
POR CLANCY MARTIN
ILUSTRAÇÕES POR JIM KREWSON
O romancista e memorialista Clancy Martin é um membro vital da comunidade filosófica contemporânea. Ele traduziu para o inglês duas obras de Nietzsche (Assim Falou Zaratustra, em 2006, e uma edição que será lançada em breve de Para Além do Bem e do Mal) e é catedrático do departamento de filosofia da Universidade de Missouri—Kansas City. Ele também é autor, co-autor e editor de vários volumes de filosofia. Para essa edição, pedimos a Clancy que escrevesse algumas palavras sobre o existencialismo, e o que ele é, ou foi, ou ainda é, ou deveria ser.Já que em geral é discutido pelos estudantes mais pretensiosos, aqueles que fumam cigarro de cravo e usam boina, o existencialismo se tornou um subgênero da filosofia do século XX muito mal falado e mais ainda mal compreendido. É uma pena, porque na verdade é bastante útil. Então, aqui vamos nós, resgatar o existencialismo das mãos dos diletantes e dos detratores que tanto o maltrataram.
Eu havia perdido os meus sapatos, tinha que partir imediatamente, os meus estudantes me esperavam, a minha assistente já tinha distribuído as provas, a aula começava às 9h e, vi no meu despertador, eram 9h15, agora 9h16 (os números pretos pareciam graffitis ameaçadores que faziam caretas para mim em um beco, um aviso que só se intensificava, que se multiplicava irremediavelmente, porque os minutos passavam), então me dei conta de que não eram apenas os meus sapatos, as minhas roupas haviam sumido, alguém havia levado a cama, eu não podia nem mesmo voltar para as cobertas, e ainda assim meus alunos continuavam olhando o relógio, que percebi, era o meu próprio despertador, no meu criado-mudo, na minha casa, sim, era verdade, eu estava na sala de aula, a minha assistente estava lá também, me olhando com cara feia—onde estavam as minhas roupas? E eu me considerava um professor de filosofia? Não era eu chefe do departamento? Será que tinha virado um velho caduco?—e ela não correu para me cobrir com seu casaco azul, pelo contrário, começou a rir, e os alunos logo se juntaram a ela, balançando suas provas no ar, e eu vi meu reflexo no espelho—pois repentinamente apareceu um espelho no sonho—e eu não era um professor de 43 anos de idade, era eu mesmo aos 16 ou 18, pelado e robusto, mas assustado, despreparado, não era o professor, eu estava lá para fazer a prova, e a mulher que eu achava ser minha assistente era na verdade a professora, ela havia me chamado para a frente da sala e tirado as minhas roupas para mostrar a todos como eu havia fracassado. Me sentei na cama, que estava molhada de suor.
Franz Kafka, talvez o maior existencialista do século XX, escreveu um conto chamado “Um Médico de Aldeia” (ele o considerava seu melhor conto), no intuito de expressar a conexão—frequentemente vivida por nós em sonhos—entre o nosso sentimento de inadequação e a nossa experiência cotidiana de preocupação e ansiedade. Se você nunca leu o conto (ou não o leu recentemente) deveria ler assim que possível. Vai parecer alarmante—até mesmo ameaçador—e muito, muito familiar. Jean-Paul Sartre, outro autor essencial na nossa coletânea Top Hits Existencialistas, escreveu, já no fim de sua carreira, que “nunca soube realmente o que as pessoas queriam dizer com ansiedade, pavor e todas essas coisas, era apenas a maneira que falávamos na época: eu nunca senti medo”. Isso vindo de um homem que ficava regularmente acordado a noite toda bebendo e tomando anfetamina para conseguir dar suas aulas na universidade na manhã seguinte (se tomar anfetamina a noite toda para poder dar aula na manhã seguinte de ressaca não te causa ansiedade, acho que nada causará). Mas Kierkegaard, o filósofo dinamarquês do século XIX que identificou pela primeira vez o conceito de ansiedade (e escreveu dois livros a respeito), dizia que o sentimento de estar deslocado e o tipo de pensamento circular, vertiginoso e nauseante que associamos à preocupação (e a preocupação levada ao seu extremo atinge a ansiedade e o pavor) estão conectados íntima e profundamente. Kierkegaard achava que estar completamente vivo era estar ansioso.
