Elas Virão Todas Para Cá

Machot Lat Thiep, em Nairóbi, Quênia. Fotos: Tim Freccia.

A VICE foi ao Sudão ver como uma das civilizações mais ricas e avançadas durante os séculos de colonialismo na África transformou-se num país castigado por golpes de Estado, ditaduras e desmandos, mergulhado numa série de conflitos intermináveis após a independência, em 1956. Nesta série de 22 capítulos, Robert Young Pelton e o fotógrafo Tim Freccia mostram de perto o que acontece num dos maiores países do continente africano, rico em petróleo e guerras, rachado ao meio em 2011, e com um futuro incerto pela frente.

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“Elas virão todas para cá. Talvez não agora, nem ano que vem, mas virão. Halliburton, Monsanto, Nike, Samsung. Elas virão todas.”

Nosso motorista se chama Edward. Trinta e poucos anos, branco e nascido no Quênia. Bochechas rosadas e cabelo louro cacheado. Seu inglês tem um sotaque que alguns chamariam de arcaico; outros chamariam de colonial.

Horas mais cedo, Edward me disse que tinha finalmente encontrado um piloto que concordasse em levar nossa equipe ao Sudão do Sul, mais especificamente à região instável controlada pelos rebeldes. O Sudão do Sul é a mais nova nação soberana da África e do mundo; conquistou sua independência após um referendo aprovado com mais de 98% dos votos.

Semanas antes de nossa chegada, o governo havia entrado em colapso após uma série de eventos que resultou em profundas divergências internas na administração, dentre as quais a mais crítica talvez tenha sido a destituição do então vice-presidente e atual líder rebelde Riek Machar, a mando do presidente Salva Kiir. Segundo relatos, Machar teria fugido e se encontra escondido no meio do nada. Eu estava determinado a encontrá-lo e acreditava seriamente que poderia fazê-lo, contanto que encontrássemos um bendito avião e um piloto com a coragem de nos levar até lá.

Edward me conta o que faria se tivesse um milhão de dólares para “investir na África”, enquanto viajamos a uma velocidade alucinante por uma rodovia escura de Nairóbi, com os faróis mal iluminando a estrada à frente ou qualquer coisa que pudesse obstruí-la.

Machot Lat Thiep me acompanha. Ex-criança-soldado, agora gerente de uma empresa de varejo norte-americana, Costco, em Seattle, insiste que quer “salvar seu país”. O terceiro membro de nosso grupo é o fotógrafo e cineasta Tim Freccia, já veterano em coberturas na África. Convencer os dois a vir comigo foi fácil.

O que tem sido realmente difícil é encontrar um piloto no Quênia que queira nos infiltrar no Sudão do Sul, principalmente devido ao risco de ser considerado um conspirador pelos rebeldes, o que poderia facilmente resultar em sua morte. Há dez dias no país, já tínhamos nos encontrado com uma dúzia de companhias de fretamento e tentado convencer mais meia dúzia de pilotos. Aqueles que não nos recusaram imediatamente acabaram desistindo no último minuto. Já estávamos quase considerando voltar aos Estados Unidos, mas Edward insistia que tinha encontrado nosso homem.

“Esse cara é um cowboy. Ele faz resgates de reféns da Somália”, diz Edward. “Os somalianos tentaram apreender seu helicóptero no ano passado, mas ele conseguiu escapar. Ficou preso por um mês, mas é o preço que se paga.”

Edward é um companheiro animado; de vez em quando, olha para fora do para-brisa, evitando minuciosamente buracos e quebra-molas, e os faróis dianteiros ainda baixos. Passamos por um caminhão que rolou para fora da pista. “Me dá sua câmera”, diz. Edward chega mais perto para tirar uma foto na luz do crepúsculo. Locais tentam impedi-lo, mas ele segue em frente até conseguir as fotos do veículo destruído. “Esse foi feio.”

A novíssima nação do Sudão do Sul se desmantelou algumas semanas atrás e Machot quer entrar no país. Eu quero um furo entrevistando Machar e Tim está comigo para registrar tudo.

Estamos a caminho de nosso avião. Esse piloto é nossa última opção.

Mas ainda temos três horas de viagem pela frente até chegarmos ao campo de pouso particular. Em meu bolso, um chumaço amassado de verdinhas totaliza US$ 15.000. Conversamos sobre oportunidades na África.

