
Para muitos, Shawn Brown é uma lenda do hardcore. Único. Uma voz que injetou raiva e paixão de verdade em um gênero conhecido pelos seus posers chorões e valentões. Vocalista original do Dag Nasty, ele ajudou Brian Baker a exorcizar seus demônios pós-Minor Threat antes de ser chutado da banda sem a menor cerimônia por causar problemas demais. Com Swiz, ele escreveu um livro sobre como o hardcore progressivo podia manter seu caráter agressivo e ideal enquanto ao seu redor todos começavam a pegar mais leve. Com Jesuseater, ele manteve sua verve literária e sua pegada no rock, e como tatuador influente ajudou muitas pessoas a imortalizarem seus sonhos ou arruinarem suas chances de arranjar um emprego decente. Mesmo assim, ninguém se deu ao trabalho de criar uma página da Wikipédia pra ele.
Conversei com Shawn há pouco tempo na véspera do lançamento do disco Dag with Shawn, pela Dischord Records—a primeira temporada mítica de uma das bandas de hardcore mais fomosas de Washington—, uns 25 anos depois de sua gravação original.
Vice: Então, Shawn, vamos tratar disso cronologicamente. Você cresceu em Washington ou foi morar lá para estudar?
Shawn Brown: Sou de uma cidade pequena que fica perto de Washington.
Como você se envolveu com a cena?
Bom, quando eu era moleque gostava de músicas diferentes. Eu escutava muito B-52s, um pouco de Frank Zappa, gostava muito do Cars e coisas do tipo. Não pensava neles como som punk, mas mais como new wave. Daí conheci um cara chamado Matt Ray e uma turma punk—eles tinham cabelo espetado, usavam jaquetas de motoqueiro e essas coisas. A gente se cruzava porque eu tinha uns amigos que organizavam umas festas de bairro que algumas bandas tocavam. Sabe, uma banda ia lá e tocava um cover do Black Flag… Fora isso, me apresentavam muitos discos. Um dia o Matt Ray disse, “Ei, vamos tocar lá no centro comunitário de Wheaton”, e a partir daí eu me envolvi totalmente, tipo, “Agora sou punk”.
Quantos anos você tinha nessa época?
É… Último ano do ensino médio, então eu tinha uns 17 anos.
E Ian Svenonius era do mesmo bairro?
Era, e provavelmente morava umas oito ou nove quadras de mim, então a gente se via todo dia. Ele já ia assistir os shows em Washington. Ele conhecia as bandas, sabia o que estava pegando e tal, e eu ainda estava começando a explorar. O Matt conhecia me-lhor a cena californiana. Então, enquanto o Ian me mostrava coisas como Minor Threat e Bad Brains, Matt me mostrava Fear X, Discharge e coisas assim. O Ian morava na minha área, e o Matt a uns 15 quilômetros de distância. Então, como eu e o Ian estávamos mais próximos, nos víamos mais. O Ian era o tipo do cara que falava, “Isso aqui é Washington DC”.
Você nunca tinha ido a shows?
Os maiores shows que eu já tinha ido devem ter sido do The Police e do REM quando eu estava na sétima série, e o meu primeiro show de hardcore foi o do Obsessed, Iron Cross e Government Issue!
E isso mudou tudo?
Claro, eu pensei, “Não quero fazer parte do mundo normal”. Eu não tinha pensado em entrar para uma banda nem nada, mas eu queria ser punk rocker. “A sociedade é uma merda!”, sabe?
DC era zoada na época, não é?
Era, tinha uma cena que era bem nazista. Tinha outra cena que não tinha nada disso, mas gostava de uma briga. Quando se cruzavam saía porradaria. E se a briga não era com eles, arranjavam outro pra brigar.

Então, como foi que você passou de frequentador de shows a candidato a vocalista do Dag Nasty?
Eu ia aos shows, pirava, pegava o microfone, enchia o saco. Eu conhecia o Colin Sears e ele veio falar comigo um dia: “Estamos montando uma banda e ensaiando no meu porão. Quer dar uma passada lá? Estamos atrás de um vocal”. Aí fui na casa dele, o Brian Baker estava lá com o Roger Marbury e eu pensei, “Caralho!”. Fiquei superintimidado. Às vezes a pressão pode ser uma coisa boa. Acho que foi a pressão que me ajudou. Aprendi a ser líder de banda assim, porque tem muita pressão, tenha você talento ou não..
Acho que, pra mim, a verdadeira pressão veio quando eles começaram a escrever músicas melódicas, eles queriam um vocal mais melódico e eu não conseguia fazer aquilo.
Foi por isso que você saiu?
Bom, te digo o seguinte: o Ian MacKaye me disse que o Minor Threat terminou porque o Lyle e o Brian queriam que a banda soasse mais como o U2, e o Ian não queria isso. Foi por isso que eles procuraram o Danzig e montaram o Samhain. Então, quando você pensa nisso, na diferença entre o Minor Threat e o Dag Nasty, faz muito sentido. Talvez o Brian tenha pensado, “O Shawn não é um cara capaz de ser líder de uma banda de hardcore, mas eu posso ensinar ele a cantar”.
Isso ficou claro pra você depois das gravações – tipo, “Não era bem o que queríamos”?
Foi o que senti. Como eu disse, eu tinha uns 17 anos, então eu também era imaturo. Fiquei um pouco chateado. Foi um aprendizado, e eu fiquei sinceramente agradecido pela oportunidade de tocar com aquele pessoal.
Mas foi uma separação amigável?
Eles me falaram logo que saímos do palco. E eu fiquei meio que, “porra, como assim?”.
Você já viu a carta que o Brian escreveu pro Kevin Seconds convidando ele para cantar no Dag Nasty? Está no daghouse.com.
Tive que me desligar dessa história. Deve ter muita coisa sobre o Dag Nasty que todo mundo sabia, mas que era novidade para mim.
Então, quando eles disseram que iam tentar alguém diferente, o Dave Smalley já estava na jogada?
Eu imaginei que eles já tivessem alguém em vista. Quando o Dave apareceu eu sabia quem ele era, e pensei “Cara… ele?”
É verdade que nenhuma das letras do Dave entraram naquele primeiro disco? Ouvi dizer que ele só contribuiu com uma frase..
Verdade. Algumas eram minhas, outras fiz com o Brian.
Então o Brian não escreveu todas as letras?
Não, não, não, não, não, não.
Então o Dave Smalley cantava as suas letras?
Cantava. No final das contas, a gente sabe o que fez, entende? Agora já faz 25 anos. Mas ele não escreveu aquilo, mas é só música, cara. Depois que fui descobrir quantas vezes coisas assim aconteceram na história da música.
Mude uma palavra, demande a autoria—um clássico!
Exatamente!
Dag With Shawn foi lançado pela Dischord em 25 de outubro.
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