Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.
Andar com alguém é a coisa mais terrível que uma pessoa pode fazer. Se nalgum momento da tua triste vida vires que estás a começar a “sentir algo” por alguém, tem, pelo teu bem, a valentia de estripar esta ideia das tuas entranhas.
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Acredita em mim, o mais triste do Mundo é um homem – ou uma mulher – apaixonado. São seres capazes de fazerem as coisas mais absurdas que possas imaginar. Coisas piores que mudar o código genético da soja. Quando um ser vivo, com uma certa consciência, começa a partilhar várias horas do seu dia com outra pessoa, com a qual fez um pacto de permissividade no que diz respeito a tocarem-se mutuamente nos genitais (o equivalente a ter namorado/a), passa a ser vítima de um conjunto de atitudes um pouco desprezíveis.
Vê: “O que é que se passa com o amor?“
E a verdade é que nunca existirá o mesmo nível de amor entre estas duas pessoas. O que só pode dar merda. Ou seja, noites de desespero e choro, pratos partidos, facturas de advogados e pensões alimentares que transformarão esse maravilhoso recém-nascido que saiu do útero da sua mãe num ser cinzento, triste, com a barba mal feita e que, eventualmente, desenvolverá todo o tipo de doenças relacionadas com o estilo de vida Ocidental. Se, apesar de tudo isto, continuas a querer ter uma relação com alguém, recomendo-te que dês uma vista de olhos a esta lista.
Beber demasiado
Quando começas a sair com alguém não sabes, realmente, o que fazer. À parte os beijos e os abraços tem de haver algo mais, mas, como não conheces essa pessoa, não sabes como actuar fora da cama. Porque, sejamos sinceros, combinar um jantar, ou uma saída cultural com esse outro ser é apenas um pretexto para irem para a cama nessa mesma noite. O que, basicamente, é aquilo que os dois querem.
Para chegar a esse ponto têm de beber uns copos, porque faltam-vos os tomates para assumir que o que querem mesmo é dar uma queca. Esta incapacidade de comunicação é o que caracterizará a vossa relação e será, na verdade, o que acabará com ela e te devolverá a um feliz estado de solteiro/a.
Falta de sono
Agora que trocaste as tuas horas de sono por horas de “fazer o amor”, o teu corpo e mente começarão a deteriorarem-se. Se a isto lhe juntas todo o álcool que emborcas com a tua cara-metade, parecerá que estás “numa relação séria” com drogas e não causarás boa impressão no trabalho. Claro que também pode parecer que todas as noites vestes um disfarce de morcego e salvas a cidade da decadência e do crime. Pois, isso querias tu, mas não, andas só a pinar com um/a desconhecido/a.
Odores
Conhecer alguém, romanticamente falando, leva-te a todo um novo Mundo de experiências sensoriais. De repente, o teu corpo cheira a outra pessoa e passas o dia a cheirar os dedos às escondidas. Ok, cheiras aos seus genitais, mas também ao seu cabelo e à sua pele. Tens saudades do teu próprio perfume. De alguma forma estás a desintegrar-te como pessoa. A tua individualidade vai-se desmontando como um quebra-cabeças. Agora és algo que está muito longe do que eras e talvez essa essência seja irrecuperável.
Gases
Esta situação é o resultado de passares noites a beber sem parar para acabares na cama com alguém. Todo este álcool e cenas que ingeriste convertem-se em terríveis gases sediados nos teus intestinos. E este inferno transforma-se em algo muito pior quando dás por ti e estás deitado na cama com companhia. Evidentemente, não queres que pense que és o tipo de pessoa que se peida a torto e a direito, sem nenhum tipo de pudor e, muito menos, que o faz na cama, por isso a opção é aguentar a noite toda. Erro crasso, o teu estômago transforma-se em Hiroshima.
