Das Vantagens de Estar Desempregado

Andrício de Souza é o eu lírico de Andre (sem acento) Cintra de Souza, paulistano de 23 anos desesperado por um emprego. Tanto que quando mandei o e-mail combinando “uma entrevista” ele se pirilampou todo achando se tratar de uma vaga de trabalho. Mas errou. Aí tive que desenhar que meu interesse era falar sobre as tirinhas e charges que ele começou a fazer em setembro do ano passado e tem postado no domínio que comprou recentemente — pra ser mais exato, desde que ficou desempregado. Tampouco galã, se viu entre o humor e o crack. Escolheu pelo menos delicioso.

Mesmo “envergonhado”, ele aceitou vir da Baixada (“falo que moro em Santos porque Guarujá soa muito afrescalhado”) à redação para a primeira entrevista da sua vida. “Falei pra minha namorada, pro meu pai, pra minha mãe… Eles ficaram felicíssimos. Estou até pensando em contratar um assessor de imprensa.” Aproveitando o contentamento, falamos do tal politicamente correto, o ‘humor inteligente’, piadas infames (“tenho consciência de que não é engraçado pra todo mundo. Então a minha ideia é fazer minhas tirinhas pra mim mesmo, e eu acho muito engraçado.”) e do Peréio. Acabando, infelizmente tive que confirmar que nosso quadro de funcionários estava completo, mas que manteríamos o contato dele para eventuais futuras vagas. E agradeci seu interesse.

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VICE: Tá precisando tanto assim de um emprego?
Andre Cintra de Souza: Tô, bastante. Mas é que foi a primeira vez que alguém falou pra me entrevistar, nem tava esperando. Foi legal.

Quando você começou a fazer tirinhas?
A primeira que eu fiz foi em setembro do ano passado. A minha namorada tava trabalhando, eu em casa, e tavam falando do sigilo fiscal do Serra. Aí eu tive uma ideia idiota de sigilo fecal. Falei: “Vou fazer uma tirinha”. Não tinha nada pra fazer e fiz. Só que gostei, então fiz outra, depois outra… E resolvi criar o blog. Aí comecei a fazer todos os dias, a gostar pra valer. Agora faço sempre, fico o dia inteiro pensando em alguma coisa, em alguma tirinha que pode surgir. As ideias vão surgindo. Eu nunca tinha feito isso antes. Assim, eu não tenho muita técnica. Fiz o blog pra mostrar que eu não tenho pretensão de desenhar bem, até porque eu não sei. Então aquela ideia de a tirinha ser rasgada, feita no papel, é mais pra isso. Mas nunca fiz aula de desenho. Eu não tenho técnica suficiente pra ser influenciado pelo Laerte, Angeli, sei lá… Tanto que faço as tirinhas e não me preocupo muito com o desenho, e mais com a ideia, com os diálogos.

Já tem bastante gente acessando seu site?
Ah, tá crescendo. Conforme o tempo passa, o pessoal tá se acostumando a entrar. Então varia entre dez… Quer dizer, dez não. Dez era mais no começo. Agora vai de umas 50 a 500 por dia. Mas 500 é por causa do Twitter, quando alguma pessoa que tem vários seguidores gosta do negócio, aí dá RT, outro dá RT… Aí eu vejo um monte de gente entrando, mas porque dei a sorte de uma pessoa gostar. Até um cara de Recife me mandou um e-mail dizendo que gostava e tal, achei super generoso da parte dele. Tem também quem não goste, que fica comentando grosseria, mas acho que é isso aí. Acho que faz parte. Que nem os caras que fazem humor hoje em dia. Vivem reclamando do politicamente correto. Acho isso uma bobagem, porque faz parte você agradar as pessoas, assim como também faz parte ter gente que fica puta da vida. Significa que você tá conseguindo mexer com alguma coisa mais concreta, né? Quando isso acontece, acho super positivo. Desde que não me processem e não me tirem dinheiro. [risos] Por exemplo: fiz umas tirinhas da Nextel porque acho super ridícula aquela propaganda. Aí eu pensei: “Pô, o blog não é muito famoso, já que os caras da Nextel nem entraram em contato comigo”. Então tenho a liberdade de fazer o que eu quiser. Mas se eles me processassem seria bom também porque teria aquela comoção. Mas o blog não é tão importante.

Você tá pedindo por processos, então?
Eu… Não. Assim, eu rezo pra ser bastante processado e perder muito pouco dinheiro. [risos] Aí tá tudo certo. É porque essas propagandas sempre mostram o como o cara é foda e como se superou. Por exemplo aquela com o Herbert Viana. Ele teve um acidente no qual morreu uma pessoa e ele ficou paralítico. Hoje ele usa isso pra fazer propaganda. Ou o Fábio Assunção. Ele usava cocaína até pouco tempo, não conseguiu nem fazer o papel na novela… E fica se achando na propaganda? Pô, pensei: “Isso é muito ruim, né?” A pessoa usar da própria história pra vender telefone celular. O que tem a ver? Hoje em dia todo mundo acha que a vida é muito foda, que daria livro, que não sei o quê.

Mas você usa um pouco da sua vida também, como nas tirinhas nas quais sua mãe aparece.
Assim, alguma coisa de engraçado que acontece comigo eu tenho a ideia de colocar na tirinha. Ou a de colocar a minha mãe, mas mais pra tirar um sarrinho dela, que ela fica brava. O Henfil escrevia umas cartas pra mãe dele, e eu achava super engraçadas. Então decidi fazer essa homenagem pra ele e pra minha mãe ao mesmo tempo. Fica engraçada essa ingenuidade da mãe com o filho que faz a tirinha. Por isso eu coloquei ela, mais pra colocar essa coisa do meu lado pessoal. Já o Peréio, por exemplo, eu uso pra colocar o meu lado bruto. Coitado do Peréio, mas na verdade eu uso a figura dele pra me expressar desse jeito mais bruto. Aí posso falar: “Não sou eu, é o Peréio”. E ele é o personagem que o pessoal mais gosta. A minha namorada sempre pede pra eu fazer mais tirinhas dele.

