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Fazer Bebês no Espaço Pode Ser Uma Péssima Ideia

Esta é a segunda parte ​de uma série de três matérias sobre questões de sexo e gênero no espaço.

Com entidades públicas e privadas batalhando para levar os humanos até asteróides, Marte e até mesmo Vênus, as longas viagens espaciais tem se tornado cada vez mais excitantes. Exceto que, até o momento, o espaço sideral não presenciou muitas safadezas. Isso é um problema: antes que os colonos de Marte comecem a pensar em estender a raça humana a outros planetas do sistema solar, os cientistas e astronautas precisam estudar não apenas a sanidade física e psicológica desses desbravadores, mas também a possibilidade do coito e da reprodução na atmosfera terrestre. Por enquanto, a perspectiva não é muito agradável.

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“O espaço é um ambiente muito perigoso, e as pessoas não aceitam isso”, disse Paul Root Wolpe, diretor do Centro de Ética da Universidade Emory e bioético sênior da NASA. “Não é um lugar ideal para ter um filho, e até onde sabemos, tampouco um lugar ideal para ficar grávida.”

A humanidade já mandou ratos, lagartixas, ouriços-do-mar e pássaros (mas nunca abelhas) para o espaço, a fim de estudar os efeitos da microgravidade no desenvolvimento embriônico e fetal dessas espécies, e os resultados não foram nada promissores. Apesar da reprodução ter sido um sucesso na maior parte dos casos, a taxa de mortalidade e as anomalias entre as crias dos bichinhos sugerem que o espaço pode não ser o local ideal para engravidar.

A ideia de procriar no espaço tende a parecer cruel, antiética e terrível. É de conhecimento comum que a microgravidade tem uma série de efeitos adversos na fisiologia humana, como a deterioração do tecido muscular e da ossatura. Somado ao ambiente estressante de uma nave ou colônia espacial, essas influências no desenvolvimento fetal e infantil poderiam resultar em anomalias físicas e deficiências cognitivas entre os futuros extraterrestres.

O risco de gravidez no espaço não existe apenas no campo das ideias: entre 1989 e 2006, sete mulheres ficaram grávidas no centro de pesquisa do território antártico australiano, um local isolado que é utilizado para simular o ambiente espacial. Esse número é impressionante, e sugere que ambientes perigosos não são o suficiente para abaixar a libido de seus habitantes. A NASA já leva isso em consideração.

Viajar para o espaço enquanto grávida é terminantemente proibido pela agência espacial, tanto que as astronautas fazem um teste de gravidez de rotina 10 dias antes da missão. Uma vez no espaço, muitas mulheres continuam a usar os contraceptivos que tomavam na Terra, mas por razões diferentes.

“Parte da da recomendação [de tomar anticoncepcionais no espaço] tem origem prática, da mesma forma que atletas profissionais tomam anticoncepcionais ininterruptamente para evitar a menstruação”, disse Marjorie Jenkins, uma conselheira da NASA que ocupa o cargo de Especialista Científica do Instituto de Saúde Feminina Laura W. Bush. “Como não temos estudos sobre o ciclo menstrual no espaço, tanto durante longos quanto curtos períodos, não é razoável concluir que a viagem espacial serviria como um contraceptivo natural.”

Além das dificuldade de dar a luz no espaço, a gravidez extraterrestre levanta algumas questões morais incômodas. Os astronautas que viajam com a NASA não são apenas empregados do governo, mas também cobaias humanas. Isso significa que eles são protegidos pela “Lei Comum”, a seção do Código de Regulamentação Federal que define as experiências a quais cobais humanas podem ser submetidas. A Lei Comum tem uma cláusula específica sobre a a legitimidade de conduzir experiências científicas em mulheres grávidas ou fetos, que se resume a determinar se a mulher ou o feto serão beneficiados com a pesquisa e se o risco a qual eles estarão sujeitos ultrapassa o nível mínimo.

Longos períodos no espaço — e a exposição prolongada à radiação a eles associada — também podem danificar os órgãos reprodutivos dos humanos. Embora alguns meses no espaço não alterem a fertilidade dos astronautas, muitos temem que, caso esse período seja aumentado para alguns anos, a radioatividade possa causar grandes danos aos órgãos reprodutores dos astronautas.

Os astronautas que passam seis meses na Estação Espacial Internacional são expostos a uma radiação quase 40 vezes maior do que a radiação que receberiam em um ano na Terra; em uma jornada de seis meses até Marte, esses astronautas seriam expostos a uma radiação 15 vezes maior do que o aceitável para um funcionário de uma usina nuclear.

