela janela, enquanto a maioria piscava a luz e realizava um panelaço em apoio aos manifestantes.
Não demorou pra massa dispersa voltar para o Palácio, cantarolando um debochado “Olha eu aqui de novo”. Num momento eu acompanhava um grupo que quando estava prestes a voltar ao Palácio foi atacado pela PM e recuou. Uma manifestante seguiu pra frente e após um longo bate-boca legal (o oficial responsável era estudante de direito) conseguiu negociar a passagem da galera pela calçada. Nesse momento o clima no Palácio Guanabara era outro, com o Caveirão a postos e o brinquedinho novo da PMERJ, o caminhão-tanque, munido de um canhão de água de alta pressão. A galera não se deixou intimar e cantarolava “Água mineral” do Carlinhos Brown e palavras de ordem do tipo “Leva essa água para a Baixada!”. Não demorou pra polícia atender aos pedidos do povo e ligar a mangueira nos manifestantes, que fugiram pela Paissandu novamente, que ainda tinha barricadas de lixo ainda ardentes. Desta vez, não houve nenhuma justificativa para o uso da força, nem mesmo um rojão atirado por um P2. A maioria dos manifestantes fugiram na direção da Praça São Salvador, e cercados pelos dois lados fugiram para dentro de um edifício, quem ficou de lado de fora, quase trinta pessoas, foram rendidas e detidas. Logo o foco da manifestação não era mais o Palácio, mas essa rua, grupos cercaram a PM e só permitiram que os manifestantes fossem levados depois que membros da Comissão de Direitos Humanos da OAB chegaram e acompanharam o pessoal a delegacia, aonde a maioria foi liberada rapidamente.
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