Então você usa o Peréio para o seu lado mais cafajeste?
Isso, isso. A minha mãe é o contrário do Peréio. Tava até pensando que preciso criar mais personagens, porque aí fica até mais fácil de criar tirinhas. Recentemente criei o Deu, o singular de Deus. É um cara que se acha um Deus personalizado. Então se Deus olha pra todas as pessoas do mundo, ele olha pra três ou quatro que são as clientes dele.

E o Deu vai ser o Humberto Martins?
Pensei que seria mais legal se tivesse um ator pra interpretar ele. Eu, como diretor, tentei o Paulo Autran, o Marco Nanini, mas escolhi o Humberto Martins. Ele vai servir. Ele vai ser o Deu. Mas ainda preciso encontrar alguém pra ser Jesu, o singular de Jesus, o Juda, do Judas.

Já tem alguém em mente?
Não. Se você tiver alguma ideia…

Então você começou a fazer tirinhas por estar desempregado?
É. Se eu estivesse ganhando bastante dinheiro eu nunca estaria fazendo tirinhas. Se eu tivesse um emprego – ou fosse bonito – eu jamais faria tirinha na minha vida. Se eu tivesse emprego eu ficaria trabalhando o dia inteiro, e se fosse bonito ficaria me olhando. Aí como não tenho essa possibilidade, faço as tirinhas e fico vendo as tirinhas.

Mas as tirinhas podem te dar dinheiro e mulher algum dia.
Ah, é! Quer dizer, não, mulher eu já tenho! Dinheiro quem sabe… O engraçado é que quando tinha outros blogs eu realmente pensava em ganhar dinheiro com aquilo, mas quando fiz esse do Andrício eu nunca pensei nisso. Só queria fazer um blog singelo. E de repente começou a bastante gente entrar – mais do que nos outros dois blogs juntos – e acho até que ajudou esse negócio de eu não ter pretensão. Aí rolou essa entrevista aqui, achei engraçado. Nunca tinha acontecido na minha vida, alguém me chamar pra uma entrevista.

Você acha suas tirinhas engraçadas?
Olha, eu sou totalmente bobo com as coisas que eu faço. Quem anda comigo sabe, porque às vezes quando eu falo alguma coisa que eu acho engraçada eu acho muito engraçada. Eu tenho consciência de que aquilo não é engraçado pra todo mundo. Então a minha ideia é fazer minhas tirinhas pra mim mesmo, e eu acho muito engraçado. Assim, é porque sou eu que faço. Então como eu faço pra mim mesmo, eu gosto. A minha favorita é do Osama Bin Laden. Eu tenho consciência de que as outras pessoas não vão achar tão engraçado. Mas também às vezes a ideia não rola, então algumas eu não acho mais engraçadas.

E sua mãe?
Gosta. Ela entra no site todo dia. Tem até uma que eu achei que ela fosse ficar brava, mas acho que ela nem viu. Aquela do tio. Não é pra nenhum tio meu em especial, mas poderia ser pra qualquer tio. Geralmente tio fala umas merdas dessas. Eu até queria que algum tio meu tivesse falado isso, mas não falaram. Eu gosto dos meus tios. Até agora ninguém reclamou, aquela tirinha é um assunto proibido na minha família. Às vezes até tem alguma coisa que minha mãe fala: “Ai, Andre…”. Tipo quando eu falo uma putaria, mas no geral gosta. Meu pai também.

O que acha dos programas de humor atuais?
Quando você faz o humor, acho que tem a reação – dos dois lados. Tem o pessoal que gosta e o que não. O que não gosta pode ser por, 1) você fez uma coisa ruim mesmo, ou, 2) mexeu com alguma coisa que a pessoa não gosta que mexa. Aí eu acho que é o ponto. Esse politicamente correto é só outro nome, antigamente eram ‘os conservadores’. Sempre teve resistência. Você vai fazer humor e não quer resistência? Enfim, esse negócio do politicamente correto, por essa moda de stand up – que eu acho esquisito, é um humor muito proposital –, as pessoas estão numa ânsia de dar risada, mas numa ÂNSIA. É só ver nos vídeos, o cara nem acabou de contar piada e a platéia já tá louca pra rir. Eu acho que uma comédia muito proposital fica sem graça. O cara tem toda a intenção de fazer rir, e eu acho que o humor não pode ser muito proposital, senão fica vulgar. Como o Zorra Total, o stand up comedy e muita coisa de publicidade – que quer fazer uma piada a qualquer momento pra fazer você rir. Eu acho que não tem que ser assim, não pode parecer muito que você tá querendo fazer graça.

O que me incomoda também é esse ‘humor inteligente’ que, por exemplo, o CQC quer dizer que faz só porque lida com política, ao contrário do Pânico, que não lida com isso – então não é inteligente. Eu não gosto muito disso, acho que se é humor já é inteligente. Você pode mexer com qualquer coisa. O tema do CQC é supostamente inteligente, mas por que o dos outros humores não? São burros?

E se aparecer um emprego agora, você para de fazer tirinhas?
Ah, não paro não. Eu gostei. Quando eu termino uma tirinha, me sinto super realizado. Agora, se eu conseguir um trabalho, vou fazer no final de semana, à noite… Ou no trabalho, quando não tiver ninguém olhando. Enfim, se alguma hora acontecer uma tragédia dessa de eu conseguir emprego…

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