Charles Burns



ENTREVISTA E RETRATO POR SAMMY HARKHAM
 

harles Burns é o autor e artista por trás de quadrinhos de horror como Black Hole, Big Baby e Skin Deep. Em seu trabalho, ele criou uma espécie de mundo paralelo sinistro aos de David Lynch e Lovecraft. É a realidade, distorcida, ameaçadora e sempre familiar o suficiente para parecer quase plausível. Seu trabalho mais conhecido, Black Hole, conta a história de um grupo de adolescentes que foi infectado por uma doença terrível que causa mutações asquerosas, transformando-os em párias que se isolam da sociedade e se escondem na floresta. É uma alegoria perfeita para a dificuldade e alienação da adolescência. É uma espécie de Dazed & Confused com uma dose permanente de LSD, como se uma daquelas bad trips intermináveis virasse realidade. É um clássico.

A primeira parte do novo livro de Burns, X’ed Out, acabou de ser lançada [no exterior]. Como todo o seu trabalho anterior, ele justapõe o real com o sobrenatural. Desta vez, as próprias lembranças de Burns dos tempos de garoto punk-rocker e estudante de arte pretensioso se alternam com um enredo complementar surreal em que um personagem à la Tintin vaga por uma cidade de monstros e paranoia à la Burroughs. Vai ser difícil esperar pelo volume 2.

Sammy Harkham, que entrevistou Burns para essa edição, é uma das vozes mais talentosas e originais da geração de cartunistas que surgiu depois de Burns e seus contemporâneos. A série atual de livros de Sammy, Crickets, conta histórias que vão do bizarro ao histórico, ao pessoal e realista, tudo conectado por uma humanidade e sutileza profunda. Sammy também é responsável pela antologia de quadrinhos Kramers Ergot, que é a melhor publicação regular do gênero desde os dias gloriosos de RAW, no começo dos anos 80, que—olha só todas as tramas se juntando aqui!—foi uma vitrine para o trabalho de Charles Burns.

O mundo dos quadrinhos independentes é uma estranha saga em andamento de coleguismos, rivalidades e hierarquias. Daria uma ótima novela se os envolvidos fossem um pouco menos pálidos e desajeitados. Mas Sammy e Charles são, por sorte, amigos e admiradores mútuos. Aqui vai o que eles tiveram a dizer um ao outro pelo telefone no mês passado. 

Vice: Como você começa um projeto como X’ed Out? Aliás, essa é uma curiosidade que eu também sempre tive em relação a Black Hole. Você começa com um traço pesado? 
Charles Burns:
 Com Black Hole, e também com esse livro, tinha um esboço. Quero dizer, há uma complexidade [nesses livros], e se eu quero uma imagem importante que aparece no início e não se define até muito tempo depois no livro, preciso descobrir como isso vai funcionar. Como em Black Hole—algumas linhas da trama que são introduzidas no início não se resolvem até a metade do livro. 

Certo.
Mas a maneira como eu trabalho também é aberta o suficiente para que haja espaço para explorar novas ideias conforme elas surgem. Acho que a melhor maneira de descrever isso é que eu conheço a história, e trabalho em como contá-la. 

Imagino que, como a maioria dos cartunistas, você leva muito tempo para concluir a coisa toda, e que novas ideias podem surgir o tempo todo, e você pode mudar como pessoa ao longo do processo. 
Com X’ed Out, minha ideia original era fazer uma história sobre a minha vida no final dos anos 70, quando eu estava envolvido no mundo do punk-rock. E, você sabe, queimei a largada algumas vezes. No início eu estava fazendo uma história em preto e branco, e estava ficando muito parecida com Black Hole, não fiquei satisfeito. Eu olhava para aquele trabalho e pensava: “Está horrível”. Sempre que você tem essa sensação, você deve rasgar as páginas e começar de novo. Então tive umas duas ou três queimadas de largada antes de eu realmente querer me lançar em um território desconhecido. Uma das coisas que ajudou foi começar um livro colorido, com duas tramas principais—uma que acontece em um mundo de quadrinhos mais Tintin e a outra que é muito mais típica…

Mais pé no chão, digamos. Mais baseada na realidade. 
Mais típica do mundo que eu vejo. 

Então foi um momento eureca, tipo: “Ah, cor!”? Quando você adiciona cores, muda a maneira como você escreve?
Com certeza. Mas, voltando um pouco, a maneira como eu trabalho… Eu escrevo, escrevo e escrevo, e mantenho meus cadernos—cadernos vagabundos para que eu não me sinta intimidado em enchê-los de rabiscos a caneta esferográfica. 