“Você cria uma sociedade, regulariza tudo, cria um site e tudo mais… e espera”, diz Edward.

Ele se esquiva de um caminhão de combustível barulhento e volta suas atenções a mim.

“Mais cedo ou mais tarde, eles chegam até você. O filho do presidente roubou o nome Vodafone. Tentaram dissuadi-lo por duas semanas, mas nada aconteceu. No fim, tiveram que mudar de nome para Safaricom.”

Edward está falando do filho do presidente queniano Uhuru Kenyatta, que, por sua vez, é filho do fundador da nação, Jomo Kenyatta.

Em um continente conhecido pela caça ilegal de animais, essa é uma forma avançada e high-tech de fraude. É como uma ocupação ilegal, parecida com o que os chefes tribais costumavam fazer quando encontravam exploradores brancos, ansiosos para negociar terras que não possuíam. Na época, tudo que o contrato envolvia eram pedaços de tecido e algumas bugigangas.

“Custa só US$ 240 para registrar uma empresa. Nomes como JPMorgan, Goldman Sachs… Sabemos que elas acabarão vindo.”

Saindo de Nairóbi, continuamos rumo ao norte pelo labirinto de miniônibus matatu; buracos gigantes e pedestres errantes na noite queniana. Nossa pressa para chegar à pista de pouso é parte de uma espécie de corrida contra o tempo, o que sempre parece estranho neste continente indiferente a esse tipo de coisa.

Robert Young Pelton contando notas de 100 dólares. 

Escolhi Edward porque ele cultiva rosas, um dos principais produtos do Quênia. Edward passou a semana passada organizando voos para o resgate de membros de ONGs presos no Sudão do Sul. Branco e nativo do Quênia, Edward sabe de muitas coisas que um visitante comum jamais imaginaria.

Edward entende de genética. “As rosas são um grande negócio no Quênia”, explica. “Há um espaço estreito a 4.200 pés de altura. Se você as cultiva muito alto, as florações são muito grandes; muito baixo, e o caule fica longo demais. Sei quais rosas vender, quais crescem. Eu poderia comprar um terreno, colocar nele as melhores rosas e fazer uma fortuna.” Edward está cansado de ver pessoas menos entendidas fazendo dinheiro enquanto ele faz malabarismos entre seus vários trabalhos para se manter. “Um metro quadrado de rosas pode gerar US$ 50 de lucro ao ano.”

Desviamos de um caminhão que vinha em nosso caminho.

As rosas são ótimas para traficar drogas. Boa parte da indústria da aviação é contratada para transportar khat, droga cultivada no Quênia e na Somália, país vizinho. Mas há muitas drogas entrando no Quênia, principalmente cocaína e heroína. Edward também conhece esse negócio. “As flores vêm com aqueles pacotinhos brancos, teoricamente cheios de açúcar para que floresçam por mais tempo. Os pacotes são hermeticamente selados, então, os cachorros não conseguem farejá-los.”

A indústria das rosas também permite a lavagem de dinheiro. “Você paga suas despesas em xelins quenianos, mas recebe no estrangeiro em moedas fortes como dólares ou euros. É só manter esse dinheiro fora do país e repatriar o suficiente para cobrir seus gastos.”

Edward não está envolvido em nenhum desses esquemas, mas vê o dinheiro que é gerado por aqueles que estão. É um nativo que entende de tudo e que tenta ganhar a vida em seu próprio país, enquanto vê estrangeiros lucrando exorbitantemente por todos os lados.

Quando perguntei se poderia encontrar um piloto que nos levasse ao Sudão do Sul, Edward encarou isso como um desafio pessoal, sobretudo considerando aonde queríamos ir e com quem queríamos nos encontrar.

A conversa faz o tempo passar enquanto dirigimos no escuro da noite.

Bloqueando nossa passagem há um caminhão da empresa de laticínios Brookside Dairy.

“Estou te dizendo, Robert, tudo aqui é corrupto”, diz Edward, apontando para o caminhão. “O presidente do Quênia é dono da Brookside Dairy. Quando os italianos da Parmalat tentaram entrar aqui, não conseguiram autorização.” (A Parmalat culpou a violência relacionada às eleições pelo fato.)

Em algum lugar na escuridão se esconde uma enorme plantação de abacaxis. “Todos estão fazendo dinheiro. Juntos, os familiares do presidente Kenyatta são um dos maiores proprietários de terras do país”, insiste. Há também os “trabalhadores fantasma” do governo: “O governo queniano tem milhares de pessoas na folha de pagamento que não existem. Descobriram que de 16 mil empregados, somente 12 mil trabalhavam”.

