Reminiscências de Nate Dogg — texto originalmente publicado em agosto de 2004.
Dez anos depois do seu lançamento, é hora de reconhecer oficialmente “Regulate”, do Warren G, como um dos momentos mais finos da história da música. Claro, o que bombou a música não foram as rimas simples do Warren, mas o tenor de cara amarrada do OG Nate Dogg. E apesar de ele ter mandado algumas performances estrelares em The Chronic e Doggystyle, foram os versos inesquecíveis de “Regulate” que cristalizaram o status de Nate como, vai, o único cantor de baladas R&B com culhões.
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Agora, se você é tipo uma pessoa normal, passou toda a era G-funk andando por aí com o boné Compton, alheio ao fato de que, sem a cidade que eles chamam de Long Beach, C-o-m-p-t-o-n não teria como juntar tudo aquilo. Entenda, enquanto os NWA de CPT traumatizavam a juventude americana, três adolescentes de Long Beach estavam gravando o material mais clássico da Costa Leste — que nunca veio ao público. O grupo era o 213, composto por Snoop, Warren e Nate. Desde então, Snoop se tornou o novo George Clinton, tendo o Nate cantado refrões em quase todos os hits do rádio e o Warren, bom, ninguém sabe o que ele está fazendo desde “Regulate”. Mas a boa notícia é que o 213 finalmente está lançando um disco.
Então, vamos colar no lado leste de LBC com a missão de tentar encontrar os pontos chave do Nate Dogg do 213 (Motel Eastside não incluído).
V.I.P. Records, 1014 East Pacific Coast Highway
“V.I.P. foi a loja de discos número 1, e ainda está lá, bem no meio de Long Beach. Era o lugar do rolê, com uma escola do outro lado da rua. Naquela época existia um estúdio nos fundos, e foi lá que gravamos a primeira música do 213. Acho que se chamava “Long Beach Is a Moherfucker”. Tinha eu e o Snoop nela, com o Warren mixando e mandando ver nos scratches, tentando ser DJ. A gente tava só fazendo música pra nós mesmos, só pra nos ouvir na fita. Nossas influências eram LL, DMC, Special Ed. O NWA apareceu um pouco mais tarde, depois que o Dre e o Wrecking Cru fizeram rolar. Anos depois, quando finalmente conheci o Dre, eu era um puta fã. Não acreditava que ia trabalhar com ele. Ele convidou o Snoop pra cantar pro seu primeiro disco, e quando ele me ofereceu que participasse também, fiquei tipo: “Claro que sim, você é a porra do Dr. Dre!”
Parque Martin Luther King Jr., 1950 Lemon Avenue
“Nem me lembro qual o endereço, mas sei como te levar até lá. Fica a menos de dois quilômetros da loja de discos. Quando jovens, vínhamos aqui bastante durante o verão. Íamos à piscina, jogar bola, rimar — estávamos fazendo isso no gueto. Sempre tinha uns caras mais velhos, e você podia apanhar. É a mesma atitude hoje. Visito aqui muito, e nada mudou realmente. Você tem os cabeça quente e a galera da paz. As camisas xadrez já estão fora, mas ainda tenho uns parceiros com cabelos cheios de cachos. Deveriam ter cortado quando o Kurtis Blow cortou.”
Long Beach Polytechnic High School, 1600 Atlantic Avenue
“Foi aqui que o 213 nasceu. O Snoop também frequentou essa escola. Sou dois anos mais velho que ele, mas ainda assim tivemos algumas aulas juntos. Warren foi para a Jordan — era pra onde todos os nerds iam. Na verdade, conheci o Snoop pela igreja, quando tínhamos tipo 13 ou 14 anos. Sabe, eles faziam uns piqueniques da igreja com jogos de basquete, e foi aí que o conheci. Lembro dele como sendo um cara legal, sempre tentando tirar a galera no freestyle. Eu fiz o que fiz: comecei a escrever raps, em vez disso cantava, porque estava no coral.”
East 61st Street & Linden Avenue
“Era aqui que o Snoop vivia, e nos metemos em várias encrencas por drogas nessa rua. Um mês depois do fim do colegial, fui direto servir para nos fuzileiros navais. Quando saí, voltei pra casa, mas não queria ser policial porra nenhuma, então minha mãe ficava: “Você tá crescido, precisa viver”. As duas mães, do Snoop e a minha, nos chutaram pra fora de casa. Se não tivessem feito isso, provavelmente ainda estaríamos por lá. Sabe como é: quando se tem um sofá, não é preciso procurar por um sofá. Lembro que acabamos ficando em hoteis, mas isso forçou a nos focarmos na música. A vida no crime só rolava pra levar o dia-a-dia. Fazíamos US$ 100, gastávamos US$ 75, e colocávamos o resto em música. Assim que conseguimos fazer negócio com nossos discos, toda aquela merda de crime ficou de lado.”
2022 Lime Avenue
“Essa é a casa da minha avó, no lado leste de Long Beach. Pra falar a verdade ela só se mudou daqui ontem, mas viveu bastante tempo nessa casa. Um dos vizinhos era um pastor, e o outro um assassino. Costumava ir pra lá todo verão, e então me mudei em definitivo quando tinha 14. Foi aqui que as primeiras coisas do 213 foram escritas. Minha família não escuta R&B — nunca escutou, nunca vai. Só escutam música gospel. Foi daí que tirei minha voz; tenho uma voz gospel. Enquanto isso, meus ídolos eram Marvin, Stevie, Maurice White — do Earth, Wind & Fire –, mas também curtia “Hold Me Now”, do Thompson Twins… Escutava isso tudo. Lembro de ficar sentado no meu quarto, compondo melodias. Não sabia de nada, estava em uma parada meio New Edition. A primeira música que escrevi se chamava “Baby Darling Darling Girl”, e sabe o que é mais engraçado? Seguia “Baby darling darling girl, I really love your Jheri Curl”. Eu achava isso fodaço.”
BUSTA NUT VICE US
TRADUÇÃO POR EQUIPE VICE BR
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