Então você escreve o texto primeiro? 
Sim. Normalmente faço algumas pequenas notas visuais aqui e ali, mas é praticamente só texto. Faço uma compilação de todas as minhas ideias e faço o possível para não me censurar de nenhuma maneira. Deixo qualquer coisa entrar. E me peguei fazendo várias anotações de um personagem meio Tintin e também desenvolvendo essa coisa punk. Então o momento eureca foi combinar essas duas tramas. Quando pensei: “Tintin, claro, aquele tipo de formato franco-belga”, livros coloridos vieram à minha mente. E aquilo foi muito divertido de fazer. Como você mencionou, quando se trabalha com cor, você tem toda uma nova gama de ferramentas para contar uma história. E eu não queria simplesmente fazer uma versão colorida do meu trabalho preto e branco. 

Foi intimidante ver essa paleta enorme se abrir para você? 
Não foi intimidante. Tem coisas que você pode obter com cor que simplesmente não consegue em preto e branco. Existem formas de contar uma história em que você pode sugerir um humor ou pode inserir cores-chave.
Guardas de Black Hole #11, 2003


Além de Tintin, que permeia X’ed Out, também existem referências recorrentes ao Burroughs e sua ideia de Interzone. Você pensou nele enquanto estava escrevendo? Sei que você já o mencionou no passado como uma influência.
Não tanto na escrita, mas mais como ele me influenciou durante um período específico da minha vida. O protagonista é um reflexo de quem eu era e o que eu pensava. No final dos anos 70 eu lia muito Burroughs, e de repente me envolvi com a cultura punk-rock—meio que abracei aquilo completamente. Burroughs realmente se encaixava naquela visão. Seu humor negro e sua clareza na escrita realmente me impressionaram. Quando eu estava começando a trabalhar nesse livro, reli muitas coisas dele que eu não lia há anos. Foi interessante revisitar aquilo e refletir sobre o trabalho dele agora que sou um cara de meia- idade, em comparação com um garoto de vinte e poucos anos. 

Em parte para se colocar de novo na cabeça do personagem?
Um pouco, sim. Quero dizer, estou mostrando um personagem que é relativamente ingênuo, ele vai lá e faz uma espécie de performance falada, e eu queria que parecesse meio ingênuo. Acho que tem uma certa idade em que muita gente abraça escritores como Burroughs, e aí, de certa forma, internalizam aquele tipo de obra. Então, sim, eu queria ter esse estudante de arte que quer fazer trabalhos inspirados em Burroughs. Na verdade, incluí um pouco do estilo de Burroughs no texto também. 

Você trabalhou em Black Hole por dez anos. Você se sentiu completamente esgotado depois? Sabe, esvaziado de todas as ideias que já teve? Eu sinto que quando me pedem para fazer outra história assim que acabo de terminar alguma coisa, meu primeiro impulso é quase fazer a mesma coisa que estava fazendo, porque minha cabeça ainda está lá. 
Sim, e como eu estava dizendo antes, nas primeiras tentativas dessa história realmente parecia que eu estava voltando àquilo que me deixava confortável em Black Hole. Quando terminei aquele livro, intencionalmente peguei alguns projetos que não tinham nada a ver com quadrinhos. Me pediram para fazer um filme de animação, e eu aceitei por diferentes motivos. Em parte porque eu queria sair do meu pequeno estúdio, onde tinha ficado sentado por muito tempo, e fazer algo colaborativo. E eu queria ir trabalhar em Paris por um tempo, isso também foi relevante. Tinham alguns cartunistas envolvidos no projeto do filme que eu conhecia e cujo trabalho eu apreciava. Acho que eu estava me forçando a entrar em um mundo que eu não conhecesse bem e no qual não me sentisse confortável. Então foi bom. Também fiz um pequeno livro de fotos naquele período. 

E chegou um momento em que você disse para si mesmo: “OK, passou tempo suficiente. Vou sentar e inventar alguma coisa.”? 
Eu fiz isso sim. Tem essa sensação, essa frustração, de quando você não está realmente trabalhando e produzindo alguma coisa—quando você está no estágio de formular ideias, mas na verdade você só quer trabalhar. Sabe, você quer se envolver no processo. 

