
Nos últimos seis meses, o Iraque ficou meio Síria. Jihadistas atravessam a porosa fronteira síria impunemente e alimentam a violência sectária no país vizinho. A Al-Jazeera informou que o Iraque já conta mais de cinco mil mortes só este ano. O norte curdo, considerado a história de sucesso do Iraque, não foi poupado. No dia 29 de setembro, um ataque coordenado de carros-bomba e tiroteios assolou Arbil, a capital da região autônoma.
Apesar disso, o Iraque é o lar de uma grande comunidade expatriada, amplamente dominada pelas pessoas que trabalham na indústria petroleira. Em Arbil, principalmente devido à presença de cristãos assírios, leis liberais quanto ao consumo de álcool permitem que bebidas sejam vendidas nas lojas, e a cidade conta até com uma pequena cena de bares locais — o último vestígio de indulgência num Oriente Médio cada vez mais apaixonado pelos fundamentalistas. Muitos desses bares funcionam como points neocoloniais, com trabalhadores da indústria do petróleo, diplomatas, funcionários de ONGs, empreiteiros de segurança e estranhos locais se reunindo para olhar decotes ocidentais, todos agindo como estranhos colegas de bar.
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Mesmo que Arbil ainda tenha um longo caminho pela frente antes de ser considerada um reduto da vida noturna, certo evento anima a cena de bebedores locais: a celebração anual da Oktoberfest. A festa acontece num pequeno complexo localizado numa poeirenta área residencial, o endereço de um restaurante alemão chamado Deutscher Hof. E lá fui eu conferir a coisa toda.

Depois de uma revista um tanto pessoal demais por armas e bombas, minha entrada foi permitida no restaurante. Lá dentro, encontrei oito alemães sentados ao redor de uma mesa de plástico. Um palco tinha sido montado para uma banda de metais vinda especialmente de Munique para tocar aqui.

Depois de 20 minutos bebendo sozinho em minha caneca de cerveja enorme, comecei a me sentir meio decepcionado com as festividades. As outras únicas pessoas lá eram de um grupo de trabalhadores petroleiros que pareciam parte da turma de babacas de fraternidade do Ben Affleck em Jovens, Loucos e Rebeldes.
Quando eu estava quase desistindo, uma multidão (incluindo algumas mulheres de verdade) entrou no complexo vestindo lederhosens e dirndls. E a banda da noite estava com eles.

Na ponta da procissão vinha um homem cercado por guarda-costas, que gritaram para os trabalhadores petroleiros fanfarrões se afastarem. Aparentemente, aquele era Nihad Latif Qoja, o prefeito de Arbil. Bem no estilo da verdadeira Oktoberfest, onde o prefeito de Munique coloca a torneira no primeiro barril, o prefeito pegou uma marreta e avançou para abrir o primeiro barril de cerveja.

Pelo visto, ele não tinha muita experiência nesse campo. Depois de acertar o barril sem conseguir nenhum resultado, o prefeito olhou para um dos caras de lederhosen esperando alguma orientação.
Depois de ser encorajado a continuar, ele partiu para o segundo golpe. O cara de lederhosen gritou “O’zapft is!” e a festa começou de verdade.

Nesse momento, algumas pessoas com cartazes subiram ao palco para falar um pouco sobre a maravilhosa organização que tinha tornado a festa possível. Os organizadores iam da Poineer Engeneering, uma companhia de serviços de petróleo e gás, até a Black Lake, uma companhia de serviços de campos petroleiros. Todos os patrocinadores tiveram que subir no palco, segurar seus cartazes e fazer um discurso de um minuto louvando o governo local e tentando convencer as pessoas de que eles não eram tão maus assim.

Enquanto pegávamos nosso refil de cerveja, a banda começou a tocar e um cara que parecia uma versão crescida do Üter, aquele alemãozinho d’Os Simpsons, serenou a plateia com sua interpretação de “s boarische Bier”. Depois, ele pediu para que a multidão brindasse enquanto ele mencionava seus países de origem. “EUA! CANADÁ! TEXAS!”, ele gritou, como se o Texas fosse algum tipo de entidade separada.

Claro, como sou cara muito sortudo para festas, acabei na mesma mesa de um monte de velhos que achavam que a Oktoberfest era uma boa oportunidade para beber com moderação e discutir seus últimos acordos de negócio.
Querendo escapar do fã clube do Kenny G, resolvi dar uma volta pelo complexo.

Encontrei essa mulher, que foi coroada Miss Oktoberfest e ganhou um desses biscoitos enormes em forma de coração como prêmio. Considerando que ela era uma das quinze mulheres presentes, eu não diria que tenha sido uma grande conquista, mas parabéns mesmo assim!

Para meu grande deleite, a festa tinha um bufê completo com várias comidas tradicionais alemãs — CACETE, ISSO É CARNE DE PORCO?!?! Depois de um momento de hiperventilação, rapidamente descobri que minhas suspeitas estavam corretas. Considerando que eu estava no único lugar do país inteiro onde serviam carne de porco, não perdi a oportunidade de encher a boca de linguiça. Nesse ponto, eu já estava alcançando um estado de quase nirvana, proporcionado apenas pala ingestão excessiva de porco depois de um mês comendo kebabs ruins e as piores tentativas de pizza do Oriente Médio.
Depois de desafiar alguns dos meus novos amigos para competições de beber, eu já estava completamente “betrunken”, como dizem os alemães — então, minhas memórias dessa parte são meio nebulosas.

Julgando pelas fotos, acabei subindo no palco em algum momento, fazendo o que parece ser minha interpretação de um pas de deux com a bandeira da Baviera. Considerando que os participantes do evento parecem sequer perceber meu comportamento, com esse cara da esquerda mais interessado em expressar seu amor pelo rock and roll do que notar minhas estripulias no palco, essa conduta pode não ter sido tão aberrante quanto eu temia.
De acordo com uma testemunha, esse também foi o momento da noite quando fui gentilmente informado de que não me serviriam mais cerveja. Então, sentei derrotado num banco enquanto meus amigos continuavam bebendo.
Na manhã seguinte, arrastei minha cabeçona ressaquentíssima para um café frequentado por ocidentais em Arbil. Enquanto eu me sentava, a equipe de construção que erguia um segundo piso acima do café derrubou alguma coisa pesada no teto, fazendo um barulho alto que reverberou por todo o espaço, fazendo os clientes, incluindo eu, correrem de suas cadeiras como baratas expostas à luz.
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