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Coisas que aprendi no Ashley Madison

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Na semana passada, saí com um homem bastante simpático. Combinámos encontrar-nos num bar e passámos um bom bocado juntos. Era encantador, educado e extremamente atencioso. Teve a delicadeza de pagar a conta e perguntou-me se podiamos repetir o encontro. Disse-lhe que sim. Chamou um taxi, pagou-o e desejou-me uma boa noite.

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Antes que perguntem: sim, era casado.

Conhecemo-nos na Internet, no Ashley Madison, um site de encontros para pessoas casadas que andam à procura de aventura. Tenho trinta e poucos anos, um ambiente familiar estável (não ando à procura da figura paternal) e uma educação universitária. Sou solteira e, de vez em quando, sinto-me extremamente carente, mas isso não chega para querer iniciar uma relação séria. Tenho objectivos de vida claros e, de momento, não posso perder o meu tempo com as necessidades, os desejos e os sentimentos de alguém.


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Portanto, o Ashley Madison pareceu-me uma boa oportunidade para conhecer gente consideravelmente interessante (dentro das minhas preferências) e aproveitar para conhecer a cidade. O melhor de tudo: não há ilusões. Estes homens já são casados.

Se estás numa situação parecida e estás a pensar inscrever-te no site, o meu conselho é: mantém os olhos bem abertos. A minha experiência está repleta de ódio e arrependimentos.

Os homens acham-se mais encantadores do que realmente são.

A maioria dos homens que conheci no Ashley Madison pensa que é o Don Draper. Acha que com um simples copo de vinho e alguma conversa fiada (“trabalho em publicidade/tecnologia/moda/finanças”) cairemos rendidas aos seus pés, já com as cuecas nos tornozelos. Mas, nenhum deles é tão charmoso como Don, nem sabe como conversar com uma mulher.

Usemos o caso do John como exemplo. Foi dos primeiros a enviar-me uma mensagem. John procurava aquela “pessoa especial” com quem pudesse ir “ver as estrelas”. O seu perfil é bastante típico: um homem casado, branco, com uma situação financeira confortável, viajado (o que é óptimo, porque assim pode manter as suas aventuras separadas da sua outra vida). Depois de trocarmos várias mensagens, John encheu-se finalmente de coragem e convidou-me para jantar. Aceitei e acabámos por encontrar-nos num bar, pequeno e piroso, no centro de Manhattan.

Nas fotos, John parecia o clássico pai de família, meia idade, minimamente saudável, vestido com pólos às riscas, sapatilhas desportivas, etc. Mas, em pessoa, a realidade era outra: tinha um aspecto descuidado e cansado e uma camisa e umas calças demasiado justas e manchadas de comida. Foi um encontro tenso e muito semelhante a uma entrevista de trabalho, daquelas estranhas: “Já tinhas feito isto antes? Porque é que o fazes? Qual é a tua posição favorita? E a tua sobremesa preferida?”.

Tirando a evidente falta de química, decidimos continuar com o jantar, porque sou bastante optimista e também porque estava sem um tusto. Ele pediu espaguete à bolonhesa, que devorou de boca aberta. Já no final no nosso “encontro” John agarrou-me firmemente no maxilar e beijou-me. Depois sugeriu que fôssemos para a cama. Libertei-me da sua mão gordurosa assim que pude e declinei a proposta. Felizmente não voltei a vê-lo. Também não voltei a comer bolonhesa.

Moral da história: os homens do Ashley Madison não são precisamente o cúmulo da elegância. Mas, o que é que se pode esperar de homens que só querem fugir à rotina?

Há mulheres que baixam demasiado a fasquia

Sendo Ashley Madison uma página onde abundam os esquemas, (seja por parte de mulheres que cobram por aparecer numa webcam, seja pelas que procuram um homem com uma carteira recheada que lhes resolva a vida), a maioria dos utilizadores fica com o rabinho a abanar sempre que obtém uma resposta.

Mesmo que sejas antipática. Eles pagam para enviar mensagens, enquanto que nós só temos de esperar, tranquilamente, que o façam. Com semelhante panorama, uma resposta da tua parte é recebida como um raio de luz, no meio da escuridão e do abismo que pode ser a Internet.

Este site está feito para gente casada, por isso, com cada conversa há que estar preparada para uma sessão de terapia improvisada: “a minha mulher já não tem apetite sexual!”, ” a minha mulher repreende-me constantemente!”. É cansativo, mas também tem o seu lado positivo. Quando te comparam com alguém que consideram completamente desinteressante, é impossível causar má impressão.

Ser “a outra” tem as suas vantagens. A única coisa que querem é passar um bom bocado contigo, para desanuviar. Em segundo lugar, a tua independência e a tua intimidade não estão em perigo, és livre. E, em terceiro, dar-te-ão sempre o melhor de si, caso queiram chegar a algum lado, claro. Outro factor positivo é que, dificilmente, passarás pelo aborrecimento de uma relação “normal”.

Todos mentem

Nesta página as mentiras proliferam. Para começar, todos os que têm um perfil mentem à mulher, por isso, é provável que nalgum momento tu também sejas vítima de uma dessas mentiras. Exemplo prático: as fotografias. Os homens publicam fotografias suas com pelo menos cinco anos de existência, o que não é assim tão grave (também acontece noutras redes sociais).