Existem elementos em X’ed Out com o qual você brincou por muito tempo, e a aparência de alguns personagens parece familiar, de um jeito bom. Definitivamente, não é uma sequência de Black Hole, mas é possível dizer imediatamente que estamos no seu universo. 
Ah, sim. A maioria dos artistas, a maioria dos cartunistas, a maioria dos escritores volta a temas que são importantes para eles. Existem pessoas que, de alguma forma, escrevem a mesma história diversas vezes. Não estou exatamente fazendo isso, mas com certeza existem coisas que vêm à superfície—influências e ideias que sempre voltam. 

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Capa de Black Hole #4, 1997

Como foi pra você lançar a primeira parte dessa história com tanto trabalho ainda a ser feito? A reação ao primeiro episódio terá alguma influência na história daqui pra frente? 
Acho que cheguei num ponto na minha vida em que—pelo menos espero—sou capaz de não me deixar influenciar pela reação imediata. Acho que eu me sentiria mal se todas as resenhas que eu lesse e todas as pessoas com quem eu falasse dissessem: “Isso é uma merda”. Sabe, isso faria com que eu me sentisse mal. 

Ou se todo mundo ficasse usando os mesmos termos para descrevê-lo, como “Bom, é bastante denso, Charles”. 
Eu tento confiar no meu instinto e confiar na minha capacidade de criar uma história.

Como você planeja o seu dia? Você mantém um horário regular para trabalhar? 
Basicamente, mas ainda faço outros projetos que aparecem. Vou fazer uma exposição em Paris, então estou montando um portfólio com imagens para eles. Mas, sim, eu me sento e escrevo todo dia, de um jeito ou de outro. Às vezes estou lá sentado, olhando para as anotações e olho para uma página em branco diante de mim e não me vem nada. E tem dias em que a escrita começa a fluir. Nunca consigo prever. Mas eu me sento todo dia e faço um esforço para escrever, com certeza. 

Então, por mais que você saiba qual será a estrutura de X’ed Out, ainda terá que pensar em uma maneira de colocá-la para fora? 
Isso volta para aquilo de saber a história e encontrar uma maneira de contá-la. Essa é a parte difícil. Tenho certeza de que você já conviveu com pessoas que conseguem contar uma história incrível e você fica atônito, mas você pode ouvir outra pessoa recontar a mesma história e pensar: “Meu Deus, me tire daqui”. 

E tem gente como Dan Clowes, que diz que vai trabalhar em uma história e assim que se dá conta “sobre o que” é a história, vê no que está se metendo e perde o interesse. Mas, enfim, que mais, Charles? Sobre o que mais podemos falar? 
Vejamos, uma das duas perguntas que mais me fazem é: “E o filme Black Hole?”.

Conheço muita gente do cinema por morar em Los Angeles, e Black Hole de fato vem à tona. Não sei se isso é porque sabem que sou cartunista e falam comigo sobre isso, mas Black Hole parece um troféu. Todo mundo quer escrever um roteiro baseado nele. Todo mundo tentou fazer um rascunho. E você não está de fato envolvido em nada disso, certo? Você não liga? 
Não é uma questão de “não ligar”, mas quando terminei o livro e teve aquele período em que eu mesmo poderia ter tentado escrever um roteiro, decidi não escrever. Quero dizer, eu certamente estaria envolvido, daria opiniões, mas não um envolvimento direto. Eu só queria seguir em frente. Não queria perder tempo com um projeto que pode ou não acontecer. 

Certo, com filmes, nunca se sabe. 
Mas o que sei é que posso sentar à minha mesa e desenhar novos quadrinhos. Sei que isso é possível, mesmo que tivesse que atravessar a rua e fizesse fotocópias na gráfica da esquina, sei que posso inventar alguma coisa. 

Você também já trabalhou com cenários, certo? 
Sim, para o Mark Morris Dance Group. Trabalhei no The Hard Nut. Eu fazia a direção de arte, acho. Fiz desenhos e trabalhei em algumas ideias por trás da dança, que era uma versão atualizada de O Quebra-Nozes. Isso é meio maluco, mas faz 20 anos. Vai ser encenado de novo na Brooklyn Academy of Music no fim deste ano.

Uau. 
Faz muitos anos que não vejo, então eu vou assistir. Vai ser divertido. 

Capa de Nitnit #3, 2010

OK. Então, aqui vai: quando veremos o próximo livro? 
Meu Deus. Não, desculpe. 

As pessoas querem saber. 
Já passei um pouco da metade do segundo livro. Que tal?

Ótimo! 
Sinto uma frustração porque voltei para o meu estúdio faz alguns dias e meu tempo foi gasto cuidando de pequenas coisas, como e-mails. Não vou voltar ao trabalho por mais algumas semanas. Mas tenho páginas me esperando, o que é bom. 

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