A música de Gui Boratto varia bastante, de tons bem coloridos como em “Beautiful Life” a pedradas techno obscuras como “The Drill”, mas sua música sempre conserva uma preocupação Borattesca com a melodia. Ele não está interessado no que há de padrão no techno – a narrativa e a emoção são essenciais, mas manifestas através da melodia.
Boratto acabou de lançar seu novo disco Abaporu através do selo alemão Kompakt. E ele mesmo afirma que é seu melhor disco até aqui. O THUMP bateu um papo com ele sobre arquitetura, matemática, a diferença entre DJs e produtores, e também sua transformação de patinho feio do techno para o lindo cisne do emo house.
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THUMP: Sua carreira na música começou ao tocar em bandas da sua região. Como você entrou nessa de música eletrônica?
Gui Boratto: Comecei a tocar guitarra e piano com oito ou nove anos de idade. Quando completei 14 anos, fiquei entediado com o rock’n’roll comum. Comecei a ouvir bandas que flertavam com sintetizadores e então comecei a mexer nisso também. Como eu sabia tocar piano, já estava acostumado com as teclas. Não foi nada difícil adicionar sintetizadores e samples ao que já tocava com minha banda na época. Com o passar do tempo, fui ainda mais fundo na música eletrônica, então foi um processo natural. Não é como se tivesse rolado um momento específico em que eu decidi que tocaria techno. Não sou produtor de techno. Meio que fico flutuando entre diferentes subgêneros. Em momentos sou mais industrial e techno, em outros mais house ou mesmo progressivo.
Então você é pau pra toda obra. Soube que você é formado em arquitetura e planejamento urbano. Como isso influencia seu trabalho como músico?
Todos meus amigos na faculdade tocavam em bandas ou faziam música. Música e arquitetura são muito similares. Ambas atividades lidam com espaços, estrutura e ritmo. É só um jeito diferente de se expressar a arte. A música foi minha primeira paixão, e a arquitetura a segunda. No Brasil, é difícil seguir carreira na música. Por isso usei a arquitetura como plano B, e por isso trabalhei na prefeitura por dois anos. Mas já fazia jingles e trilha para comerciais naquela época, além de produção pra minha banda. No fim das contas, fiquei com minha paixão maior: a música.
Agora tenho outro sonho: construir uma casa do zero. Porém, pra mim, as duas áreas são uma só. Gosto de desenhar e de fazer música, música e arquitetura são muito semelhantes. É tudo matemática. A matemática pode ser muito poética e bela. E a música é feita de número também, eis a ligação.
Seu terceiro disco era bem mais obscuro que os anteriores. Abaporu, por sua vez, soa mais feliz novamente. Você concorda com isso e haveria uma razão para III ter soado mais obscuro que os outros?
O terceiro álbum foi minha fase rock’n’roll. Eu não estava lá muito feliz quando o gravei. Mas gosto de climas diferentes. O bacana de se fazer um disco é que você pode lidar com diferentes emoções. Você pode experimentar alternativas, brincar com diferentes elementos. Você pode ir à praia, à floresta, ao rio – tudo em uma única hora. Ao fazer um single, você só tem alguns minutos para passar adiante sua mensagem. Meu terceiro disco é o meu favorito, por ser muito mais complexo que Chromophobia ou Take My Breath Away. Em termos de composição e também de técnica e produção, talvez seja meu álbum mais completo. Sei que ele é obscuro e introspectivo, mas também muito forte. Tudo aconteceu muito naturalmente, mas não teria dado certo se fosse meu primeiro disco. Isso porque eu já tinha muitos fãs quando ele saiu, o que permitiu a muitas pessoas verem esse outro lado do Gui. Me levou sete anos para entrar no mesmo clima que estava em 2006, quando fiz o Chromophobia. Aquele disco foi bem mais fácil de se fazer, mas soava muito ingênuo.

“Acho Abaporu é meu melhor disco. ” – Gui Boratto
Por quê?
Eu era meio que o patinho feio do techno na época, por isso soava diferente. Eu não tocava nas boates, não fazia nada. Era um nerd de estúdio, um nerd que não fazia parte da cena noturna de forma alguma. Apesar de que talvez tenha sido isso que tenha me diferenciado dos outros, e que causou uma reação nas pessoas. Minha música evoluiu com o tempo, e então III foi lançado em 2011. É um álbum estranho por ser obscuro, mas com muita energia.
Teria feito mais sentido se a Chanel houvesse escolhido uma faixa do Avicii ou David Guetta para o seu desfile, mas escolheram músicas de um disco meu no lugar.
Você pode ouvir meus discos em diferentes momentos do dia e em locais diferentes. Por isso gosto de tocar em festivais indie ou pop, onde você não compartilha o palco só com outros DJs mas também com bandas pop e rock. É ótimo ter um público e álbum variados. Gosto de quando um disco é criativo, quando um produtor investe em estruturas e composições diferentes que podem te deixar feliz ou triste. Nada de techno chato, disso eu não gosto.
Você poderia nos explicar o porquê do nome Abaporu? É uma referência a um quadro de Tarsila do Amaral, certo?
Abaporu significa ‘o homem que come carne humana’ – canibalismo, essencialmente. No meu caso, não é bem o lance do canibalismo e sim devorar diferentes influências. Assim como Tarsila fazia referência a diversas influências europeias que a ajudaram a desenvolver seus conceitos 90 anos atrás. Eu também coletava influências e impressões, já que viajava tanto e ouvia música do mundo inteiro. Por isso Abaporu.
Ao mesmo tempo foi uma grande oportunidade de homenagear uma de nossas artistas mais importantes. A foto da capa é uma referência à Tarsila também. É uma versão atualizada do Abaporu original. Você sabe, nós sempre estamos captando influências. Ao viajar para outro país e ver coisas diferentes isso muda como você vê o mundo e a si mesmo.
Há elementos específicos de cultura brasileira que você usa em sua música?
Temos muitos gêneros diferentes no Brasil. No norte, as pessoas escutam muita música de carnaval, e no sul gostam mais de eletrônica, enquanto no meio é só sertanejo. Além disso temos a história com a bossa nova, meu gênero favorito, e provavelmente o gênero mais influente na música e cultura do Brasil. Mas também há influências dos anos 80 em minha música. Get The Party Started foi inspirada pela banda Imagination.

Seu maior hit, Beautiful Life, tinha vocais. Quão importantes são as vozes pra você?
Os vocais podem, como qualquer outro instrumento, arruinar ou deixar ainda melhor uma melodia. A melodia é mais importante que a letra pra mim, porque a melodia tem o poder de te deixar feliz ou triste sem motivo específico, só por conta das notas. As pessoas gostam de vocais, mas não é algo que eu ache essencial. Geralmente tenho uma ou duas músicas com vocais por disco. Mas acho que por conta do meu histórico pop, mesmo as minhas faixas instrumentais têm uma estrutura pop.
Você acha que seu novo disco será tão bem-sucedido quanto Chromophobia?
Acho que Abaporu é meu melhor álbum. Michael Mayer me disse o mesmo um dia desses. Tudo combina: a capa, o conteúdo. Acho que vai dar tudo certo. Tem tanto amor nesse disco. As pessoas sentem isso, quando há muito amor envolvido, quando você é sincero e não tenta imitar os outros.
Abaporu já está disponível no iTunes.
Gui Boratto nas redes:
facebook.com/guiboratto
twitter.com/guiborattomusic
soundcloud.com/gui-boratto
Tradução: Thiago “Índio” Silva
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