Criado em um lar sem pai, nunca imaginei que um dia eu poderia sentir empatia por um pai ausente, mas aqui estou eu, hoje um pai, entendendo claramente porque homens abandonam suas famílias. E não tem nada a ver com o peso da responsabilidade de se tornar um pai.
Não, a raiz do problema com pais que deixam seus filhos é muito mais óbvia que temor financeiro ou imaturidade. Talvez seja pelo próprio fato de o motivo ser tão óbvio que cientistas e assistentes sociais ao redor do mundo não o tenham detectado até hoje. Ou talvez seja necessário um olhar perspicaz como o meu, um humanitário de verdade que compreende o mecanismo íntimo masculino, para perceber algo evidente: papais não são amados.
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Ontem, pela primeira vez sentimos o gostinho da primavera depois de um mês de baixas temperaturas e muita neve. Minha mulher foi para academia e eu levei o bebê e o cachorro para passear pelo bairro. Enquanto caminhávamos pelo nosso perplexo subúrbio me deparava com olhares estranhos a cada esquina. Eu acenava ou sorria, mas em três circunstâncias me perguntaram: “Onde está a mamãe?” Na terceira vez simplesmente respondi: “Está morta”. A cara confusa da mulher virou cara de pena.
Continuei o passeio pensando: “É tão estranho assim um homem empurrando um carrinho sem uma mulher ao lado?” (Aviso: isso não é uma tentativa de me redimir, dizendo que sou o Super Pai, isso é uma forma de julgar a sociedade).
Perto de casa virei à direita na nossa rua, mas o Benny, meu cachorro, viu um esquilo do outro lado da rua e avançou em sua direção. Ele estava preso ao carrinho e quase o virou (eu, claro, como sou o Super Pai evitei que isso acontecesse). Depois de segurar o Benny e explicar a ele que aquilo não foi legal, que ele deveria ser mais sensato e que ele já não era mais um filhote, olhei para o gancho do carrinho onde a guia do Benny estava presa e percebi, pela primeira vez, as palavras: GANCHO DA MAMÃE. Por que GANCHO DA MAMÃE? É só um gancho, não tem nada de maternal nisso.
Foi quando minha ficha caiu: a sociedade considera os pais desnecessários. Deixei o bebê no carrinho no meio da rua e disse para o Benny tomar conta dele, corri que nem louco os três quarteirões que faltavam até minha casa e comecei a destroçar a sacola do bebê, chupetas com dizeres I LOVE MOMMY, lencinhos que manifestam amor pelas mães, uma merda de um body com bolas de futebol americano com a frase MOMMY LOVES ME (QUE PORRA A MAMÃE SABE DE FUTEBOL?). Eu procurei por meia hora e não encontrei uma única peça de roupa ou acessório que expressasse o amor do meu filho por mim como pai. Encontrei vários sobre os avós. Nada pra mim. A campainha tocou. Era um filho da puta perguntando se o cachorro e o bebê no meio da rua eram meus. Falei pra ele tomar conta da vida dele.
Mas conforme ele ia embora perguntei para ele: “Você ama o seu pai?” e ele responder: “Não muito. Eu amo a mamãe”. Um cara de meia idade usando a palavra MAMÃE como se ele tivesse lendo a palavra num babador. Ele foi programado contra seu pai durante toda sua vida por fabricantes de produtos infantis.
Coloquei o bebê no carro e fui para a maior loja de departamento infantil da cidade na esperança da minha teoria estar errada, reazando para encontrar um chocalho ou babador com a frase EU AMO O PAPAI. Mas não encontrei. Bebês não amam seus papais. Amam suas mamães.
E É POR ISSO QUE HOMENS ABANDONAM SEUS LARES.
A compreensão e a lembrança constante de que bebês amam as mamães, não o papai, é de partir o coração. Machuca tanto aqui (estou apontando pro meu coração) que faz a gente chorar. Faz com que o homem queira partir e deixar sua família para trás.
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