
‘Aim’ de Flávio Rodrigues (Portugal), fotografia de Flávio Rodrigues
Já berravam os Sepultura, em 1993, Refuse / Resist. Assim, é a ir dançando entre os pingos da chuva que se faz alguma agitação cultural. O coreógrafo e bailarino, Francisco Camacho, director artístico na EIRA, a estrutura que mete em pontas o evento Cumplicidades – Festival Internacional de Dança Contemporânea de Lisboa, desde há muito que reclamava por um festival assim. Um evento que quer reposicionar a cidade no mapa da dança internacional.
“O tempo de crise e de austeridade acentuou a fragilidade de um sector que nunca se consolidou verdadeiramente e era urgente uma ocasião, um contexto, que impulsionasse o sentido de comunidade, o orgulho de si”, refere à VICE, enquanto também descreve a edição experimental do ano passado como “um acto de resistência”.
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O estado da dança contemporânea portuguesa não é diferente do resto do pulso do país, onde o divórcio com o próprio território se faz por vezes sentir. “Fazia falta um festival que marcasse a dança no imaginário da cidade”, diz o artista, referindo-se à capital. Muito se fala em descentralizar – e vão havendo exemplos, de Montemor-o-Novo a Viseu – mas, por vezes, também é preciso não perder o ponto cardeal. Francisco Camacho defende: “Não menos necessário era reposicionar Lisboa no mapa da dança internacional. Faltava um evento dedicado a esta disciplina artística e que contribuísse para a percepção da capital enquanto centro de irradiação”.

‘Intermitências’ de Joclécio Azevedo (Brasil), fotografia de José Caldeira
Em 2015, o ano zero do evento, o programador Ezequiel Santos elegeu a memória como tema. Nas palavras de Camacho, “evocou o passado para salientar o presente, recuperando momentos da história da dança portuguesa e encorajando as pulsões criativas de hoje”. De facto, a história da dança contemporânea em Portugal tem um caminho feito no pós-25 de Abril. Acontece muito devido ao Ballet Gulbenkian e à consequente formação de bailarinos e coreógrafos, como João Fiadeiro, Margarida Bettencourt, Olga Roriz, Paulo Ribeiro, Rui Horta, Rui Nunes, Vera Mantero, entre outros nomes, que deram origem à denominada Nova Dança Portuguesa, no final dos anos 80.
É uma disciplina, pela sua linguagem universal de corpo e movimento, que pode não forçosamente depender de uma forma fulcral do idioma de origem e que se presta à internacionalização. Uma ida de talentos, mas com vista a uma maior especialização, proporcionou uma nova alavancagem nos anos 90, já que, com alguns regressos, foi possível iniciar um novo ciclo artístico português, com nomes como, precisamente, Francisco Camacho.
Foi também nesta altura que eventos como a Europália 91, um festival cultural realizado na Bélgica com Portugal como country focus, (de alguma forma, para o ano repete-se algo do género na área da música com o WhyPortugal?), assim como a Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura, ajudaram a consolidar uma nova geração de coreógrafos e intérpretes.

‘Contessa’ um solo de Meryem Jazouli (Marrocos), fotografia de Yoriyas Yassine Alaoni
Agora, em 2016, com um ministro da Cultura algo temperamental – a ver vamos – é possível até ao dia 19 de Março, novamente sob a orientação de Ezequiel Santos, assistir a uma programação que assenta no tema “Processos”.
Entre espectáculos, workshops, exposições, palestras, festas e uma conferência internacional, as cumplicidades resultantes deste festival, pretendem fazer da dança contemporânea, novamente um local com eira e beira, num processo que se quer tudo menos kafkiano. Precisamente para, a partir daqui, as latitudes poderem retomar o movimento, sem que para isso se percam para sempre.
Podes consultar o programa completo aqui.
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