“Toda licitação é corrupta. Quando há uma proposta de US$600.000, jogam o preço para US$1,2 bilhões, porque US$200.000 já têm destino certo.”

Passa outro caminhão de combustível. “O combustível é outra armação. Os caminhões são abastecidos em Mombasa. O motorista, então, suborna o cara para que não sele a tampa que fica em cima. À noite, crianças vêm e drenam o combustível, substituindo por uma quantidade igual de querosene. Eles conseguem fazer isso com o caminhão em movimento, seguindo-o com uma picape. Eles chegam a conseguir US$1.000 por dia. Na chegada, o motorista pede que selem a tampa e faz sua descarga.”

Edward acredita que a África está podre até a alma. Não tenho como saber se tudo em que Edward acredita é verdadeiro, mas é certo dizer que a oportunidade na África é uma via de mão dupla. Aqueles com os recursos são tão espertos quanto aqueles que vêm explorar o continente. A corrupção aqui anda lado a lado com a camaradagem: faça os amigos certos, molhe as mãos certas e as coisas acontecem.

“É possível fazer muito dinheiro com moedas estrangeiras aqui. Há um homem no Banco Central do Quênia que informa os investidores se o xelim vai subir ou cair. Seus amigos ganham milhões com o câmbio, a maioria indianos. Por isso, tudo aqui é falso, variam o calor da moeda como bem entendem. O cara que fica à beira da estrada”, aponta, “faz 300 xelins [cerca de US$3] por dia. Ano que vem, ele terá que produzir o dobro. Enquanto isso, os outros ficam cada vez mais ricos. Todo contrato aqui tem um preço”.

“É frustrante. Já mandei 32 propostas para uma produtora de rosas. Propostas reais, avaliadas por advogados e contadores. Precisaria de US$1,2 milhões para começar e em um ano e sete meses teria meu dinheiro de volta.”

Edward não mantém uma linha de raciocínio linear; gosta de digressões. Então voltamos repentinamente ao assunto das companhias: “Empresas como a Monsanto estão vindo para cá. Elas têm que vir até você porque custa muito caro fazer tudo conforme a lei. Eles têm que comprar todo mundo”.

“Comprei um pedaço de terra perto de uma base militar. O coronel me disse que deveria comprar uma terra, então eu comprei. Paguei US$5.000 por ela e a vendi por US$42.000 nove meses depois. Eles estavam expandindo a base e precisavam do lugar para abastecimento de combustível. Dei sorte, acho.”

Carregamento de equipamentos e mantimentos em avião fretado em Nairóbi. 

Finalmente chegamos. Viramos bruscamente e, ao mergulhamos na escuridão, uma cerca de arame apareceu à luz dos faróis.

Soja soja”, grita Edward em seu Swahili perfeito. Um guarda abre o portão e logo estamos no meio do que parece um resort, exceto pela grande aeronave parada do lado de fora de um bar e restaurante.

Nossa discussão sobre como as coisas acontecem na África parecia indicar que o único jeito de se conseguir um voo era fazê-lo do jeito “africano”.

Um pouco mais cedo, o piloto pediu que forjássemos no Photoshop uma carta de permissão do governo do Sudão do Sul, usando o nome de um ministro imaginário. Não é o piloto que precisa da carta, mas o eventual burocrata que talvez nos peça para vê-la, com uma pequena compensação financeira para dizer que a documentação está toda em ordem.

O preço, US$15.000, também é o dobro do que um fretamento ao Sudão do Sul deveria custar, mas, com uma linha privada e remota como essa, garantimos que nenhum oficial de governo saberá sobre nossa viagem.

Enquanto esperamos por nosso piloto no bar, Edward me conta outra história: “Meu tio e sua esposa tinham uma empresa que organizava safáris. Tinham um contador em quem confiavam. Estavam sempre viajando por causa de seus compromissos. Um dia, o contador criou uma empresa fantasma, aparentemente igual à empresa de meus tios. Com isso, o contador recebia notas falsas de fornecedores, que a cada US$10.000 em notas, ganhavam US$2.000”. Meus tios, sempre na correria, não percebiam. Isso durou sete anos, perderam quase um milhão de dólares. É possível lutar contra a corrupção? Não.

