Reza Nader (The Arab Parrot)
Maio de 2012: Despedi-me do meu emprego e deixei todos os meus amigos para trás.
Só uns meses depois é que iria perceber o quão estúpido isto foi.
O Verão chegou, suavemente como uma canoa. Fui exímia na prática do nadar de costas. Não trabalhava e a vida era um rio preguiçoso. Era uma pinha a vaguear para cima e para baixo, que um Christopher Robin versão puto atirou para um mundo de adultos — para longe da Jane Pratt e de gajas como ela.
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Passaram-se um ou dois meses e ainda estava nas nuvens, sem pensar em emprego e dinheiro, apesar de pouco sair da cama.
“Espere um pouco”, respondi quando o New York Times me ligou para conferir uns dados na entrevista que lhes tinha dado há três meses. O meu cabelo estava em desalinho, usava um robe enorme e maquilhagem de prostituta. Andava a fumar erva e a ver o Keeping Up With Kardashians, enquanto bebia sumo de laranja com uma palhinha e me olhava ao espelho durante oito horas. “Tenho de desligar a televisão.”
Uma
peça de duas páginas sobre mim saiu nessa semana.
“Na merda da revista!”, enviei mensagem à minha irmã.
“Estás bem?”, perguntou-me ela, apesar de ainda não ter lido a história.
Reza Nader (The Arab Parrot)
Andava tudo a correr bem. A Doria, a minha dealer de branca, saiu da cadeia e veio logo trazer-me uma encomenda à porta, na sua carrinha, como o coelhinho da Páscoa.
A filha loira do meu rock star favorito estava em ecstasy, a foder com um amigo meu, em cima do telhado do sítio onde estávamos a mandar uns riscos e a tentar, educadamente, ignorar o que se estava a passar. Ouvi um barulho esquisito e assobios na parte de cima do meu prédio. De repente, houve um clarão cor-de-laranja brilhante na Avenida C. Eu e a filha da celebridade gritámos. Os meus amigos estavam a falar sobre um gato que mais se parecia com uma coruja. Um tipo continuava a mandar-me mensagens, nas quais dizia que estava apaixonado por mim, o que até foi fixe, apesar de estar e de me continuar a cagar para isso.
Os pedidos da imprensa para entrevistas continuavam a chegar. Não sou assim tão burra: sei que os jornalistas não queriam escrever cenas simpáticas sobre mim, mas secretamente estava um bocado confusa com o que estes gajos, os editores e o público queriam. Então, decidi jogar pelo seguro. Resolvi que não poderia mandar nada antes da minha entrevista para o Wall Street Journal, mas acabei por borrifar nisso. Erradamente, fui até ao Café Gitane e cheguei à entrevista 45 minutos atrasada. Mamei café e anunciei a quem quis ouvir que tenho uma péssima auto-estima.
“Odeio-me”, disse ao jornalista.
“Precisas de um assessor de imagem”, respondeu-me a minha amiga assessora, quando lhe contei isto.
“Tenho de sair desta merda”, contrapus.
O repórter do Wall Street descreveu o meu tom como “frágil e choninhas”, o que me fez imaginar-me como um copo triste de champanhe. Dois dias depois, choraminguei com uma tipa britânica da revista de fim-de-semana do Guardian, quando ela perguntou se me sentia sozinha. A tipa pegou-me na mão — culpei a minha hipotensão por isso e depois pedi uma salada, enquanto a relembrava de que não tinha dinheiro. “Mas não é bom que eu tenha apetite?”, mandei para o ar, enquanto ia desbobinando a minha vida triste.
“Ok, finalizando, só quero dizer ao Reino Unido que o Pete Doherty não é um vilão”, disse ao Guardian. “Fui diagnosticada com adição sexual por um idiota qualquer. Não sou uma ninfo, como se diz por aí. Coloca isso no teu artigo!”
Não tinha ideia nenhuma do que andava a fazer.
Sabia o que NÃO estava a fazer: a escrever o resumo do meu livro; a escrever o livro; a escrever a minha coluna na VICE a tempo e a impressionar o editor; a abrir a minha caixa de entrada; a responder a emails; a dormir; a comer; a ler mensagens; a sair; a beber água; a sentir; a ir a qualquer lado.
Não conseguia explicar exactamente o que tinha mudado, mas para mim as coisas alteram-se constantemente e a mudança é rápida.
Em vez disso, estava no meu apartamento durante o mais belo dia de praia, enquanto me babava com uns nus do Thomas Ruff, que retirei do catálogo da Sotheby’s e que colei nas minhas paredes. Tinha escrito notas no interior do How To Instantly Connect With Anyone e parado de comer.
