A Gente Nunca Aprende: Billy Childish

É hora da parte dois da nossa série A Gente Nunca Aprende. Semana passada nós publicamos as sobras de uma entrevista com Trent Ruane, líder do Mummies, e hoje temos o escritor, poeta, artista e músico Billy Childish. O Billy fez parte de tantas bandas que é até difícil decorar… Thee Mighty Caesars, Thee Headcoats, Delmonas, Milkshakes, Pop Rivets, Buff Medways e mais uma porrada. Ele é um tesouro natural na Inglaterra e só a história dele daria um livro. Muita coisa boa de sua entrevista de mais de duas horas foi extirpada do livro We Never Learn porque fugia completamente do assunto que o livro trata – mas era muito engraçado e divertido mesmo assim.

Considerando que as poucas bandas que saíram dessa sopa primordial do garage rock para alcançarem um sucessinho o fizeram ao adaptarem uma parte do – ou todo – seu som, ele tinha um monte de coisas pra contar. Aqui, um pouco disso tudo.

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Eric Davidson: O que aconteceu na verdade naquela história com o Jack White? Foi uma parada normal em uma matéria e ele ficou ofendido?
Billy Childish: É. A GQ dos EUA fez um artigo grande a meu respeito. Eles pediram declarações do Jack também, mas ele se recusou. Então eles resolveram aprontar com ele, acho eu. Então me perguntaram o que acho do White Stripes, e como um idiota eu disse, “Bom, não me parece muito carismático”. E eu acho isso mesmo. Acho que existe um grande problema que é as pessoas pensarem que existe algum tipo de semelhança entre nós. Mas não há. Eles estão indo em direção aos estádios à todo vapor. Eles dizem que não com o som, mas eles estão sim. Então vai ser muito difícil de conseguirem o que querem alcançar porque a ambição vai ficar no caminho deles. E o Jack ficou muito irritado comigo e escreveu aquela coisa a meu respeito na internet dizendo que eu era um plagiário, e que você simplesmente não pode pegar um blues e mudar a letra. Eles também disseram que sentiam pena de mim porque eu era só um garage rocker amargo. Isso saiu no NME e na Melody Maker. Escrevi uma réplica para a imprensa e mandei para eles dizendo que eu sem dúvida tinha irritado o Jack porque sua admiração prévia por mim não teve recíproca. Achei injusto, e disse que parece inveja. Tenho sons de guitarra totalmente furiosos e um senso de humor desenvolvido. Disse que sigo padrões limitados da indústria musical e que só plagio 50% da minha música, haha. Quando isso foi publicado, mandei um email pro Jack, imediatamente, dizendo, “Jack, me desculpe se você se ofendeu por algo que eu tenha dito. Aquilo é o tipo de coisa que a imprensa publica, não é nada pessoal. É só que, na verdade, eu realmente não curto seu som”. Daí, sabe, ele não respondeu. Também tem o seguinte, você também tem que considerar o fato que, se eu fosse o Jack, pensaria, “Dois milhões de pessoas sabem que eu sou, e ninguém sabe quem você é”. Mas dois milhões não é o suficiente? Porque eu também tenho que gostar?

Bom, obviamente ele te respeita…
Mas seja como for, eu nunca cairia nas profundezas de chupar o Led Zeppelin. Acho que Jack não achou isso nem um pouco engraçado. Alguém fez um pôster de boxe: “Wimpy Jack White vs. Bitter Billy Childish!” E ele conseguiu banir o pôster do eBay!

Então, tem alguma coisa que você quer contar sobre sua experiência com Crypt ou sobre lidar com Tim Warren? Sei que vocês ainda são amigos…
É, sou amigo do Tim. Quando você fala com o Tim, ele não te escuta, só grita. Estou num boa com a Micha (ex-mulher de Warren), agora que ela percebeu que não precisa gritar comigo. O Tim é uma figura. Quer dizer, gosto do Tim, e a gente se divertia muito junto. Ele arranjou para que gravássemos um monte de seus grupos de quando fomos praquele Bad Music Seminar. Caras como os Rat Bastards e um monte daquelas bandas, porque ele queria que as pessoas que conhecessem a sonoridade e não iriam fazer merda, e que pudessem fazer isso em poucas horas. Então ele me chamou para produzir para ele. E foi tudo bem.

