ESTE CONTEÚDO É UMA COCRIAÇÃO DE BE BRASIL E VICE ESTÚDIO CRIATIVO.
No calor da cidadezinha de Chã Grande, no interior de Pernambuco, o engenho da cachaçaria Sanhaçu funciona a todo sol e vento. Não é nova força de expressão: é que seus donos usam, ao mesmo tempo, energia solar e energia eólica para garantir uma linha de produção orgânica – isto é, que dispensa agrotóxicos e fertilizantes químicos – para a bebida mais brasileira de todas.
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“Em 1993, quando meu pai comprou essa propriedade para fugir da cidade, aqui não tinha nada, não tinha água, nem árvores, fauna”, conta Oto Barreto, administrador da Sanhaçu, pelos campos verdejantes do alambique. O objetivo da família, diz, era criar uma agrofloresta e trabalhar com plantação de hortaliças orgânicas. O negócio, porém, não deu certo. Com pouco retorno financeiro, a família decidiu apostar na Cachaça em 2000. Era, de certa forma, uma herança tardia. “Meu bisavô havia sido mestre-açucareiro em uma usina e eu cresci conhecendo Cachaças de qualidade, mas não tínhamos essa proximidade com a produção na família, então tivemos que estudar”, explica Oto, que, como bom pernambucano, puxa a caninha para o próprio estado e diz ter sido lá, na Ilha de Itamaracá, a origem da bebida.
O negócio vingou. Em 2016, a Sanhaçu foi medalha de prata entre todos os destilados no Concurso Internacional de Destilados de Berlim, na Alemanha. Além disso, a propriedade dos Barreto renasceu, recuperou a vegetação nativa e se tornou um refúgio ambiental onde são reaproveitados todos os resíduos da produção da Cachaça. Houve também, por tabela, uma influência nacional. A história de sucesso do alambique incentivou novos produtores a usar métodos sustentáveis – que incluem o reaproveitamento dos resíduos da fabricação – para criar uma Cachaça refinada.

Mas, embora sejam os mais famosos, os Barreto não foram os primeiros. A ponta de lança nesse movimento foi a Serra das Almas, oriunda de Rio das Contas, uma cidadezinha com pouco mais de dez mil habitantes no sul da Chapada Diamantina, na Bahia. Criada por Marcos Vaccaro, um hippie catarinense que se mudou para a Chapada em busca de uma vida diferente, a Serra das Almas foi a primeira Cachaça a ser certificada como um produto orgânico em 2002. “Além da preocupação social e ambiental com processo de produção, ser orgânica também é um atrativo comercial”, explica Marcos, que mora numa casa em cima da árvore há mais de dez anos.

O fato é que, se antes esse modelo de trabalho era apenas o mais eficiente dentro de determinadas escalas de produção, há alguns anos a demanda por um consumo sustentável tornou importante certificar essas práticas – inclusive por questão econômica. “Quem segue essa trilha certamente está um passinho a frente no mercado”, afirma Mauricio Maia, especialista em Cachaça e presidente da Cúpula da Cachaça, grupo que trabalha em prol da valorização da bebida brasileira. Ele cita outro benefício da corrida em busca de certificação da produção orgânica: a profissionalização.

Segundo Maia, a produção da Cachaça de alambique sempre foi sustentável. “Desde os pequenos alambiques até produtores maiores reaproveitam tudo”, diz. A palha da cana-de-açúcar fica no campo, onde protege o solo; o bagaço da moagem é utilizado como combustível para as caldeiras e adubo; o vinhoto – uma pasta remanescente da destilação – também serve como adubo e alimento para os alimentos; frações de menor qualidade da Cachaça são redestiladas em etanol, combustível para automóveis; e por aí vai. A diferença é que, mesmo que os novos métodos de produção não sejam tão diferentes dos antigos, a necessidade de seguir orientações sistematizadas sobre como isso pode ser feito resulta em um ganho de qualidade geral.
E, claro, esse movimento não se limita aos pequenos produtores. A Weber Haus, uma Cachaça orgânica premium do Rio Grande do Sul, instalou placas de energia solar no final de agosto, e as grandes marcas do mercado como Ypióca, 51 e Pitú tem investido em logística reversa e vasilhames retornáveis para reduzirem suas pegadas ambientais.
“Aproveitar a cana para produzir papel e energia”
Enquanto os produtores de Cachaça reutilizam os resíduos da sua produção quase por completo, a indústria sucroalcooleira no país também tem encontrado alternativas para minimizar o impacto que causa no meio ambiente. Com mais de 642 milhões de toneladas de cana-de-açúcar cultivados na safra de 2014/2015, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única), o Brasil é o líder mundial nessa cultura.
Com tanta cana sendo colhida, os resíduos gerados são imensos e uma das principais aplicações é como biomassa, fonte de energia renovável. No Brasil, a biomassa da cana corresponde a 80% de toda bioeletricidade produzida – por sua vez, essa matriz energética representou 4% de toda eletricidade consumida no país em 2014.

Mas não para por aí. A FibraResist, por exemplo, é uma empresa que utiliza a palha de cana-de-açúcar para produzir pasta celulósica, insumo utilizado na produção de papel. “O produto é o resultado de uma pesquisa que começou em 2009. Escolhemos a pasta porque é um resíduo que sobra no campo. Recolhemos 80% e deixamos o restante para proteger o solo”, diz Mario Welber, relações públicas da FibraResist. “Além disso, a produção dessa pasta é a frio, ou seja, é livre da emissão de gases poluentes”, conta.
Já o Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano) do Centro Nacional de Pesquisa em Energias e Materiais (CNPEM), a ideia é utilizar o bagaço da cana para produzir carvão ativo – um material usado na filtragem de água. “A performance dos carvões ativos de bagaço de cana já foi extensivamente estudada em processos de descontaminação de água e de ar. Eles mostraram que podem ser mais eficientes do que os carvões ativos comercialmente disponíveis”, diz Mathias Strauss, que coordenada a pesquisa.
Perguntado se a tecnologia poderia ser aplicada a pequenas plantações de cana-de-açúcar, como as da onde vem a matéria-prima para a Cachaça orgânica, Mathias diz ser possível trabalhar com cooperativas para atingir a escala necessária. “Além disso, nosso grupo de pesquisa tem se esforçado para encontrar outras destinações para esses resíduos em áreas como produção de pigmentos, aditivos para cosméticos, aditivos para plásticos e borrachas, entre outras”, afirma o pesquisar. “O que permite atender demandas, custos de produção e de valor agregado variados.”
Para terminar, só falta um golinho.
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