Mas, uma vez, um tipo enviou-me uma foto do Mikhail Baryshnikov fazendo-se passar por ele. Infelizmente para ele, desmascarei-o, por isso não teve outro remédio senão admitir. Ainda disse que um amigo achava que eram parecidos. Duvido muito.

Os perfis que não são um oásis de mentiras, estão cheios de lugares comuns. Este é um exemplo real do que podes encontrar nos perfis do Ashley Madison:

– “Quero que haja química”.

– “Quero uma aventura”.

– “Quero uma mulher de verdade”.

– “Não quero problemas nem dramas!”.

– ” És danada para a brincadeira?”.

As primeiras mensagens são, normalmente, apresentações estilo “copy-paste”, cheias de mentiras. Uma vez recebi a seguinte mensagem: “Armas de prazer massivo… Olá! Sou alto (1.85 m), bem dotado e muito atlético (79 kg). Sou um garanhão na cama, inteligente, encantador e educado. Tenho o dom da eloquência, mas também sei quando devo estar calado. Tenho uma vida profissional muito satisfatória. Procuro uma relação sexual intensa, apaixonada e divertida. Tenho um estilo de vida saudável e procuro uma mulher assim. Sou dominador na cama, diz-me alguma coisa caso estejas interessada”.

Quando lhe disse o quão aborrecido e repetitivo era o seu discurso, respondeu: “Lol! Fui apanhado, mas se não for assim isto pode tornar-se num trabalho a tempo inteiro”. Um trabalho mal pago, ao qual se dedica muitas horas.

É provável que encontres homens estranhos e desesperados

Acho que não é preciso dizer que a tua segurança vem em primeiro lugar. Há que evitar trocar dados pessoais com os utilizadores, a não ser que seja uma coisa mais séria. Ainda assim, este conselho serve para outras plataformas de encontros online. A maioria dos homens que encontras no Ashley Madison não estão metidos naquilo porque querem mudar a sua situação conjugal. Por isso, se não estás interessada, vão limitar-se a desaparecer, discretamente. Mas, devo reconhecer que tive algumas experiências com tipos que me assediaram, ou que agiam de forma estranha. A ingenuidade das pessoas surpreende-me.

Lembras-te do John? Bem, depois de nove meses de silêncio comecei outra vez a receber mensagens suas. “Olá, ‘tás aí? Pensei em ti!”. Perante o meu silêncio atacou de novo: “Vá, só um copo! Comecemos bem o ano! Diz que sim!”. Como esta página permite que os homens saibam se lemos as mensagens, a seguinte frase foi: “AINDA ME LEMBRO DAQUELA NOITE E DAQUELE BEIJO. VAMOS BEBER UM COPO, DIZ QUE SIM!”.

Bloqueei-o rapidamente e o tipo inundou-me a conta do Gmail com mensagens ardentes e obsessivas. “Não sabia o que fazer naquela noite. Sei que vives no centro. Vou à tua procura. POR FAVOR, DIZ ALGUMA COISA. DIZ QUE SIM! Vá lá!”. O que ele precisava era de uma boa dose de indiferença e assim foi.

Gostava de poder dizer que foi a única vez que recebi mensagens deste género. No entanto, há um tempo atrás conversei com um tipo chamado James, de forma regular, mas como estava muito ocupada no trabalho, fui-me esquecendo dele. Ele, por sua vez, não se esqueceu de mim e fez questão de o demonstrar. “Apesar de nos conhecermos há pouco tempo, não consigo tirar-te da cabeça. Pensei que podias ser a minha namorada/confidente/cúmplice ideal. Escolhi-te e acho que devias aceitar. Quero conhecer-te e ver se és realmente quem eu “procuro”. Tens o meu e-mail, É MELHOR FALARMOS POR AÍ, RESPONDE-ME RÁPIDO”. Fui rápida em bloqueá-lo e libertei-o da sua “procura”.

Apesar de tudo, há coisas positivas

Apesar desta montanha de porcaria na qual quase me afoguei, nem tudo foi em vão. Saquei alguns maravilhosos jantares e bebidas, sem gastar um cêntimo, pude ter uma ideia de como vivem os homens ricos e poderosos e tive o privilégio de dar uma vista de olhos ao que é o casamento e convencer-me de que não é para todos (muito menos para mim).

Mas, o mais importante é que me dei conta de que a maioria desses homens – que tiveram a sorte de encontrar uma mulher que os aguentasse e dormisse com eles – não estão dispostos a abdicar do equilíbrio que lhes proporciona o seu casamento. No entanto, há sempre desculpas para a traição. Ouvi de tudo:

– “Casei demasiado cedo”.

– “A minha mulher não me valoriza”.

– “Estou saturado da rotina”.

– “Quando tivemos filhos a relação arrefeceu”.

– “Sou viciado em sexo”.

– “A minha mulher tem uma aventura”.

Passei bons momentos no Ashley Madison. Pelo que, se acreditasse no Karma, diria que nalgum momento da vida pagarei pelo que fiz.

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