A habilidade da nossa amiga Brandy McDonald, demonstrada na nossa edição de moda, de transformar modelos vivinhas da silva em cadáveres apenas com o poder da maquiagem nos deixou pensando a respeito das pessoas que ganham a vida com a morte: agentes funerários.
Para saber um pouco mais sobre essa cena, conversamos com a Jess Hanlon, que está fazendo um curso técnico para agentes funerários. Aliás, é assim que eles gostam de ser chamados, não de “coveiros” ou coisas do tipo.
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Vice: Por que você quis virar uma agente funerária?
Jess Hanlon, estudante de Serviços Funerários: Porque é diferente dos outros trabalhos por aí, e muito mais gratificante do que as pessoas imaginam.
Então não tem nada a ver com uma obsessão pela morte?
Não. Geralmente há muito mais interação com as famílias envolvidas do que com a pessoa que de fato morreu. Nós somos conselheiros informais na hora da tristeza. Também preparamos o defunto para que as famílias possam vê-lo pela última vez de uma maneira digna.
Como as pessoas costumam reagir quando você diz que é uma agente funerária?
Depende. A maioria delas simplesmente muda de assunto assim que digo o que faço. Obviamente existe um desconforto geral em torno da morte na nossa cultura. Mas, recentemente, as pessoas têm estado mais receptivas para o tema. Eu só conto para as pessoas quando elas realmente perguntam, mas se elas ficam desconfortáveis, mudo de assunto.
Me fala um pouco do seu curso. Que tipo de aulas você tem?
O programa é bem intenso, na verdade. É basicamente um curso de dois anos condensado em um, seguido por um ano de estágio numa casa funerária. Temos aulas de anatomia, laboratório de embalsamento, teoria do embalsamento, orientação sobre serviços funerais, ética para serviços funerários e humanidades. O curso lida principalmente com questões práticas e legislativas.
Onde você trabalha?
Trabalho para uma empresa que faz serviços de transporte para casas funerárias e legistas.
Vocês recebem uma chamada, seguem para o local da morte e levam o corpo para o necrotério ou agência funerária?
Sim.
Assustador. Como são as outras pessoas do seu curso?
Somos 140 alunos. Alguns são melhores que os outros. Alguns levavam mais jeito com a parte de embalsamento do que com o trabalho com as famílias e vice-versa. Tem a mesma diversidade que você encontra em qualquer programa. Mas somos bem descontraídos e gostamos de festas.
Algum esquisitão?
Bom, eu obviamente não iria chamar ninguém do meu meio de “esquisitão”. Essa é geralmente uma ideia errada que a mídia faz de nós, infelizmente.
Como assim?
Tipo, tendem a capturar o lado mórbido e assustador da nossa profissão. Não focam nos homens e mulheres que trabalham 14 horas num embalsamento e que concordam em trabalhar por mais duas para preparar o velório com a família. Essa parte não chama tanta atenção. Mas a perspectiva tem mudado, o que é bom. Quanto aos agentes de funerária no geral, somos todos pessoas bem normais. Ninguém quer confiar um falecido amado a uma pessoa esquisita.
E quanto aos aspectos do embalsamento. Sempre achei que fosse mais coisa de homem, já que as meninas são mais do tipo “éca”.
As meninas são mais fortes do que você pensa. Também somos muito boas com cosméticos, apesar de eu ter visto homens muito bons também, como o diretor do meu programa. Conheço muitas mulheres que trabalham como embalsamadoras. Mulheres só começaram a escolher nossa profissão em grande número recentemente. Não sei porque, mas parece que levamos jeito pra coisa.
Como foi a primeira vez que você embalsamou um corpo? Isso me deixaria arrepiado.
A primeira vez foi durante o processo de observação de 40 horas, que é necessário para entrar no programa. Eu estava um pouco nervosa, mas todo mundo era muito profissional, o que facilitou bastante.
Além do processo de embalsamento, você tem que vestir o morto e fazer a maquiagem. Quanto a família influencia nisso?
As famílias trazem um terno ou uma peça favorita de roupa e, geralmente, uma foto recente, para podermos deixar a pessoa o mais parecida possível com o que era. Se uma mãe gostava de uma tonalidade de batom em particular, pedimos para a família traga o batom. Esse tipo de coisa.
Alguma família já te pediu para fazer alguma coisa bizarra ou fora do comum?
Bom, nós nos esforçamos para personalizar funerais. Alguns serviços são bem tradicionais, mas às vezes os membros de uma família trazem algumas lembranças dos seus amados. Já tivemos vacas de porcelana, canoas… Sério, topamos tudo. É o funeral deles.
Um caixão de porcelana em forma de vaca?
Haha, não. Era uma vaca grande exposta num canto. O falecido estava em um caixão normal do outro lado do velório.
Então, qual é a melhor e a pior coisa de ser uma agente funerária?
A melhor coisa que eu diria é óbvia. É a sensação que você tem quando faz um bom trabalho, ajuda a família do jeito que pode. A pior é provavelmente quando você manda mal de alguma maneira. É horrível quando isso acontece.
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