É assim que você grava, ainda: banda num lugar, vocal em outro?
Não. Sempre fizemos um pouco de tudo. Costumávamos gravar no Toe Rag [estúdio de Londres famoso nos anos 90 por gravar garage rock] nas antigas, quando começamos. Mas daí o White Stripes começou a usar o estúdio, daí os preços subiram e não podíamos mais pagar. Também temos um amigo que tem um estúdio com equipamentos todos valvulados que é muito bom. E também temos um amigo que tem um estúdio digital, mas ele usa pedaços de uma velha fita de um grupo de R&B no qual ele tocava nos anos 70… Então conseguimos um som decente lá. Dá pra conseguir um som bom desde que você tenha um pouco de fitas e válvulas. Dá até para usar equipamento digital, mas isso significa que você vai precisar ter muito mais disciplina. Não existem regras para como gravamos.

O Buff Medway ainda está rolando?
Não, fizemos alguns discos desde então, mas agora somos o Musicians of the British Empire. Acabamos de fazer uma gravação chamada Fascist Children. É assim: “Fascist children have inherited the earth. Ronald Reagan was there, he gave the curse. Fascist little children, what are you supposed to do when every little smile has to shine brand new? Fascist children they came from long and far, and now even rock’n’roll is just flugging a car. Fascist children holding tight to the purse. It ain’t getting better, it’s just getting worse. My mobile is ringing, the ice is getting thin. A terrorist might get you, the tunnel is caving in. The countdown is beginning, the winner can’t win. Save your own skin, everyone is a loser. As fascist children you said it was punk rock, and now we are on our knees sucking cock. Fascist children believe it’s true, but what she did to them, she will do it to you. Fascist children the headlines will grab you. Yank out your arms or children might stab you. Fascist children you said it would be fun, but now you are staring down the barrel of your own gun. Fascist children what can you lose, when you can all be famous on YouTube? Fascist children are you glad she came preaching a gospel of greed and gain? Fascist children, why don’t you give me a smile for the CTV cameras for mile after mile after mile.”

Uau. Voltando no tempo, você fez uns covers do The Clash. Foi numa convenção musical onde estava a esposa do [baixista do Clash] Paul Simmonon — que é a pessoa que mais tá cafetinando as músicas do Clash hoje em dia. Foi muito esquisito. As pessoas estavam perguntando pra ela como ela decidiu colocar aquelas músicas em comerciais, e as respostas eram ridículas, no que diz respeito a quais músicas vão pra quais comerciais. Tipo, qual marca de carro é boa e qual não é. Foi muito esquisito.
Bom, acho que a melhor coisa a fazer em relação a colocar uma música sua num comercial de carro é escolher quem paga mais.

Exatamente. A gente sabe o que você tá querendo dizer. Ela disse que escolheu empresas que eles imaginam que não incomodariam o Joe Strummer.
Como a Land Rover?

Haha, é, do tipo o New Bomb Turks só faz Rolls Royce. Talvez Bentley.
Nunca tivemos que lidar com coisas desse tipo porque não estamos muito nesse nível de conseguir vender carros. Na verdade existe um grupo local que faz versões pop de nossas músicas chamado Len Price Three. Eles pegam músicas antigas do Headcoats e do Caesar e deixam pop. É bem engraçado, mas também é irritante porque eles fazem essas versões pop das nossas músicas e eles é quem ganham a grana — nós não. É impressionante. O [cantor do Dead Kennedys] Jello Biafra estava reclamando para mim alguns anos atrás que o resto da banda estava tentando processá-lo porque ele não autorizava a Levis a usar uma de suas músicas. Perguntei pra ele: “quanto estão te oferecendo?” Ele falou que era US$70.000 e disse “É, isso não é suficiente agora, é? Se você vai se vender, é melhor que seja mais do que isso!” Quer dizer, eu acho que se vender é irritante. Acho esquisito quando bandas que já são ricas deixam que usem suas músicas em publicidade, porque quando você já é rico, é daí mesmo que você não precisa se vender. Tipo, se eu der minha música pra Toyota, talves eu possa ser perdoado porque nunca ganhei nenhum dinheiro, e também não me colocarão nunca no Music Hall of Fame. Ninguém está preocupado comigo. O Nirvana nunca copiou nenhuma música que fiz. Nenhuma dessas pessoas que são meus fãs jamais fizeram um cover de uma música minha.

Muita gente diz que essa é a única maneira pela qual as bandas podem sobreviver hoje em dia. Ninguém compra CDs. Os fãs pegam as músicas de graça na internet. O rádio é podre. Talvez você ganhe grana fazendo shows. Daí as bandas acham que o único jeito de ganhar dinheiro é se colocarem uma música numa trilha sonora ou num comercial de TV.
Não vejo problema nenhum em nada disso, mas não escrevo músicas que funcionem pra essas merdas!

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