Jarosław Zieliński, CEO da empresa por trás do controverso trailer de Hatred, o game ultra-violento de assassinatos em série, parece ser um amor de pessoa.
Zieliński é um corpulento fã de black metal com a fala mansa; um animador que dá duro e passa a impressão de ser sarcástico, porém atencioso. “Não recuse quando ele quiser beber com você”, destaca seu perfil no site da Destructive Creations, seu estúdio de desenvolvimento de games em Gliwice, Polônia.
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Hatred, um game virtualmente sem narrativa sobre um homem branco de cabelos compridos que decide atirar e esfaquear o máximo de civis inocentes em seu caminho, atraiu críticas virulentas. Os clamores expressaram ainda mais indignação após jornalistas e leitores terem descoberto que Zieliński e alguns membros de sua equipe haviam curtido diversas organizações homofóbicas, anti-muçulmanas e nacionalistas no Facebook.
O próprio Zieliński foi levado ao fogo por curtir a página do Facebook de grupos de direita como a da Polska Liga Obrony, ou Liga de Defesa Polonesa, que patrulha as boates de Varsóvia para impedir que jovens muçulmanos bonitos, ou “príncipes morenos” se envolvam com polonesas “puras”.
Após o massacre pessoal, Zieliński se recolheu. A Destructive Creations “esperava algum hype”, mas “não esperava tanta atenção”, disse. “Não sabíamos que faríamos uma bagunça tão grande.”
Parte da razão para uma “bagunça tão grande” talvez tenha sido o fato de que o lançamento de Hatred se dê em uma época em que a imprensa gamer, e seus antecedentes nas mídias sociais, estão examinando as motivações dos criadores de games. Este é um passo positivo para quem encara games como mais do que apenas “jogos”, sendo artefatos culturais similares à filmes, literatura ou música.
Então quando um game é lançado sem qualquer outro propósito que não fuzilar pessoas, os críticos pararam para pensar o que havia por trás dele. O que motiva alguém a simular assassinatos da forma mais realista possível, sem ao menos a decência de atrelar a coisa à uma história? Após conversar com Zieliński, não tenho certeza nem se ele tem essa resposta.
Sei que ele foi assediado pela imprensa, então decidi atrai-lo com death metal. Nos falamos muitas vezes ao telefone no decorrer de algumas semanas, momentos em que descobri que ele prefere as cenas polonesa e norte-americana, tem uma quedinha pela banda esotérica Black Wtichery e tem uma birrinha com a banda de black metal nacional-socialista polonesa Graveland. “Eles são muito ‘heroicos’, muito machões”, disse. “Acho meio vergonhoso.”
Nos demos bem ao falar do Suffocation, a seminal banda de death metal de Long Island que popularizou os urros conhecidos como “vocais de Come-Come”. “Estou surpreso que os jornalistas tenham pego no meu pé por curtir a página da Liga de Defesa Polonesa no Facebook”, afirmou. “Gostaria que alguém tivesse dito que curto a página do Suffocation também.” (Metade da formação original da banda é negra.)
Além do que, ele diz desconhecer a intolerância da LDP e seguia a página para se informar sobre os violentos protestos antissemitas ocorridos em 2014 em muitos países europeus.
“Dar um ‘like’ em uma página no Facebook não significa que você seja um apoiador, e mesmo assim, mesmo que aqueles perfis tenham algo de homofóbico ou nacionalista, são apenas uma dentre muitas coisas que aqueles grupos representam”, disse. “Aquelas organizações são legítimas e seus pontos principais são o patriotismo e a democracia, então curtir suas páginas não é nada ilegal.”
Se levarmos em conta a palavra de Zieliński de que Hatred não foi motivado por intolerância, o objetivo do jogo continua um mistério.