Nosso piloto chega, finalmente. Corpulento, parecia já ter tomado umas cervejas. Também é branco e nascido no Quênia. O proprietário nos oferece cerveja e acende um cigarro.

O piloto preenche as lacunas da história que Edward me contou no caminho – de como conseguiu entrar no espaço aéreo somaliano e resgatou os dinamarqueses e filipinos da equipe do navio MV Leopard. Após deixar os reféns, as autoridades de Mogadíscio cercaram seu Eurocopter. “Reclamaram com os quenianos e nos prenderam por 30 dias.” Eles sabiam que havia muito dinheiro envolvido.

Parece que todo piloto por aqui tem uma história para contar. Já passamos por muitas e queremos mesmo é encontrar um piloto que nos leve até uma guerra, e não que fique nos contando sobre seu trabalho.

Enquanto sentamos no rústico restaurante do campo de pouso, começa a chover. Um cheiro de grama se espalha no ar e o piloto dá uma batidinha no cigarro.

Explico que queremos deixar o país o mais rápido possível para nos encontrar com os rebeldes e entrevistar seu líder. Informo ao piloto que foi um inferno encontrar um piloto que nos levasse a qualquer lugar além de Juba, capital do Sudão do Sul – lugar que, caso descobrissem aonde iríamos, era morte certa para Machot e prisão para nós.

“Eis seu avião”, diz, apontando para o bimotor Cessna 210, orgulhosamente parado na pista. “Decolaremos com os transponders desligados, voaremos baixo, fora do alcance do radar, faremos escala em Lokichoggio e então vocês ficam em Akobo. As colinas devem bloquear o radar e, quando voltarmos, ninguém terá descoberto. Vocês deixam suas coisas nos compartimentos laterais e saem pela porta do piloto.”

Após o pouso, o avião ficará parado e com as turbinas ligadas por não mais do que quatro minutos até que continue seu caminho. Então, com seu cigarro pela metade, o piloto para, com olhar sombrio. Não sei se foi alguma mudança no tempo, se foi algo que dissemos, mas alguma coisa o incomodou.

“Sabe… tem alguma coisa errada. Não vou fazer isso. Quer saber? Acho que vou devolver seu dinheiro.”

Eu e Edward nos olhamos, incrédulos.

Nosso piloto continua: “Resgatei os reféns em novembro e tentaram confiscar meu helicóptero. Quando voltei ao Quênia, fiquei sem licença por 30 dias”.

Ele está recontando a mesma história que tinha nos contado menos de 30 minutos antes, mas agora ela tinha mudado de “conto de bravura” para “desculpa para não nos levar ao nosso destino”. A energia acaba e ficamos todos sentados no escuro.

“Não vou arriscar minha licença e US$15 milhões em negócios. Fazemos muitos negócios no Sudão do Sul. Se ficam sabendo disso em Juba, estou ferrado.”

“Vamos fazer isto de forma legal. Iremos por Juba, tenho meus contatos no aeroporto. Seu amigo pode se esconder no avião e 10 minutos depois estamos indo a Akobo. Arrumem um visto no aeroporto para o Sudão do Sul e resolvemos isso. Venham ao escritório de manhã e pensaremos em um plano.”

Edward está estupefato. Voltamos ao carro para discutir, mas, imediatamente, decidimos ligar o motor e deixar o piloto, seu avião e este lugar no meio do nada. E agora, ainda por cima, chove.

De volta à estrada rumo a Nairóbi, Edward está zangado. “Aquele puto!”, grita, enquanto bate no volante. “Ele sabia de tudo que iríamos fazer! Ele concordou! Porra!” Edward me joga seu BlackBerry mostrando seus e-mails. A tela brilhante confirma que nossos planos não eram segredo. “Leia. Aquele puto. US$15 milhões, o cacete. Ele não tem nada com o Sudão do Sul, por isso que tinha o escolhido.”

Sinto o pacote das verdinhas cuidadosamente contadas queimando em meu bolso. Nossas chances de encontrar um piloto que nos leve agora são menores do que nunca e há uma real possibilidade de esta viagem ser um fiasco total. Enquanto Edward dirige como um louco rumo a Nairóbi, tentamos juntar as energias para bolar um plano C, D, ou qualquer letra do alfabeto a que tenhamos chegado.

Próximo capítulo

Tradução: Pedro Taam

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