Quando podes vais à casa-de-banho e tentas aliviar-te sem dar muito nas vistas, mas não é fácil. Tens demasiados gases e achas que o som que provocarão será bárbaro. Tens MEDO. Um clássico, por exemplo, é levantar o lençol e pôr o cu de fora, durante a noite. Com uma destreza absoluta pulverizas o quarto da forma mais silenciosa que consegues. Alcançado o teu objectivo, sentes um alívio incrível, como Jack, no final de Lost.
Tem piada, porque, com o tempo, o pudor desaparecerá. Primeiro será algo simpático, mas, depois, será o princípio do fim. Esses peidos passarão a ser insultos saídos directamente do teu recto. Tudo o que não te atreves a dizer-lhe – que as saladas com passas que faz são uma merda – sairá em estado gasoso do teu rabo. O desprezo em estado puro.
Sentimento de inferioridade
Pelo menos é o que eu sinto. Quando conheço alguém, nos primeiros meses sinto-me uma merda. Sinto-me uma pessoa totalmente inferior. Analiso a minha forma de vida e penso que não sou (nem sirvo para) nada. Ela tem um trabalho de verdade, um daqueles trabalhos úteis, enquanto eu nem sequer tenho a certeza de onde estarei daqui a dois meses. Ela ganha dinheiro a sério, tu sobrevives. Então, começo a pensar que isto de sair tanto, ir a tantos concertos e gastar cerca de 50 por cento do ordenado em discos é demasiado infantil. A tristeza inunda-me e envergonho-me de mim próprio. Com o tempo a situação inverte-se e começo a pensar que a minha vida é demais e que vivo lindamente, enquanto ela “apodrece” no seu trabalho castrador. Ela é uma vítima do sistema, eu um poeta urbano.
Não tens dinheiro
Antes não era assim, mas agora tens de oferecer presentes. O teu dinheiro já não significa discos. Agora significa teres de gastá-lo com outra pessoa. Não é fácil adaptares-te.
Comunicação constante
Quando não estão juntos, têm de estar juntos de alguma maneira. Transformas-te num ser sempre ligado ao telefone e que manda mensagens o dia todo. Deixas de viver no presente, para viver noutro sítio que ninguém é capaz de compreender. Um lugar entre a realidade e a ficção chamado Amor, cuja capital é Parvalhão, onde, já agora, fazem umas belas bifanas.
Mudanças de humor constantes
Uma relação é uma montanha russa sentimental e, para andares nela, tens de abdicar da tua dignidade. Qualquer merdice transformar-se-á num debate importantíssimo, que ameaçará a tranquilidade da vossa relação e a estabilidade política do País. Desde fora parecerás um louco/a.
Agora a tua vida é ele/ela
Pega em tudo o que tinhas antes e manda essa porcaria fora. Nada mais importa. O cinema tem quase 120 anos de história e o homem é capaz de sair do Planeta Terra, mas tu estás mais interessado nessa gaja/o que nem sequer sabe como utilizar um bidé.
Higiene pessoal
Pela primeira vez na vida terás de mudar de roupa interior TODOS os dias, não vá ele/ela pensar que és um degenerado. Pode levar-te à depressão.
Ser infiel a ti próprio/a
Agora, de repente, gostas de pizza com ananás.
Fingir ser saudável
A tua cara-metade tem de pensar que tu te cuidas, porque, afinal, estás a introduzir o teu sémen na sua vagina (e vice-versa, ou algo do género). Já não podes comer essas merdas das quais tanto gostavas e que vendiam na semana americana do Lidl. Adeus noodles, adeus salsichas cruas e adeus felicidade.
Há montes de coisas fodidas que fazemos quando começamos a sair com alguém, mas o tempo de antena aqui é limitado e é impossível enumerá-las todas. O que deve ficar bem claro é que, começar a andar com outra pessoa significa transformares-te noutra pessoa e também ficares à espera do momento em que um dos dois se farte desta merda demente e volte a recuperar os seus hábitos de sempre.
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