Screenshot: Destructive Creations
Hatred aparentemente não deveria nem ser divertido; Zieliński deixou de fora o hardcore e metal empolgantes que geralmente acompanha games violentos. “Quisemos usar uma trilha dark ambient porque não há nada de empolgante neste jogo”, disse Zieliński. “A ideia é que seja algo meio triste, e odioso. A ideia é deixar o jogador com um sorriso do mal nos lábios.”
“Quero dar ao personagem principal em Hatred uma característica desumana, de máquina de matar. Não quero justificar nada. Quero que o jogador pergunte o porquê.” Esta confissão soa como um argumento criado para justificar a criação de um game sobre nada além de assassinato, mas caso sejamos mais caridosos, soa quase como um manifesto feito por um artista.
Um dos motivos da notoriedade de Hatred foi seu timing péssimo. O escândalo do #Gamergate, considerado por muitos como uma campanha de assédio anti-mulher, já destacou o que há de pior na comunidade branca e masculina dos games.
A violência imaginária da fantasia digital do poder branco masculino se tornou violência de verdade para críticos culturais que não são brancos nem homens, como é o caso da Anita Sarkeesian, uma imigrante iraquiana de segunda geração que tem recebido ameaças de morte há anos desde que começou uma série de vídeos feministas no YouTube sobre games. Mês passado ela teve de cancelar uma aparição em na Utah State University depois que um troll anônimo ameaçou perpetrar um tiroteio em massa.
QUERO DAR AO PERSONAGEM PRINCIPAL EM HATRED UMA CARACTERÍSTICA DESUMANA, DE MÁQUINA DE MATAR
Uma espiada no forum da Destructive Creations mostra que muitos dos apoiadores do jogo-que-ainda-será-lançado fazem parte das bases do #Gamergate. Estou falando de integrantes do Men’s Rights Activists, pessoas de direita, racistas declarados e guerreiros dos teclados saídos do 8chan e 4chan. A violência niilista de Hatred os atrai, e eles não veem o que há de errado com o game.
Alguns dos produtos midiáticos favoritos de Zieliński são os filmes Clube da Luta e Snatch – Porcos e Diamantes, além da série televisiva Band of Brothers. Ele afirma que sua vida tem sido relativamente “sem violência”, e que não é necessário crescer em um ambiente violento para gostar da violência em filmes ou games. Hatred assumidamente brincou com a controvérsia desde o inicio, mas o tanto de reações negativas que o trailer recebeu deixou-o confuso.
“Entendo que alguns jogadores terão problemas com jogos como estes, mas quase todos os games são bastante violentos”, disse. “O nosso apenas não justifica esta violência de forma alguma.”
Sua equipe, que inclui muitos entusiastas da comunidade de modificadores de PCs da Polônia, “nunca esteve fazendo algo que não fosse sobre matar”, disse. “Com Hatred, apenas tentei deixar tudo o mais realista possível.”

Screenshot: Destructive Creations
Zieliński está certo; Hatred não é tão único. No geral, os games ficam atrás de outras mídias na forma como tratam a narrativa.
Para cada Assassin’s Creed, que tenta desafiar nossas noções de outras culturas e histórias, há dezenas de games que se valem de alegorias ofensivas, sexistas e racistas.
Far Cry 3, em si e por si, marca quase todas as opções, incluindo aí “salvador branco”, “selvagem nobre”, o “negro mágico”, e uma mulher “étnica” hiperssexualizada em seu enredo “satírico”. O autor deste, Jeffrey Yohalem, insiste que o jogo está ciente do uso destas alegorias. “A ideia era ser uma sátira de popularidade“, afirmou.
O mais recente game da série Grand Theft Auto reduz a liberdade do jogador em uma série celebrada por consistir em um mundo aberto, ao introduzir uma sequência inevitável em que você tem que torturar um muçulmano pelo bem do governo norte-americano. Isso também foi defendido como “sátira”.
Outros games que são mais cuidados em sua abordagem, como Call of Duty, provavelmente são menos progressivos que Hatred. Além de cometer o erro comum de representar Karachi como uma cidade em que se fala árabe (o Paquistão é tão árabe quanto a Turquia é nórdica), a lista de personagens não-brancos da desenvolvedora do game, Infinity Ward, é composta por personagens não-jogáveis, e geralmente só estão ali para serem fuzilados (especialmente se forem morenos e nativos do país muçulmano sem nome fictício de COD).
Escolher ficar ultrajado com jogos que mostram tiroteios em massa nos EUA, enquanto aceita-se games que mostram assassinatos em massa na África ou no Oriente Médio é hipócrita, na melhor das hipóteses. Na pior, reforça a noção de excepcionalidade norte-americano e supremacia branca.

Screenshot: fórum da Destructive Creations
Enquanto os games travam uma batalha por sua própria alma, o game Hatred não deveria ser mais culpado de nada que Call of Duty, ou Grand Theft Auto, ou Far Cry. O problema é que estas obras de arte são feitas para um espectador cínico e afastado de tudo. Bell Hooks em seu artigo de 1996 sobre Quentin Tarantino chamou está estética de “white cool“.
Em suas palavras, o white cool é “uma visão extremamente cínica em que todos perceberiam o racismo, sexismo e homofobia, mas se comportariam como se essas coisas não importassem em nada, ou então, caso importassem, isso não significaria nada porque nada mudaria”.
Em Hatred, pode-se ver a suposta autenticidade do privilégio branco desenrolando-se através do meio existente há décadas do entretenimento ousado e violento. O game indie polonês apenas segue uma estrada batida já percorrida por outros empreendimentos mais lucrativos.
Apesar de Hatred ainda estar em produção, Zieliński planeja uma sequência. Ele quer não apenas um, mas outros três alegorias culturais norte-americanas como personagens jogáveis. “Para Hatred 2 estamos pensando em três personagens”, disse. “Um sinistro como esse, um cara durão negro a la Hollywood, e uma lésbica que odeia tudo.” Já soa como um filme de Tarantino.
Tradução: Thiago “Índio” Silva
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