Tecnología

Eu Controlei o Google Glass com Minha Mente

A autora testando o MindRDR

Interfaces que conectam nossos cérebros à máquinas já estão no mercado há algum tempo, mas elas ainda não atingiram o nível da tecnologia da ficção científica. Existem vários dispositivos que monitoram sua atividade cerebral ou te possibilitam jogar jogos simples, mas o apelo da tecnologia neural direta está no seu potencial de comunicação quase telepática entre diferentes dispositivos.

É isso que o MindRDR, um novo app que utiliza o Google Glass e um headset EGG da NeuroSky para criar uma interface simples de controle mental, oferece: você pode tirar uma foto com o poder da mente apenas se concentrando por alguns segundos.

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É um aplicativo bem limitado, mas ele funciona de um jeito simples e agradável. Eu testei o app na This Place, a empresa de Shoreditch que o projetou. Com o Google Glass e o headset EEG na cabeça, eu comecei a me concentrar e pensar em tabuadas. Conforme o meu cérebro trabalhava (como George Osborne sabe, “7 vezes 8” é uma conta particulamente difícil), uma barrinha marcava o meu progresso na tela do Google Glass. Quando a barra chegou ao topo – um processo que demorou apenas alguns segundos – o dispositivo tirou uma foto do chefe da This Place, o Ben Aldred.

Além da foto, o sistema deu os dados coletados no meu cérebro. Nível de atenção: 47, e nível de meditação: 42.

Eu pensei mais um pouco, e o app enviou a foto para o Twitter, junto com algumas estatísticas acerca da minha capacidade de foco (parece que sou tão boa em relaxar quanto sou em me concentrar). 

Esse resultado aparentemente simples é apenas um exemplo do que a interface mente-máquina pode fazer, explicou a diretora criativa da empresa, Chloe Kirton.   “Nosso objetivo é utilizar a mente para desenvolver uma interface na qual o controle está na mente, e não nos dedos”, disse.

A ideia da interface veio das limitações do Google Glass, um aparelho que ela considera “fantástico”, apesar de tudo. “Uma das limitações que notamos é que você precisa de um nível muito alto de habilidade motora e capacidade de movimentação para consigar utilizar o Google Glass”, ela disse. “É claro que ele tem um controle de voz, mas às vezes ele não é o suficiente e você acaba tendo de usar a mão para manuseá-lo, o que quer dizer que você precisa movimentar todo o seu braço.”

E apesar do que vimos no filme Minority Report, sacudir o braço de um lado pro outro é bem cansativo, sem mencionar que é algo muito difícil para pessoas com mobilidade reduzida. É aí que entra a ideia do controle mental. O MindRDR é basicamente um app para o Google Glass que transforma o registro de atividade cerebral feito pelo headset NeuroSky (conectado via Bluetooth) em uma escala. Quando essa escala atinge um ponto específico, o Google Glass tira um foto.

Não é necessário que a pessoa use os dois dispositivos ao mesmo tempo. O Aldred ficou com o Google Glass enquanto eu fiquei com o NeuroSky, e assim eu tirei uma foto de mim mesma com a força da minha mente. Não sei ao certo qual seria a função prática desse aplicativo, mas acho que você pode se divertir um pouco fingindo que está hackeando o Google Glass dos seus amigos telepaticamente.

Mas é claro que não basta mentalizar um simples  “tire uma foto” – você tem que se esforçar um pouco mais. O Kirton disse que fica mais fácil com o tempo, mas que é um pouco difícil tirar fotos com o olho fechado ou quando se está falando. O cara meio ansioso que testou o aparelho antes de mim teve o problema oposto; sua energia desorientada fez o app tirar uma foto sem que ele quisesse.

O aparelho tem outras desvantagens. Primeiramente, o desconforto – e o desastre fashion – de se usar dois dispositivos na sua cara. Felizmente, a parte mais volumosa do Google Glass fica do lado oposto do trombolho do NeuroSky, e dá pra firmar os dois atrás das orelhas com um pouquinho de esperteza. Mas eu não gostaria de sair assim em público.

Existem também os problemas típicos do Google Glass: quando eu testei o app, o aparelho estava com pouca bateria e começou a superaquecer. O Aldred teve que colocá-lo embaixo do ar-condicionado até que ele se sentisse pronto para funcionar.

Quando a coisa engrenou, eu ainda tive que passar por todo o processo de controle de voz até conseguir abrir o app. Mas o projeto ainda é um avanço intrigante no caminho da criação de um dispositivo de controle neural direto; as possibilidades são infinitas. 

Chloe Kirton, diretora criativa da This Place, usando o aparelho.

“O que faremos depois? Não temos certeza. Podemos seguir por milhões de caminhos diferentes”, disse Kirton. Além de ser um jeito divertido de se brincar de Jedi, uma interface controlada pela mente tem óbvias aplicações no campo médico. A empresa está em negociação com várias organizações relacionadas à pessoas com deficiências físicas e transtornos cerebrais, público que pode ser beneficiado por esse tipo de tecnologia. Eles me disseram que o Stephen Hawking, que sofre de distrofia neuromuscular, se interessou no dispositivo.

O app está atualmente disponível em código aberto no GitHub, e espera-se que a tecnologia seja expandida conforme as pessoas a utilizarem. Porém os usuários precisarão investir num Google Glass e em um headset NeuroSky se quiserem testar o app. 

Eu saí do This Place curiosa acerca do futuro dessa e de outras interfaces que utilizam a tecnologia neural. Tirar e compartilhar uma foto com a mente é apenas uma experiência simpática; o desafio é criar um dispositivo que faça tudo que um dispositivo similar faria, mas cujo controle seja exclusivamente mental. E de preferência com menos plástico em volta da sua testa.

Nós já compartilhamos um pouco do nosso material biológico com nossos aparelhos; logo também estaremos compartilhando um pouco dos nossos aspectos neurológicos.

Tradução: Ananda Pieratti

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