BARBUDO, BARRIGUDO
E BELGA
WALTER VAN BIERENDONCK CRIA ROUPAS
MARAVILHOSAMENTE ESTRANHAS
ENTREVISTA ELIN UNNES FOTOS FREDERIK BEYENS
Como integrante do Antwerp Six (grupo de vanguarda da moda), o estilista Walter Van Bierendonck se destacou entre seus colegas mais discretos e sutis, Ann Demeulemeester e Dries Van Noten, como a opção feliz-e-colorida. Hoje Walt é o padrinho supergay de Bernhard Willhelm e de todos os estudantes da Escola Saint Martins que criam roupas com pontos, ângulos e lapelas. Sua coleção de inverno é cheia de espirais, smiles, cores primárias, tubos, pintos e bolas. Como tudo que diz respeito a ele, a coleção exalta a importância de levar a diversão a sério. Falamos com Walter recentemente para desvendar seus mais íntimos e obscuros segredos (ele tem um cara na França), seu papel na difusão da cultura dos bears (homens fortes e peludos), a importância de arte, religião, músculos e SM no processo criativo da moda.
Vice: O que é isso que você está usando?
Walter Van Bierendonck: Um moletom bem velho e bordado do Bernhard Willhelm, uma Levi’s 501 e um tênis verde e rosa da Ice Cream.
Uma bela mudada em sua palheta usual.
Ultimamente estou bem ligado em misturas – azul bem claro com verde bem forte. Ou rosa com azul royal. Na verdade, qualquer tom pastel com qualquer cor forte. No momento não estou curtindo tanto as cores primárias. Estou bem nos pastéis mesmo.
Algum trauma? Por que a mudança?
Essencialmente, meu trabalho é sempre sobre cores. E o que eu gosto muda conforme meu estado de espírito e também fica diferente a cada estação.
Então as cores fortes significam bom humor e as cores escuras algo mais sombrio?
Não, não, não. Não funciona dessa maneira. Estas cores são mais fortes do que meus clientes esperavam e das que costumo trabalhar. Não que isso importe. Mas vamos dizer que, em alguma estação, eu queira trabalhar um pouco mais… de forma menos colorida.
Quer dizer, de forma “sombria”?
Exatamente! Mas tomo esse tipo de decisão e então vou para feira de tecidos, vejo as cores fortes e as estampas lindas. Na hora, sempre decido voltar com as cores.
Você recentemente fez a curadoria de uma exposição de surrealismo. Você prefere os movimentos de arte mais antigos mais do que os que estão acontendo agora?
Na verdade, gosto de artistas mais tradicionais, até do Picasso. Mas minha paixão mesmo é a arte contemporânea. Sou bem fã do Paul McCarthy e do Mike Kelley.
Qual a obra do McCarthy que você mais gosta?
Gosto da Spaghetti Man e da Tomato Head. São esculturas incríveis—muito engraçadas e, ao mesmo tempo, com uma carga sexual muito forte.
Vocês, artistas modernos, podem ser bem sacanas. Por que isso?
Porque sexo é uma parte muito importante da vida! É uma parte importante de nós. No meu trabalho é o lado que o torna tudo um pouco mais sombrio e mais agressivo. É o que equilibra meu trabalho.
Sua intenção é chocar?
Não, nunca. Mas sei que isso acaba acontecendo de qualquer jeito. Não sento à minha mesa e penso: “Vamos chocar as pessoas!” Mas posso sentar à minha mesa e pensar: “Vamos quebrar algumas barreiras”.
Pode me dar um exemplo de quando isso aconteceu sem ser programado?
A burca que fiz, por exemplo.
A burca é uma das minhas peças favoritas!
Acabou sendo bem chocante para algumas pessoas. Para mim, foi uma maneira de comentar como nossa sociedade está reagindo ao islamismo e a outras religiões. A solução que achei para isso foi: “Vou tirá-la do seu contexto. Transformá-la em uma peça de moda e aí ninguém vai falar mais nada sobre esse assunto!” Se é uma peça de moda fica impossível alguém dizer: “Você não pode usar isso” ou “Você não pode fazer isso”. Assim, ela não seria mais um símbolo religioso. Seria apenas uma peça de roupa. Acho que consegui fazer uma burca aceitável e contemporânea, para as pessoas saírem para dançar e se divertir.
Você é religioso?
O que me fascina nas religiões são os rituais. Faço pesquisa das tribos que se vestem para rituais, que usam máscaras. Gosto de rituais em geral.
