Arrumando as malas para estudar longe de casa

Na fila da rodoviária, mil sentimentos loucos e contraditórios vêm à tona. Ansiedade, alívio, medo e saudade. O destino de quem escolhe estudar longe de casa é incerto, como no primeiro dia de aula do jardim de infância. Na universidade, é a mesma treta: a gente se sente um peixinho fora d’água, sem o abraço dos amigos ou o colo dos pais. A boa notícia é que você não está sozinho, embora sinta isso nos primeiros meses.

No começo, estudar longe de casa parece apenas um sonho louco e distante. Mas não custa nada tentar, né? Por isso, muitos candidatos aproveitam o Enem para fazer algo completamente diferente, ainda que do outro lado do Brasil. Rola aquela empolgação básica, mas sem muita fé no que vem pela frente. Quando o nome surge na lista dos aprovados, a coisa muda de figura. Alegria que não cabe no peito, festa com a família, trote com os amigos… E o começo das despedidas. É hora de arrumar as malas.

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Mas, calma, está todo mundo no mesmo barco. Em universidades e faculdades do interior, por exemplo, boa parte dos alunos vem de fora, também, em busca de uma experiência nova. São todos estranhos no mesmo ninho, que podem acabar se aproximando e se ajudando e até, quem sabe, virando família. Foi assim que Raphael Silva se reencontrou na universidade, depois de trocar São Paulo pelo bairro universitário de Barão Geraldo, em Campinas.

“Não era a minha primeira escolha. Pensava em continuar em São Paulo, tocando duas graduações ao mesmo tempo. Mas não rolou e tive de escolher entre três cursos diferentes, um deles em Campinas. Foi aí que enxerguei uma oportunidade de amadurecimento, quando pensei em como seria morar sozinho”, lembra ele. Depois de tomar a decisão e optar pelo curso de Midialogia, Raphael adiou até o último instante a ida definitiva para a nova cidade.

No começo, tudo naquele lugar parecia um saco. O calor, o bairro quase vazio, poucas opções de rolê… Era só o medo falando mais alto. “Eu estava indo sozinho para Campinas, sem a família e sem meus poucos amigos. Sempre me achei um cara mais introvertido, então ficava pensando em como seria conhecer gente nova. Rolava mais medo do que euforia e alegria, para falar a verdade”, admite.

O pior foi o comecinho. Raphael ainda tentava se adaptar à nova rotina, voltando para a casa todos os fins de semana, religiosamente. Esse hábito lhe ajudou a superar sentimentos de isolamento e solidão; outras pessoas, nessa mesma fase, não aguentam a saudade e resolvem voltar para casa. Raphael segurou a barra e acabou percebendo que era bem maneiro morar sozinho.

“Quando comecei a me enturmar e criar vínculos com outras pessoas, tudo ficou mais fácil. Aí, eu vi como era bom ser independente, fazendo meus corres e aprendendo a me cuidar. Lembro até do primeiro jantar mais complexo que preparei, um estrogonofe, receita da minha mãe. Fiz tudo certinho e ficou mó bom, foi uma vitória. Bateu aquele sentimento bom de superar um desafio”, brinca.

Quando Campinas virou sua casa, Raphael se viu cercado pelos melhores amigos do mundo, que era a turminha da faculdade. Eles até chegaram a montar uma república juntos, mais tarde, como uma grande família. “Penso que a contribuição da faculdade nesses anos foi muito mais pessoal do que acadêmica. Aprendi a me conhecer estando sozinho, me virando. E fiz muitas amizades com consciência, não por conveniência, que levo comigo até hoje. Foi a melhor decisão que tomei”, acredita ele.

Planejar é preciso

O amadurecimento de quem deixa a casa dos pais é inquestionável. Tem que ter jogo de cintura para lidar com tudo quanto é tipo de situação, das legais às zoadas. De repente, você precisa aprender a cozinhar, arrumar as coisas, cuidar da casa, arranjar um trabalho, se virar com a grana do mês e, além de tudo, estudar. Para a estudante de Psicologia Vitória Machado, essa fase ainda etá sendo bem treta.

Natural de Araçatuba, em São Paulo, Vitória foi de mala e cuia para Campo Grande, em busca de uma boa faculdade. Além do fator educacional, ela sabia que não estaria tão longe de casa, caso fosse aprovada por lá. Ela já cultivava essa vontade de ir para longe desde a adolescência, na oitava série, quando começava a pesquisar cursos e possibilidades. Não deu outra: Vitória suou, ralou e foi atrás do sonho com todas as forças.

Verena Antunes / Vice Brasil.

“Estudei tudo que estava ao meu alcance, fui até o meu limite. Nesse processo, tive altos e baixos, por causa da depressão. No último ano, refiz provas de vestibulares dos anos anteriores, foquei nas matérias que tinha facilidade e foi isso. Quando soube que passei, fiquei paralisada. Até hoje não acredito que consegui”, conta a jovem.

Pois é, Vitória passou e ainda está tentando lidar com as dores e as delícias de estar longe de casa. Por um lado, ela sabe que a decisão fez com que ela amadurecesse muito mais do que se tivesse escolhido continuar em Araçatuba. Por outro, é preciso muito controle e planejamento para não se dar mal na questão financeira. Esse é o maior perrengue que a estudante precisa driblar.

“Me organizo muito e sou controlada em relação aos gastos. Tem que se programar direitinho e não se deixar levar pelo impulso, já que você nunca sabe quando vai precisar gastar um dinheiro com coisas essenciais”, aconselha ela. No grupo Enem das Minas, aliás, seu post com sugestão de dicas para quem quer estudar longe e não tem grana suficiente é um dos mais comentados. Todo mundo no aperto e querendo se virar, né não?

Apesar de sentir muita falta da mãe, do pão francês da padaria próxima à casa dos pais e de passar por um aperto ou outro, Vitória não se arrepende da decisão. “Foi e está sendo difícil, não nego. Amadurecer dói, mas vale a pena. Sou outra pessoa.”

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