Semana passada larguei meu trampo metido a besta no ramo editorial, trocando meu salário, seguro saúde, plano de carreira respeitável e a participação nos lucros da empresa pelo mundo nebuloso do semi-emprego e um esquema pra ficar rico rapidinho no mercado imobiliário. Por enquanto tá dando tudo certo, a não ser essa parte de ficar rico rapidinho. De qualquer forma, antes de sair passei três anos trabalhando com o Eric Davidson, vocalista do New Bomb Turks, na história do punk e da música de garagem dos anos 90. O livro, We Never Learn: The Gunk Punk Undergut, 1988-2001 é o próximo capítulo na sucessão Mate-me, Por Favor/American Hardcore/Our Band Could Be Your Life.
O manuscrito chegou até mim com quase 450.000 palavras e muita coisa boa teve que ser tesourada, daí, ao invés de mandar a gordura pro espaço, despejei na Vice. Aqui vai um trecho de uma entrevista que Eric Davidson fez com Trent Ruane, líder do The Mummies. Divirta-se.
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Eric Davidson: Quando o Mummies começou tinha um monte de coisas hippies a la Paisley Underground rolando na Califórnia. Vocês tiveram alguma influência disso ou foi mais uma reação a isso?
Trent Ruane: Bom, essas bandas dos anos 80, elas tiveram sim uma influência sobre nós, mas como a maioria das coisas, foi o contrário. Aquelas bandas me irritavam mesmo, porque escutar os discos das bandas de garagem dos anos 60 era um choque, muito por conta da maneira com que foram gravados. Comprei alguns dos discos dessas bandas e o som era uma merda, limpo demais, como qualquer outra banda dos anos 80. Eu e o Russel pensamos que seria muito mais legal se fizéssemos um lance sacaneando isso, falando “foda-se essa modinha”, e simplesmente fazendo algo estúpido.
Há uma tradição das bandas dos anos 60 que usavam umas fantasias de piratas ou de swamis combinando, coisas desse tipo. Mas acho que lá pelo meio da década de 80 isso estava completamente esquecido pelos fãs de rock mais novos.
Estou descobrindo agora que toda essa coisa “garage”, ou voltando uns cinco anos, [novas garage bands] são influenciadas por uma coisa só, e isso é a primeira onda de garage bands, que parece ser bem unidimensional.
É, diria que metade das coisas ficaram velhas rapidamente, como bandas com capas kitsch. Sabe, do tipo uma mina num hotrod na capa do single. Legal por um tempo, mas bem previsível. E o nível de tosqueira nas gravações geralmente não fica tão ruidosa como as suas ou do Teengenerate, ou estupidamente rápido como os Devil Dogs, Dwarves…
Acho que é mais difícil para as bandas fazerem algo do tipo, lançar e não ficar com vergonha. Se você ouvir alguma coisa que fizemos, é como escutar algo saindo do rádio AM.
Tem mais: pelo menos para a maioria das bandas que conheço em Ohio que fizeram todo o caminho lo-fi, não foi porque estavam indo para determinado estilo… Tipo, foi divertido e mais rápido, mas teve muito a ver com economia.
Não consigo falar isso sem soar careta ou hippie, mas foi realmente mágico. O órgão era um órgão Doric barato, meio que um Farfisa, achamos num brechó, novinho, como se nunca tivesse sido usado. Na época, ninguém usava muito esse tipo de órgão, não foi como se os White Stripes tivessem feito umas guitarras clássicas muito procuradas depois. Silvertsones e órgãos por US$ 35! Isso é mágico. Não se acha isso todo dia… Mas você acha o suficiente.
Mas no começo, quando gravou as primeiras paradas, claramente você estava numa boa em lançá-las.
Na verdade, queria que elas soassem como as paradas de garage rock antigas, ao ponto de cada uma soar um pouco diferente. Eu realmente curtia essa coisa misteriosa. Você conhece as compilações Garage Punk Unknowns? Eram minhas preferidas. Gostava das Back from the Grave, mas as Garage Punk Unknowns eram minhas preferidas porque não havia informação nenhuma nas capas dos discos. Um monte de figures borradas sem nenhuma informação, e ainda assim era a coisa mais legal, todo esse mistério. Quem afinal é essa banda no porão com uma inscrição bizarra na parede e com uns malas tocando?
É. Agradeço todo o trabalho em rastrear informação sobre essas bandas completamente esquecidas que lançaram um single e acabaram no AA anos depois não querendo falar sobre suas adolescências sórdidas. Existe um certo mistério inspirador numa personalidade que gasta tanto tempo pesquisando essas coisas. Ainda assim, Ugly Things é meio que a Bíblia dessa mentalidade, e isso pode ser um saco também. Acho que também há algo a ser dito quando se deixa algumas dessas coisas pra lá.
É por isso que nunca colocamos nossos nomes em nenhum dos discos. Depois nossos nomes apareceram em entrevistas, mas eu tentei mesmo deixar isso meio que de lado. Depois do colegial, Maz e eu pegamos um empréstimo de US$ 1000 e compramos alguns equipamentos de gravação.
Você entrou num banco e eles te deram um empréstimo?
Bom, foi o tio ou o pai dele…
Porra, eu realmente esperava que fosse uma cena com dois colegiais envoltos por gazes que sentaram com o banqueiro e explicaram como queriam fazer essa garage band suja.
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