Discos: Cannibal Ox


Gotham
Below System

8/10

Com a aproximação da viragem do milénio, surgiram naturalmente diversos discos fascinados com as profecias catastróficas associadas ao momento. Enquanto linguagem especialmente dada ao fatalismo, o hip-hop olhou também para o apocalipse, mas foi além do folclore inerente, e aproveitou a ocasião para reflectir sobre o lugar do homem e as suas possibilidades (ou a escassez delas) perante uma nova Era. Bastaria, por exemplo, regressar a 1998 para logo aí encontrarmos dois álbuns de hip-hop em que as previsões apontavam para um futuro adverso e conturbado: falo de Tical 2000: Judgement Day (em que “Perfect World” era tudo excepto perfeito), de Method Man, e Extinction Level – The Final World Front, do inimitável Busta Rhymes. Depois da viragem milenar, o tema do fim do mundo foi aos poucos sendo abandonado até que mais ninguém se lembrasse dessa coisa em 2001.

Mas foi precisamente nesse ano que o hip-hop conhece aquele que é talvez um dos seus mais decisivos discos apocalípticos: o soberbo The Cold Vein, dos Cannibal Ox, que apanhou quase toda a gente com as calças na mão e aliviada por nada de maior ter acontecido com a chegada de 2000. Ao contrário de Tical 2000 ou Extinction Level, o muito superior The Cold Vein não parece interessado em projectar um cenário de medo à distância, mas sim em saltar para dentro do medo de modo a decifrá-lo. Nesse movimento, The Cold Vein arrasta-nos com ele para um universo que, apesar de nada normal ou amigável, tem todos os atractivos (as rimas de Vast Aire e as produções de El-P parecem vir de outro mundo) para que ninguém queira sair sem antes conhecê-lo até ao ponto de dominá-lo. Quem sabe se The Cold Vein não será até um disco conceptual sobre o medo de um tempo distorcido e tudo o que passou por ele.

Seja como for, o regresso dos Cannibal Ox, doze anos após The Cold Vein, é feito com uma voz carregada de efeitos a discursar em nome próprio: “Achas que a escuridão é tua aliada, mas só te adaptaste a ela. Eu nasci dentro dela e fui moldado por ela”. É assim que começa “Gotham (Ox City)” e nada podia fazer tanto sentido como forma de anunciar a revolta de uma entidade tão visceral e sem merdas como os Cannibal Ox. E a verdade é que Vast Aire e Vodul Mega parecem tão fodidos da vida (e carregados de Nova Iorque nas línguas) como sempre, enquanto as produções de Bill Cosmiq ficam longe de deixar entrar qualquer luz nas três malhas de Gotham (o lado-b do vinil de edição limitada tem os respectivos instrumentais). Nada disto aparenta estar datado e só vem aumentar a nossa ansiedade por um novo disco completo por parte dos Cannibal Ox.                                        

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