Há uma antiga visão de mundo que alega que os seres humanos têm um propósito específico a cumprir. Isso é encontrado na tradição judaica-cristã-islâmica: cumprimos a lei (judaísmo) aceitando o amor que é Cristo (cristianismo) ou vivendo a vida corretamente (islamismo). Em todas as três versões do que é, fundamentalmente, uma tradição única, o objetivo é atingido no pós-vida. De forma parecida, os gregos antigos achavam que os seres humanos tinham um propósito na vida. Para Platão era o autoconhecimento, para Aristóteles era aperfeiçoar a nossa condição de seres racionais: em ambos os casos, isso nos conduziria ao objetivo natural da virtude (e felicidade). Na tradição hindu, devemos completar o ciclo de reencarnação, determinado pelo carma, para que possamos nos unir ao deus supremo. No budismo, devemos tentar ver através do véu de ilusão criado pelo apego, para que evitemos o sofrimento. Propósitos, propósitos, propósitos. Você não é quem deveria ser ou está onde deveria estar, você precisa ir do ponto A ao ponto B, você está envolvido em uma batalha crucial que acontece nessa vida na terra (em geral, teimosa e sofrida) para que possa escapar dela ou, de alguma maneira, se reconciliar com ela.
Mas suponha que somos animais, como a maioria de nós acredita. Faz sentido sugerir que animais—isso é, animais não-humanos—têm um propósito distinto? No Velho Testamento eles têm, e claramente esse propósito é alimentar e trabalhar para os seres humanos. Mas a maioria de nós não acredita nessa visão hoje em dia. Realmente acreditamos que todos os cães bons irão para o céu? E os bons peixes, também? E as lesmas benevolentes? As bactérias bem comportadas? Os camundongos moralistas? Ácaros éticos? Não esperamos progresso moral de animais não-humanos—seria tolo dizer que o seu cachorro de estimação está engajado na missão de se tornar um cachorro melhor—então por que os seres humanos seriam uma exceção especial, que na verdade parece mais um fardo especial?
Friedrich Nietzsche, que, devido a um desses infelizes acidentes históricos, enlouqueceu alguns meses antes de iniciar o seu estudo de Kierkegaard, dizia que a nossa necessidade de ser algo diferente do que somos—aquela sensação, tão familiar para todos nós, de que somos inadequados, que devemos de alguma forma nos justificar, que temos um propósito não cumprido que nos trará alívio assim que realizado—é meramente a expressão da frustração de nossa inclinação de sermos crueis. De forma resumida, funciona assim: antes de nos unirmos em grandes sociedades, podíamos satisfazer a nossa inclinação de ser cruel—que é como a necessidade de fazer sexo, de comer, de ter amigos ou qualquer outra necessidade natural—expressando essa inclinação através de membros de outros grupos. Havia batalhas, “festivais de crueldade” como ele as chama, até mesmo rituais e manifestações de crueldade (pense, por exemplo, nos festivais de tortura pública e os autos-de-fé da Idade Média e da Inquisição Espanhola). Mas à medida que se torna difícil expressarmos nossa tendência e exercer a crueldade sobre os outros, a necessidade não desaparece, em vez disso, ela se volta contra si mesma e inflige dor na mente do indivíduo que tem essa tendência. Essa dor—que é chamada de consciência pesada e de culpa, e que de acordo com Nietzsche é formalizada no mito do pecado original—é a sua mente atacando a si mesma, expressando internamente a inclinação à crueldade porque não encontra expressão externa. Então, por exemplo, George W. Bush talvez tenha se divertido bastante arrancando asas de moscas e explodindo sapos com fogos de artifício quando era criança, mas então se meteu numa encrenca por isso e sua inclinação foi reprimida—apesar de ele talvez não ser o melhor exemplo, já que parece que encontrou outras formas de aliviar essa agressividade reprimida na vida adulta.
