O ensino superior ajuda a expandir o horizonte dos jovens brasileiros

É um alívio indescritível. Depois da pauleira dos estudos, do estresse e desgaste das provas, saiu o resultado e estava lá o nome na lista de aprovados. Pronto, acabou o suplício e começou a fase boa. Agora é só curtir uns aninhos de faculdade, pegar o diploma e viver a vida boa de adulto bem-sucedido. Só tem um detalhe: talvez nesse processo você se torne outra pessoa.

No meio da mistura de culturas e pensamentos das universidades e faculdades brasileiras, estudantes se veem ao lado de colegas com histórias de vida completamente diferentes. Para alguns, é a primeira vez fora de uma zona de conforto de certezas e convicções indisputáveis. Somado ao período de transformação natural do final da adolescência e começo da vida adulta, o resultado dessa equação é a ampliação de horizontes durante o curso superior.

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Foi o que aconteceu com Marco Aurélio, que entrou para o curso de Jornalismo em 2010. Criado em uma família conservadora, ele sempre estudou em colégios tradicionais em São Paulo. “Na faculdade aconteceu uma ruptura total da maioria dos meus conceitos. Fui revendo muitos pontos, percebendo qual de fato era minha classe, quem defendia os interesses de quem e como se engajar em cada movimento”, conta Marco.

A mudança foi tamanha que os amigos de curso do rapaz brincavam que, depois de alguns semestres, ele havia virado o Marcos 2.0. Claro, isso não aconteceu da noite para o dia. Ainda durante o ensino médio, o jornalista trocou de colégio e passou a estudar em uma escola com um grêmio acadêmico atuante, onde diversas questões políticas eram discutidas. Mas foi na universidade que esse processo se ampliou.

“Ali que eu percebi a real dimensão da luta diária das minorias, seja os LGBT, o feminismo, o movimento negro”, diz ele, que voltou ao ensino superior e hoje está na metade da graduação em Economia. “Eu era contra cotas raciais na universidade, por exemplo, mas hoje por uma série de fatores, como dívida histórica, dificuldade de acesso e ganho social na diversidade, eu sou amplamente a favor.”

Amigos brincam que Marco virou uma versão 2.0 depois da experiência na universidade.

Para o roteirista Lucas Zacarias, por sua vez, o choque da entrada na universidade foi amplificado por coincidir com a mudança de uma cidade pequena para uma metrópole. Natural de Uberaba, no interior de Minas Gerais, Lucas estudou em Brasília e estranhou quando os novos colegas tinham um leque de hábitos de diversão mais variado que os seus.

“Eu só saía para festas em casa de amigos, não tinha nada para fazer. E de repente conheci uma galera que saía para tomar um refrigerante e comer hambúrguer, tinha um monte de opções diferentes de cinema, teatro, um monte de estímulos novos”, conta ele. Sabe aquela história de que os jovens se perdem quando entram na faculdade? Então, o contrário disso.

A maior ruptura, no entanto, foi perceber uma camada de complexidade extra nas pessoas em contraste com alguns estereótipos que trazia na bagagem. “Minha turma de escola era muito heterogênea, mas ninguém queria estudar Audiovisual. Então, quando eu cheguei na universidade e conheci meus pares, galera que queria estudar a mesma coisa, foi estranho perceber que havia perfis muito diferentes nesse grupo”, explica Lucas.

Assim como Marco, outra grande mudança na vida de Lucas foi o interesse e a participação em discussões políticas. Antes, conta ele, essa opção sequer era considerada – o padrão era espelhar comportamentos sem maiores reflexões. “Foi um processo de quebra de arrogância para humildade. Eu percebi que não sabia de nada, tinha que correr atrás de uma quantidade enorme de conhecimentos que não alcançava ainda”, diz o roteirista. “Eu aprendi a escutar.”

Escutar, aqui, é a palavra-chave. Em uma época de acirramento de discussão em torno de temas políticos e bolhas de pessoas com pensamentos semelhantes em redes sociais, o papel do ensino superior na educação social dos alunos é ainda mais importante.

Como conta Marco, é essencial aprender a debater, estar aberto ao diálogo e sacar que, às vezes, as opiniões mudam: “Antes eu era extremamente firme e fechado. Eu tinha minha posição e não mudava. Hoje eu me dou a chance de mudar de opinião se perceber que há um argumento melhor que o meu”.

Então, se você está prestes a começar a graduação, já sabe: vá de coração aberto e aproveite. Vai ser bom.

Para mais matérias sobre o ENEM, acesse o Manual do Enemzeiro.

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