Música

DJ Uniique e a Ascensão do Jersey Club

Da esquerda pra direita: Gordito, Bleszt, Uniique e Guno Metropolitan Loft em Newark, Nova Jersey. Fotos por Brandon Cribb.

Eram 19h e as amplas calçadas do centro de Newark, a região de negócios e compras da cidade, já estavam vazias, exceto às multidões que enchiam os pontos de ônibus indo para outros lugares. Muitas das fachadas das lojas estão desocupadas, mas algumas delas estão cheias de galerias de arte pop-up. Vimos essas ruas noturnas do telhado do The Metropolitan, um loft que abriga muitas das festas underground da cidade, uma loja de skate e uma ou outra exposição de arte.

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Top 40, trap, e big room house comandam a vida noturna aqui, mas o herói local é o Jersey club.  É um estilo que nasceu do Baltimore club nos idos de 2001 e é todo cheio de pesadas tercinas de bumbo e viradas bruscas. É normalmente tocado em torno de 135 a 140 BPM e utiliza-se de samples de vocais de hits de rap e R&B. Enquanto a maior parte das pessoas que fazem festas aqui no The Metropolitan ou tem uma conexão com ou vieram pelo Jersey club, os sons que você vai ouvir numa sexta à noite são intencionalmente mais diversificados.

A DJ Uniique tem um pensamento parecido. Apesar de ser indubitavelmente uma produtora de Jersey club, ela estå interessada em outros gêneros tipo o grime e colabora com artistas de todo o variado leque da eletrônica. Seus projetos mais recentes — uma mixtape de 50 a 100 faixas (!!!) e um EP — são ambos focados no crescimento do Jersey club, incluindo suas raízes no Baltimore club. Mas eles são mesclados com técnicas atualizadas e truques, outros estilos, e seu tempero próprio. “Quero que todos os meus projetos passem uma mensagem”, argumenta. “Isso é tipo uma variação de Jersey club. Fala sobre a revolução do gênero através do estilo das faixas”.

Os produtores de club geralmente trocam uns com os outros kits de áudio cheios de sons com frequências alteradas, beats e loops, apressando o crescimento e a experimentação natural do gênero. Quando os Brick Bandits— a primeira crew de Jersey club — incluiram a Uniique no time, eles a deram o kit de áudio BBC, exclusivo para seus membros. “Pedi às pessoas que me descolassem uns esquemas quando comecei, e isso cresceu com o tempo. Mas eu faço meus próprios samples. Algumas pessoas os compram — isso não mata”.

Criada em Hillside, Nova Jersey, um bairro do subúrbio que faz fronteira com Newark, ela cresceu com club music. A juventude local foi exposta a esse tipo de som desde muito cedo: crianças com 10 anos vão à festinhas, e prodígios como Sliink e Nadus começaram a produzir aos 12. Mesmo tendo começado a frequentar festas bem nova como a maioria, ela só começou a tocar em 2009, aos 18 anos — e foi um início tortuoso. Apesar de existirem outras artistas na cena, como Kayy Drizze So Dellirious, Uniique foi a primeira naquela época, e ela teve um pouco de dificuldade em convencer os rapazes de que era boa.

“Quando comecei a tocar, ninguém me levou a sério. Eles ficavam tipo, ‘senta aí. Você não deveria estar dançando ou algo assim?’ Até que um dia numa festa eu estava brincando nas mesas de som antes de abrirem as portas e pessoas falaram “Oloco, foi a Uniique? Ela consegue tocar!”.

E com um pouco de sorte, seu trabalho começou a valer a pena quando ela começou a ser convidada para se apresentar: “Toquei rap, R&B, hip hop e até um pouco de dancehall. Mas foi tudo focado em Jersey club, que era o ponto alto. Eram festas em casas, porões, alguns centros de juventude aqui e ali. Salões aleatórios. Era assim que as festas aconteciam. Era uma mistura de tudo, mas não em clubes, éramos muito novos pra isso. E então a coisa começou a se espalhar de Newark pra outras partes de Nova Jersey.”

Ser um DJ de Jersey club de sucesso no estado não é uma realização pequena, alguns vivem disso e até sustentam filhos. Há festas em todo lado e a competição é intensa. Há festas adolescentes DIY feitas pelos Team Lilman, Team Business, e mais. Além das festas de faculdade feitas por tipos como InkMobe Hoodstar. E também há festas underground tipo a #THREAD e as Thirsty Thursdays no The Metropolitan. E, por fim, há também eventos privados tipo festas de debutantes e de formatura.

O Jersey club viveu muitas mudanças ao longo dos anos. Ele nasceu em Newark e foi originalmente chamado de Brick City club por causa da cidade (NT: Newark é conhecida como Cidade dos Tijolos por causa de sua arquitetura com edificações de tijolos vermelhos). Mas depois de alguns anos caiu nas graças de artistas e fãs pelo estado afora e o nome acabou por mudar como um reflexo dessa expansão. Até a Filadélfia tem sua própria cena que começoua crescer por volta de 2007 num som local conhecido como Philly club ou apenas party music.