Agora começamos a nos preocupar. E não é uma preocupação qualquer, como quando me preocupo com o fato de minha conta bancária estar secando, e transfiro uma grana da poupança, e a preocupação desaparece. É aquela preocupação intensa que se transfere de uma coisa a outra—quando paro de me preocupar com dinheiro, começo a me preocupar com a minha vida amorosa, mas não, não é isso, é a minha carreira, é o meu trabalho, ainda assim, também não é isso, são os meus amigos, eles parecem me excluir… Você sabe como funciona. A mente gira. Se o giro acelera, o resultado é um sentimento de vertigem, como se você estivesse olhando para o fundo de um abismo, e o abismo fosse você. Um amigo me perguntou recentemente: “Ei, Clancy, você parece meio abatido. Aquele monólogo interior está te deixando maluco hoje?”. Então: a droga Miltown—que ficou famosa como “o pequeno ajudante da mamãe”, o apelido que os Rolling Stones lhe deram—, depois Librium, Valium, Klonopin, Ativan. E ainda os ISRSs (Inibidores Específicos da Recaptação da Serotonina): Prozac, Zoloft, Celexa, é só escolher. Cordas que nos impedem de cair no abismo, ou paraquedas que nos levam com segurança até o fundo, ou vendas que nos impedem de enxergá-lo. Não me leve a mal, não estou defendendo a infelicidade ou criticando os remédios para tratamento de depressão, na verdade, estou tentando entender se e por que a ansiedade é apenas algo a ser evitado (parece que sim, segundo a visão de Nietzsche), ou se há algo de bom nela, se nos diz algo importante a respeito de nós mesmos. Nietzsche, para ser justos, ofereceu uma saída para a dor da ansiedade: em seu último livro, a obra-prima Ecce Homo, ele nos ensina como “se tornar o que você é”. Você deve reconhecer que não tem nenhum propósito maior, você não deve ser diferente do que é, você deve aceitar até mesmo o sofrimento—na verdade, você deve aceitar toda a vida, você deve aceitar o sofrimento tanto quanto aceita o prazer, você deve aceitar o fracasso com o mesmo entusiasmo com que aceita a vitória—e então você poderá viver a melhor vida humana possível. Isso pode soar como mais um “indo do ponto A ao ponto B”—um propósito disfarçado de ausência de propósito. Mas para Nietzsche, você já é essa pessoa: você só tem que aceitar esse fato. Você não será outra pessoa amanhã. Nem deveria ser. Você é tudo que deveria ser, e isso acontece agora.
É uma ideia difícil de assimilar. Albert Camus, o melhor amigo e depois melhor inimigo de Jean-Paul Sartre, tentou explicar isso em sua discussão do mito de Sísifo. Imagine o pobre Sísifo, ele diz, condenado pelos deuses a empurrar eternamente uma rocha montanha acima—escorregando na lama e em pedregulhos, quase quebrando a coluna com o esforço, todos os seus músculos estremecendo—só para ver, quando atinge o topo, a rocha rolar montanha abaixo mais uma vez. O que Sísifo pensa enquanto desce de volta ao vale? Esse é seu propósito—mas é um propósito sem propósito, um esforço sem nenhum sentido—e ele o fará por toda a eternidade. A vida humana também é assim, diz Camus, e por anos, séculos talvez, Sísifo viverá angustiado, ele está frustrado, ele teme o momento em que a rocha rolará mais uma vez montanha abaixo. Mas no fim ele vence os deuses. Como? Ao reconhecer que não existe nada além desse esforço. Ele pode empurrar a rocha montanha acima pelos deuses ou por ele mesmo. Quando ele diz “Eu vou empurrar essa rocha”, sua ansiedade desaparece. Ele não teme a tarefa porque a escolheu. Ele não procura nenhum sentido por trás da tarefa, porque aceita o fato de que não existe um sentido. Talvez Sartre tenha atingido esse ponto, e por isso não sentia ansiedade, ou talvez ele estivesse sob o efeito de tantas drogas que nem notava (Kierkegaard achava que a pior coisa para um ser humano era deixar de vivenciar a ansiedade, porque isso significaria deixar de vivenciar a si próprio—mas acho válido se perguntar se queremos vivenciá-la).
Então o que o existencialista me diz sobre o meu sonho? Ele me diz que enquanto eu estiver me permitindo ser minha própria vítima—enquanto eu interpretar a minha preocupação como um propósito não realizado, como algo errado em mim ou na minha vida (enquanto eu for induzido, talvez Nietzsche dissesse, a ir na direção errada pela dor de meus desejos frustrados)—continuarei a ter os meus suores noturnos. A melhor maneira de dar sentido à vida é reconhecer que sou completamente responsável por ela: responsável não por alguma outra vida que eu deveria viver, mas pela vida que estou vivendo agora, em que eu escolho estar onde estou, ser o que sou, quem eu sou. “A ansiedade é a possibilidade da liberdade”, escreveu Kierkegaard em 1844, em O Conceito de Ansiedade. Para ele, a dor mental que Nietzsche identificou é um lembrete de que somos nós que estamos no banco do motorista. A ansiedade, então, não é reflexo de nossa inadequação, mas a resposta automática aos nossos esforços mal direcionados, autodestrutivos e logicamente malditos de sermos algo diferente daquilo que somos. Nos sentimos inadequados porque não temos certeza se estamos à altura da tarefa—quando a tarefa já foi realizada, sempre é realizada por cada um de nós. Então será que devo me sentar em meio a um turbilhão de preocupações? Ou tenho o que é necessário para ser livre? O que é somente outra forma de dizer: tenho o que é necessário para ser eu mesmo?
Videos by VICE
More
From VICE
-

-

The Apple Watch Ultra 3, because there aren't pics of a rumored, unreleased Ultra 4 yet. – Credit: Apple -

Bruce Willis -

Nickelodeon