Graham Scott, vice-presidente e Cientista Chefe do Instituto de Pesquisa Biomédica Espacial, afirma que “homens e mulheres podem se adaptar ao espaço”, embora ele admita que as mulheres participam de apenas metade das missões empreendidas por seus companheiros devido ao efeito da radiação no corpo feminino, em especial nos ovários.

Apesar dos resultados iniciais nada promissores, os cientistas que estudam esse tema não pensam em desistir. “Se quisermos as pessoas decidirem morar em outros planetas pelo resto de suas vidas, é lógico que elas vão querer formar família por lá”, disse Wolpe. “Esta é uma questão metodológica muito interessante: como nós determinamos o tipo de impacto que os ambientes com pouca gravidade podem ter na gestação ou na criação de crianças.”

Embora os estudos tenham revelado os riscos da reprodução no espaço, outro estudo indica que a longa exposição à hipogravidade — uma força gravitacional mais fraca — não afeta a habilidade de procriar fora da Terra.

“Um número significante de astronautas engravidaram com sucesso após voltar de missões espaciais“, disse Scott. “As pessoas se preocupam com o que a radiação pode fazer com os óvulos ou o esperma, mas é completamente possível engravidar depois de uma temporada no espaço.” No entanto, ele acrescenta que a NASA começou a oferecer para os seus funcionários a opção de congelar seus óvulos ou esperma, “então nós não sabemos se essas crianças são frutos de fertilizações ou de uma gravidez natural”.

Endogamia no Espaço Sideral

Apesar da certeza de que os colonos espaciais irão querer formar famílias, eles terão que ficar atentos a seus hábitos reprodutivos se quiserem evitar uma ameaça muito real ao sucesso da colônia: a consanguinidade, ou endogamia.

A diversidade genética é essencial para a saúde de uma população — o senso comum defende que quanto maior a comunidade, maior a diversidade genética entre a população. Sabe-se que, em grupos pequenos e isolados, a reprodução entre parentes é responsável pela baixa diversidade genética de uma população, tornando-a muito mais suscetível a doenças com rara incidência em populações com maior diversidade genética.

Se o objetivo for manter a maior diversidade genética possível e assim garantir a sobrevivência da população pelos próximos séculos, quantas pessoas são necessárias para popular, de forma eficiente, outro planeta?

Em 2002, o antropólogo John Moore calculou que, para manter uma população estável e minimizar os riscos associados à consanguinidade, a colônia deveria abrigar aproximadamente 160 pessoas sem laços sanguíneos, garantindo assim uma boa diversidade genética durante um período de 200 anos. Um cálculo mais recente, efetuado por Cameron Smith, um antropólogo da Universidade de Portland, sugere que o cálculo de Moore está completamente errado.

De acordo com Smith, se o objetivo for manter uma variação genética total durante um período de 300 anos, a população ideal teria entre 10 mil e 40 mil habitantes. Quando essa população chega aos 500 indivíduos, a variação genética cai para 50%. Com 150 pessoas, a variação genética nos próximo 300 anos chegaria a aproximadamente 20%. Se alguma doença afligisse essa pequena população, a falta de diversidade genética poderia dizimar esses futuros marcianos, o que indica que os primeiros colonos deverão se abster do rala-e-rola até a chegada de outros terráqueos — pelo menos 10.000 deles, mais exatamente.

A simulação de diversidade genética de Cameron Smith vs. a população inicial

É claro que 100% de variedade genética é um número hipotético, mas o que realmente importa é que, atualmente, não temos condições de transportar dezenas de milhares de pessoas para outros planetas e luas.

No momento, nosso sonho de explorar o universo é muito maior do que o conhecimento necessário para torná-lo realidade, especialmente quando o assunto é sexo e reprodução. O pouco que sabemos sobre reprodução no espaço sugere que essa não é uma boa ideia. Mas como a história da humanidade teima em mostrar, o mero fato de algo ser uma péssima ideia nunca impediu ninguém de seguir em frente. E isso parece ser ainda mais correto quando há sexo envolvido.

Enquanto a tecnologia e a indústria farmacêutica não derem um salto, parece que os futuros viajantes espaciais e os colonos de Marte irão depender de uma técnica tão familiar aos astronautas da Terra quanto aos astronautas da Estação Espacial Internacional: a masturbação.

No entanto, esperar que os futuros marcianos se limitem à masturbação é ingenuidade. A natureza humana (e animal) indica que os humanos se rendem, eventualmente, à suas vontades mais primitivas. Isso não é um bom presságio para as sociedades extraterrestres do futuro, uma vez que as relações sexuais consumidas no espaço poderão dar luz à uma geração de crianças com dificuldades físicas e mentais.

Ainda existem muitos testes a serem feitos na área da reprodução no espaço. Mas por enquanto, é seguro dizer que lugar de bebê é na Terra.

Tradução: Ananda Pieratti

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