De malas feitas e câmera na mão, Raphael Tognini largou a vida na cidade de São Paulo e o emprego que tinha na VICE Brasil para morar no Guarujá, sua terra natal, e se dedicar inteiramente aos assuntos da família. Filho de shaper (aquele profissional que projeta e esculpe pranchas) e de mãe jornalista de surf (uma das primeiras do país, diga-se), o fotógrafo vem fazendo registros incríveis dentro e fora d’água desde que aportou no litoral e ali decidiu ficar.
Não é de se estranhar que ele tenha trocado as nuvens de gás lacrimogêneo que respiramos intensamente durante as Jornadas de Junho, em 2013, pela brisa do mar e o cheirinho de peixe frito exalando dos quiosques. Enquanto sua parceira de trampo, posso afirmar com um pouco de tristeza que perdemos um grande fotógrafo aqui na redação, mas os surfistas e as ondas ganharam o olhar afiadíssimo de um cara extremamente sangue bom, talentoso e dedicado.
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“Meu berço ficava no meio da fábrica da família, onde lixavam as pranchas”, relembra. Com a mãe sempre escrevendo para revistas de surf, a casa dos Togninis recebia profissionais da imagem o tempo todo. Dali para a curiosidade de meter o olho num viewfinder (aquele visor que o fotógrafo encaixa um dos olhos) foi um pulo. “Um dia eu ganhei uma câmera descartável e fotografei tudo, da rotina da fábrica até a merda do cachorro no quintal”, brinca.
Travadão durante a adolescência, Raphael pensou em ser jornalista, mas viu que a dificuldade em se expressar com palavras atrapalharia esse percurso. Até perceber que, com as imagens, a coisa fluía de maneira mais orgânica. Começou, então, a fotografar surfistas. E nunca mais parou. Faz isso há pelo menos 15 anos.

Com uma caixa estanque para proteger o equipamento e pé de pato, ele se entrega às aguas do mar. Apesar de prazeroso, o ofício não é dos mais simples. O surfista se mexe, assim como a onda, a correnteza e os outros surfistas. É preciso um pouco de malemolência para não cair no clique morto de uma manobra qualquer. “Quando estou fotografando, sinto que estou surfando também.”
A real é que meu ex-colega de trabalho é movido a aventura. Pergunto se ele se recorda do primeiro ato do Movimento Passe Livre em 2013, onde corremos feito uns doidos da polícia, que atacou fortemente manifestantes e imprensa. “Lembro da galera na linha de frente, do nada, gritando ‘Vamos invadir a Avenida 23 de Maio’ e, minutos depois, a parada já pegando fogo e bala de borracha voando. Foi foda.”

Ao lado da parceira de vida e jornalista Carol Bridi, Tognini toca o canal independente Flamboiar desde 2015. “Gosto de mostrar o universo do surf como um todo, não apenas a ação na água. Acho que existem poucas atividades tão completas e complexas. É uma descarga mental, é um esporte, é um estilo de vida, vai muito além do estereótipo de bobão de praia que o povo da cidade grande enfiou goela abaixo de todo mundo”, dispara.
Além do tesão pelo esporte, contribuir para manter a essência marginal e de contracultura do surf acesa mantém meu caro amigo Rapha a mil na profissão. “Sou ainda aquele pivete com a câmera descartável tirando foto da merda do cachorro. Retratar o surf é retratar a minha vida.”
Veja mais uns cliques monstros do Raphael Tognini abaixo e siga ele no Instagram.










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