Como SM, por exemplo?
Que também é um ritual.
Você vê ligação entre religião e sexo?
Vejo. Se você for pensar como funcionam os rituais, tem o corpo e o poder—esses dois elementos quase sempre estão presentes. A maioria dos rituais envolve sexualidade, mesmo que não seja um fator dominante. Uma coisa importante de se dizer aqui é que mesmo que goste dessas coisas não significa que fique em casa fazendo rituais o tempo todo. E não participo ativamente de seções de sadomasoquismo. Mas essas coisas me fascinam, gosto de aprender sobre o assunto.
Ando ouvindo elogios sobre o jardim do Dries Van Noten. Você também pratica jardinagem?
[risos] Não. Tenho um jardim, e meu amigo cuida um pouco. Mas você sabe, a gente não mora muito longe do Dries. Ele, a Ann (Demeulemeester) e eu estamos na mesma área, um pouco fora da Antuérpia. A Ann também adora jardinagem. É bom para acalmar os nervos.
E para definir os músculos.
Na verdade, criei recentemente umas jaquetas infláveis—você veste e pode, literalmente, bombar seus músculos sem precisar levantar peso. É só assoprar que você fica com um corpo impressionante.
Isso porque você gosta de caras bombados?
Gosto de tipos diferentes. Mas acho que as pessoas deveriam ter a liberdade de escolher como querem parecer. Na minha última coleção, usei modelos. Nessa próxima vou fazer um casting aberto para “ursos musculosos.”
Outro dos meus prediletos.
Há uns dez anos, quando comecei a usar modelos bem barbudos nos desfiles, todo mundo falava: “O que que é isso? O que que ele está fazendo?” Então vejo isso como evolução, estou mudando as coisas. Olha para a capa da revista Love com a Beth Ditto. Aquilo é uma mudança na percepção de beleza na indústria da moda.
Você tem uma definição rigorosa para qualificar quem é “ursão”?
Na verdade não é só “urso”. Existem vários tipos. Na cena, tem os “ursos grisalhos”—que são os mais escuros—e os “ursos filhotes”—os bem jovens. Tem também os “lontras”. Mas também é uma cena bem positiva, sem drogas, sem agressão. Não tem só a ver com sexo. Tem um lado fofo que eu gosto—tipo reuniões, onde todos comem, bebem e batem papo. É uma vibe legal.
Mas você prefere os “ursos”?
Primeiro, para mim, vem a atração física. O que não posso negar! E depois, quando tive acesso `a cena pela primeira vez , há muito tempo atrás, nem sabia que ela existia. Estava só procurando outros tipos para usar nas passarelas. Daí descobri que existia realmente uma cena “urso”, que depois usei explicitamente no desfile da coleção Wonderland, em Paris. Quando fiz o casting, pesquisei várias cenas, em Londres e Paris, e achei meus modelos nesses clubs.
Como foi a reação dessas pessoas quando foram convidadas para desfilar?
Os caras gostaram. `As vezes é legal estar na passarela. Mas foi também um certo choque, como se eu tivesse contando esse segredo para o público.
Quem molda a sua barba?
Vou em um cabeleireiro em Paris especializado em barbas. Não ouso ir a nenhum outro lugar, porque barbas são bem complicadas.
Tem alguma celebridade que gostaria de vestir?
Sabe o ator Robin Williams? Ele compra bastante comigo. Levou uma burca minha, inclusive.
O Robin Williams tem uma burca masculina?
É incrível. Não sei direito onde ele vai usar. Mas ele é um cliente fiel da minha loja em São Francisco.
Já ouvi dizer que ele é um dos homens mais peludos do mundo. Quem sabe ele não possa participar do seu próximo desfile.
Na verdade, vários americanos estão se inscrevendo, mas não posso trazê-los até aqui.
Tenho certeza que eles viriam por conta própria.
Seria um pesadelo para organizar tudo. Mas das centenas que eu andei vendo, acho que só vou poder pegar alguns—talvez uns 20—porque as roupas têm que servir. Não é tão fácil quebrar tabus e usar um casting de rua. Mas é por isso que escolhemos moda, né? Para sofrer.
“2357” the Sequel abre em setembro, em Paris. Walter Van Bierendonck: The Most Controversial of the Antwerp Designers, um livro com a cronologia da carreira de Walter está disponível na Uitgeverij Houtekiet na Béligica.
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