
Ainda de se ouvirá falar muito dos norte-americanos The Jay Vons. Fotografia de Pedro Homero.
Escrever sobre festivais de música é estúpido, por uma de duas razões, antagónicas e complementares.
Primeiro: o festival em questão é na realidade o sonho molhado dos marketeeers e tu não és um espectador, és uma peça na engrenagem do branding. Escrever sobre ele é compactuar com isso. Pensa NOS Alive, Rock in Rio, merdas assim.
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Segundo, o festival mencionado é genuíno, honesto, intenso, e estar a descrevê-lo não faz justiça ao que ele é. Pensa Barreiro Rocks.
Ainda assim, e como queremos que se conheça o que de bom se faz por cá, vou tentar explicar aquilo que só sentindo é que se percebe.

Missa eléctrica. Fotografia de Pedro Homero.
As bandas
Foram 3 dias de rock (4 a 6 de Dezembro), não só mas sobretudo ali na faixa blues/garage/punk, núcleo sónico deste festival. A nível nacional, e tal como nos tem habituado ao longo dos anos (já foram 15, as edições, desde 2000), o Barreiro Rocks traz à cidade-que-não-é-dormitório (já lá vamos) as mais promissoras bandas do momento, como 800 Gondomar, The Sunflowers, Clementine, The Brooms, Mighty Sands – ex Black Jews e mostra a prata da casa, isto é, parte da prolífica produção barreirense de bandas. Este ano o código postal 2830 esteve representado pelos Planeta Quadrado, Conan Castro & the Moonshine Piñatas, Los Santeros, PISTA (num concerto surpresa no after party na sexta) e o mestre do Blues pantanoso, Fast Eddie Nelson.

D3ö. Fotografia de Pedro Homero.
A nível internacional, vieram grupos que vão-ficar-grandes, como The Baron Four (UK), The Routes (JP), The Jay Vons (EUA) e The Government (ES), mas também velhos amigos do festival, como Los Chicos (ES), que basicamente são da casa, e Fabuloso Combo Espectro (ES).

Fast Eddie Nelson e mais uns poucos. Festa no Barreiro. Fotografia de Pedro Homero.
Esta ideia de que o Barreiro Rocks tem olho para a coisa e dá a conhecer bandas que depois ganham notoriedade tem razão de ser; os The Parkinsons nasceram em 2000, e foram ao Barreiro Rocks em 2002. Paulo Furtado torna-se The Legendary Tigerman por essa altura e em 2003 já lá está batido. The Vicious Five, Pega Monstro, Asimov, The Glockenwise e Dirty Coal Train foram todos lá parar antes de serem descobertos pela imprensa e pelo público em geral. Depois as apostas internacionais: Billy Childish, Black Lips, The Maharajas, Ty Segall, King Khan & the Shrines – tudo nomes que depois se tornaram enormes.

Os espanhóis Los Chicos já são prata da casa. Fotografia de Pedro Homero.
A edição de 2015 teve ainda um carácter de celebração (afinal de contas são 15 anos) com o regresso de bandas fundamentais na sua história, como os D3ö e os The Parkinsons, ou DJ Shimmy, um americano meio doido que, estando de visita a Lisboa, conhece gente do Barreiro num concerto, apanha o barco e fica por lá a viver 4 anos, tornando-se DJ oficial do Festival.
A cidade
O Barreiro, por questões geográficas e históricas, não é um subúrbio de Lisboa, ou do que quer que seja. Isolado numa península e longe das pontes que levam para a capital, a cidade continuou uma tradição antiga de fazer pela vida e criar o ambiente cultural e recreativo necessário para a sua existência. Uma larga trajectória de movimentos associativos e culturais são os ombros de gigante nos quais assentam, agora, não só a Hey! Pachuco, associação que, em conjunto com a autarquia local, é responsável pelo Festival, mas também todas as bandas, artistas plásticos, associações, bares, o diabo a quatro, que fazem do Barreiro uma das cidades culturalmente mais excitantes do País.

Los Chicos entre o público. Fotografia de Pedro Homero.
O espírito
Muito se disse ao longo dos anos – e a imprensa pouco a pouco foi percebendo e fazendo eco disso – sobre o espírito do Barreiro Rocks. É fácil de explicar – o ingrediente secreto é a total ausência de peneiras. Exprime-se das mais variadas maneiras: bandas (inclusive cabeças de cartaz) no meio do público a curtir os concertos e a cantar a plenos pulmões, quando não vão para cima do palco tocar uns com os outros numa miscigenação salutar, fotógrafos a ajudar com os cabos de microfone quando os vocalistas decidem ir para o meio do público, crowd surfing sem acidentes ou más-ondas, after parties loucos com toda a gente a curtir o som até às tantas e em geral uma sensação de camaradagem e partilha de emoções incomum nesta coisa dos festivais.

Crooner Vieira, o Speaker de serviço. Desde sempre. Fotografia de Pedro Homero.
Porque é assim? Se calhar porque o Barreiro Rocks tem-se mantido raivosamente independente, sem procurar patrocinadores que sugariam a alma do Festival em troca de boas somas de dinheiro ou melhores condições. Não são precisas melhores condições quando se tem um público fiel que vem, ano após ano, à sua Meca do garage rock. Não é preciso mais dinheiro se o preço a pagar for tornar o evento numa pantomina. E não é preciso mesmo – este ano recebeu o selo EFFE (Europe for Festivals Festivals for Europe) e foi nomeado para três Festival Awards: o britânico, o português e o europeu; tudo, sem adicionar ao nome uma marca de cerveja ou de telecomunicações.
Ah, e é apresentado por um crooner local de 87 anos. O Crooner Vieira, que canta entre bandas.
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