Quando começava a anoitecer é que saía à rua. Andava sozinha pelo Soho e chutava as más vibrações à hora do jantar, enquanto pensava por que motivo é que ninguém me convidava para ir jantar fora. Mascava uma pastilha ao mesmo tempo em que enviava mensagens à Julie, a minha antiga assistente, com coisas como: “Queriiiida. Sabes onde é que posso ir colocar pestanas falsas às oito e meia da noite?”
A Julie tinha ido sair. Escrevi o que sinto — mil lâminas atravessavam-me naquele momento — num caderninho que guardo sempre na minha mala. Sentia-me culpada: estava a fazer merda.
O sofrimento é opcional, diz a lógica das letras sobre anfetaminas. Sabes lidar com esta porra.
Reza Nader (The Arab Parrot)
No dia que se seguiu (não é que tenha dormido, diga-se), ouvia as ladainhas na sala de espera do consultório do meu psiquiatra. Estava absorta, a gostar avidamente de toda e qualquer foto no Instagram — os meus melhores amigos estavam em Aspen, Los Angeles e nos Hamptons.
Quando o Dr. F olhou para mim, tremi como uma varinha.
“Como é que tens estado desde a última vez que te vi?”, perguntou-me o médico, um simpático velhote que já tinha o meu histórico à mão. Ele tiinha 79 anos.
“Calma”, retorqui. “E PREGUIÇOSA!” Saí a correr da sala, uma corrente estranha estava a levar-me.
Durante o Verão, forcei-me a passar fome e andei constantemente nervosa. Caí de umas escadas. O meu agente reencaminhou-me um email do Narconon, um centro de reabilitação que andava obcecada em experimentar: eles queriam ajudar-me. Decidi tratar disso quando me sentisse com mais forças.
Reza Nader (The Arab Parrot)
Mais imprensa. Os jornalistas da revista Page Six foram ao meu apartamento e observavam-me enquanto me maquilhava e enchia uma enorme garrafa de bebida energética com metade de vodka. Fiquei bêbeda toda a noite, cansada, mas a fingir estar em altas. Insinuei-me ao fotógrafo.
“A minha clavícula está tão bronzeada como o resto do meu corpo?”, perguntei -lhe.
A cada hora que passava, deprimia, parava e erguia-me para encarar as miúdas da Page Six. Confidenciei-lhes sobre como estava preocupada com a história que circulava de que sou uma drogada e não uma party animal. Contei-lhes que estava na merda e perguntei-me por que estava a fazer isso. O fotógrafo olhou para mim com ar de pena e a jornalista prometeu-me que não teria nada com que me preocupar.
“Há dez anos, andava aí a dançar com o Justin Timberlake!” Isso era o tipo de cenas idiotas que continuava a dizer, a propósito de nada. “Costumava ser uma pessoa normal!”
Passaram-se mais dias. Desisti de comer doces, de descansar e de levar com luz. Concedi-me a ir ao supermercado comprar vodka sempre que me apetecia. Aliás, concedi-me a tudo — literalmente — à noite. E depois convenci-me de que não sabia escrever. Fumei ganzas atrás de uma discoteca e andei às voltas pelo meu apartamento de batom e de botas. Fumava cigarros light em pé na janela, enquanto via o Verão a começar a desvanecer-se. A falta de sono começava a desorientar-me emocionalmente. Continuava a cair da minha própria cápsula e chorava ao mesmo tempo em que ouvia o Motley Crue a dizer: “Girls, girls, girls!”
Por fim, estava a andar sozinha na Avenida B. Usava chinelos Lanvin e tinha uns sapatos de salto alto na mão. Era o fim do dia. Havia baratas a correr ao meu lado, no asfalto, essas putas conseguem mesmo andar rápido! Tinha um boné com publicidade a uma marca de cigarros — estava exausta de ter algo a provar.
Embebedei-me num bar. O céu estava estupidamente cinzento: o Wall Street Journal chamou-me de drogada. Estava a tornar-me na minha própria coleccionadora de peças de imprensa. O Rodney King morreu ao fim do dia, em Los Angeles, no fundo da sua piscina. Um corpo pode boiar como um barco. Uma mente pode quebrar-se e acelerar como um avião. Conseguem notar que tenho um cérebro drogado? É um sítio complicado, bem sei.
A chuva começou e rapidamente tornou-se num dilúvio do qual não consegui escapar, o que até foi fixe. Uma loira encharcada e a cair até parece chique. Há coisas que as pessoas que andam sozinhas na cidade têm de aprender — saber como andar para a frente. Estava tão magra que conseguia andar pela tempestade subtilmente. As baratas seguiam-me como fantasmas.
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