Em 2010, Jade Cantwell passou vários meses viajando por Síria, Líbano, Israel e Egito com uma amiga. Meses antes da Primavera Árabe, elas fizeram aulas de língua árabe e tentaram imergir na política e cultura locais tanto quanto duas mulheres ocidentais poderiam. Foi uma viagem calma e pacífica para a fotógrafa australiana, que documentou o cotidiano das pessoas que encontrou.
Depois que ela voltou para casa, a área entrou em erupção e tem sido volátil desde então. As fotografias acabaram se tornando a série Peace Times. Com o novo contexto que a retrospectiva fornece, as fotos tranquilas ganham um novo significado. São lembretes das pessoas por trás das notícias, e de um tempo antes da área ser sitiada por instabilidade e violência.
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VICE: Essa série foi fotografada no Oriente Médio em 2010 e mostra a vida calma das pessoas locais. Você sentiu alguma tensão quando esteve lá?
Jade Cantwell: É difícil dizer. É difícil julgar as coisas num ambiente que é tão diferente do qual você está acostumada. Sentimos tensões no Egito, definitivamente. Nos sentíamos menos seguras lá. Eles tinham tido alguns incidentes, ataques a estrangeiros. Mas em outros momentos, principalmente na Síria, nos sentimos realmente seguras – ou pelo menos tudo parecia normal.
Essa é a sensação que você tem pelas fotos, além quão reconfortante o mundano pode ser.
Sim, isso é sobre a vida que as pessoas levavam lá, em contraste com o que pensamos que a região é. Tudo que vemos é sobre instabilidade: guerra, ataques e violência – é uma imagem muito diferente do que as pessoas estavam vivendo. Claro, a imagem é diferente agora, mas o interessante era o silêncio e a beleza das áreas que visitamos. As pessoas só estavam tentando viver suas vidas.
Você tinha uma série em mente quando fez essas fotos? Ou isso só ganhou um significado depois que a violência começou?
Isso ganhou um significado depois. Quando fotografo, fotografo o que gosto, as coisas que vejo, as áreas que estou visitando, e tento capturar a sensação do lugar. As coisas se juntaram depois, porque as imagens dos meses seguintes foram de muita violência. Pensei em todas as fotografias que vemos da área, e há muitos fotógrafos que se sentem atraídos para documentar lugares destruídos pela guerra. Eles fazem essas imagens incrivelmente poderosas, mas elas são de violência e tristeza. Acho que isso pode te dessensibilizar e te fazer perder de vista o dia-a-dia das pessoas da região.
Muitos jovens fotógrafos ocidentais são atraídos por essas áreas. Quando estava lá, você tinha consciência de não cair na armadilha do turismo cultural?
Ah, com certeza. Sou formada em comunicação, então penso muito sobre o que estou tentando dizer e na relação que tenho com o tema. De certa maneira, isso tira um pouco do prazer de fotografar. Às vezes imagino se não estou pensando demais nisso. Você não quer fazer as coisas parecerem exóticas. Elas são para você, óbvio, mas você não quer tirar algo de alguém.
Isso afeta o que você decide fotografar?
Sim, é como quando você vê pessoas tirando fotos de um sem-teto na rua, e elas acham que isso é muito visceral e inovador; pode não haver muita consideração a o que você está reduzindo a vida daquela pessoa.
Exatamente, isso não é só em relação a fotografar zonas de conflito.
É algo que você vê muito com a saturação que temos de imagens. Há muita gente escolhendo fotografia, fotografando o tempo todo e tentando colocar seu trabalho no mundo. Acho que, muitas vezes, as pessoas vão atrás de algo que acham que é de alto impacto, e às vezes isso faz tudo parecer a mesma coisa.
Texto por Wendy Syfret. Siga-a no Twitter.
Tradução: Marina Schnoor
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