Os times de dança e as batalhas sempre fizeram parte da cena do Jersey club. Mas em 2009 as coreografias começaram a ser parte central do movimento. O lance ganhou destaque com “Get Silly”do DJ Fresh, que acabou por virar uma dança por si só. Enquanto as pessoas ainda dançavam juntas, essa mudança significava festas em que nas batalhas os homens eram o centro das atenções, com dançarinos se exibindo com seus novos passos. As coisas realmente avançaram em 2011 quando as pessoas começaram a lançar vídeos de dança no YouTube com faixas novas, culminando com “Hands On Ya Hips”de Jayhood and Joker, que alcançou milhares de visualizações em seus vários uploads, incluindo um post no WorldStarHipHop. Mas isso rapidamente perdeu a importância, embora a dança esteja indissociável dessa cena.

“Agora dança-se a noite inteira com garotos e garotas”, explica Uniique. “Você já não vai mais a uma festa Jersey e vê pessoas de bobeira. Quer estejam ‘giving a ride’, moshing, fazendo uma dancinha sexy, uma coreografia, ou mesmo o two step básico e só curtindo a música, ninguém nunca está parado. Você vai ficar suado e desarrumado. É assim que você reconhece uma festa boa.”

A violência também era um problema recorrente, e a polícia começou a fechar muitas festas. Mas as coisas melhoraram nos últimos anos, ela observa: “A polícia não nos incomoda mais como costumava fazer em 2009, 2010. As festinhas adolescentes começaram a ficar muito, muito ruins. Mas já não é mais assim. Desceram a lenha nos promotores pra melhorarem as questões de segurança, então as coisas ficaram mais seguras. Agora eles também tem um horário limite pra adolescentes. A polícia aparece e bota todo mundo pra fora no horário limite. Mas as festas adultas estão bem mais seguras.”


Uniique em frente a uma pintura por Baja Ukweli.

Enquanto passava por todos esses ajustes, o Jersey club começou a encontrar apoio substancial de DJs mais conectados globalmente como Rizzla e Dubbel Dutch e selos como Body High, que o apresentaram a outros públicos. Uniique inclusive teve a oportunidade de se apresentar no Afropunk neste verão, onde a club music foi dissecada através performances de muitos outros artistas, falando à uma aceitação maior do gênero fora do Garden State (NT: um dos apelidos de Nova Jersey).

 “Antes era sempre aquele gênero que as pessoas tocavam só um par de músicas, mas ver alguns dos sets serem quase todos de Jersey club — e não só as coisas fáceis tocadas em rádios, mas as músicas que fazemos — isso foi uma surpresa”, diz Uniique sobre o Afropunk. “Fiquei muito feliz. Foi tocado por DJs de Londres, não só Nova York e adjacências”.

Mas com esse crescimento vem as preocupações de exploração e apropriação somadas ao oportunismo. DJs de fora de Nova Jersey estão sendo convidados pra tocar ao redor do mundo sets que incluem ou são focados em Jersey club e produtores de fora estão vendendo versões próprias  ou fazendo seus nomes com isso. Mas fora Sliink e agora Uniique, os artistas de Jersey dificilmente conseguem brilhar fora do seu próprio universo.

“Sou sempre aquela que vive mais pra experiência que pro dinheiro”, começa. “Mas é injusto. Há jovens por aí lutando bastante e que realmente poderiam se beneficiar do dinheiro, isso é um lance que estamos fazendo há séculos porque é divertido e nós queremos fazer música. Essa coisa internacional é muito nova pra nós. Mas esses caras novos estão pegando o bonde andando porque o lance é quente”.

Ainda  assim, Uniique observa que é só música e que isso estava fadado a acontecer, como foi com tantos outros gêneros. Então ela reserva suas críticas para os artistas de fora que produzem Jersey club e omitem suas identidades, o que parece ser algum tipo de tendência ultimamente: “É maneiro se você vai fazer Jersey club, mas o produtor anônimo tira oportunidades daquele que mostra a cara. Há muitos jovens da minha idade e até mais novos que fazem Jersey club e que não têm as conexões que esses caras têm”.

Enquanto o resto do mundo começou a se apegar ao Jersey club e a seguir adiante na velocidade da luz, o club — e as artes como um todo — ainda continuam na luta por reconhecimento em sua própria casa fora de seus respectivos círculos. “Sinto falta das pessoas daqui serem informadas e darem seu apoio às coisas positivas como os jovens se relacionando por causa da música ou da abertura de uma galeria de arte”, lamenta. A maneira como Uniique ajuda a atrair atenção para esses acontecimentos positivos, ao invés de ganhar respeito como artista individual, é seu envolvimento com o prêmio Jersey Club Awards. Ela ajudou a iniciá-lo, há dois anos, ao lado de  DJ Swiggs e outros pra dar reconhecimento aos dançarinos, vocalistas, produtores e DJs envolvidos na cena.

E ela sonha alto: “Queremos unificar Nova Jersey”.

Mike Steyels mora em Holland Tunnel, siga ele no Twitter:@iswayski 

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