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Muhammad Juma al-Shoshni (vestido de ganga), o homem que afirma ter morto Mutassim, um dos filhos de Khadafi.
Tudo isto estava a ser altamente, mas o que eu queria mesmo era o Ahmed. Queria filmá-lo. O meu motorista estava a conversar com ele em árabe. Dizia-lhe “Deus é grande” em alguns momentos propícios e traduzia-me pedaços da conversa. “Sabes quais foram as últimas palavras do Khadafi? Ele disse: ‘Isso é proibido, sou teu pai’. E o gajo disparou!” Riu-se, satisfeito. Mas, sempre que lhe perguntava se o Ahmed se deixaria ser filmado, ele abanava a cabeça, chateado. O Muhammad piscou-me o olho e sussurrou que conseguiria arranjar isso. “O Ahmed é um gajo fixe, mas um pouco louco. Não te preocupes, vou tratar disso. Diz-me só uma coisa: quanto custa um iPad no teu país?”
No dia seguinte, o Muhammad chamou-me a um canto do lobby do hotel. “Vais conseguir a tua reportagem.” Ele foi para o quarto para convencer o Ahmed, enquanto o cameraman arrumava o tripé a um canto da sala. Alguns minutos depois, as portas do elevador abriram-se e o Ahmed saiu, com a sua Kalashnikov em punho, como um Scarface vesgo e líbio. Veio na minha direcção e espetou-me a arma no peito. Os recepcionistas do hotel baixaram-se atrás do balcão. Muhammad saiu do elevador atrás dele, branco, a olhar para o chão. Os segundos que se seguiram passaram muito devagar. “Não matei aquele nojento por dinheiro”, afirmou, calmamente, Ahmed. “Matei-o por Deus e pela Líbia, entendes?” Eu tinha percebido. A voz dele estava embargada. “Vou matar o primeiro otário que me tentar pagar por isso. Vou matar esse gajo com isto”. Desculpei-me pelo aparente mal-entendido. “Foi um engano”, disse suavemente. “Pergunta ao Muhammad.” O Muhammad continuou a olhar, constrangido, para o chão. Ahmed baixou a arma e o pessoal do hotel levantou-se de atrás do balcão. E todos nós acabámos sentados a tomar chá, a beber sumo e a fumar cigarros. Uma hora depois, quando eles se foram embora, regressei ao meu quarto e vomitei.
Ahmed Ali Muhammad al-Swayib, o líbio que afirma ter morto o Khadafi.
Durante o chá, o Ahmed começou a chorar e desculpou-se por me ter ameaçado. “Por vezes, fico muito emotivo. Está tudo a ser muito difícil. Nem sempre me consigo controlar.” Garanti-lhe que entendia como ele se sentia e que não precisava de se desculpar. Eu estava em Londres quando o Khadafi foi morto e, sempre que os comentadores se horrorizavam com a brutalidade do assassínio, eu só encolhia os ombros. Quem quer que tivesse feito isso, imaginava eu, era, provavelmente, um puto qualquer de Misrata que sofria de stress pós-traumático depois de ter ido para a guerra sem qualquer tipo de treino. Alguém que viu a sua cidade a ser destruída, alguém que viu a sua família a pôr-se a monte, alguém que viu os seus melhores amigos serem mortos à sua frente. Era um final líbio para uma história líbia, com uma justiça final brutal e, muito certamente, merecida.
Mas a verdade, se é que a história do Ahmed pode ser assim considerada, era ligeiramente diferente. O Ahmed tinha o dobro da idade da maioria dos combatentes de Misrata, era um indeciso antes da guerra e tinha fama, mesmo entre os seus camaradas, de sofrer mudanças de humor perigosas. Talvez tenha morto o Khadafi, talvez não. As pessoas acreditavam que sim. Julgavam que ele estava no lugar certo à hora certa, com aquelas armas raras dos guarda-costas do ditador para o provar. Eu tinha sofrido (na primeira pessoa) a raiva repentina e o choro, igualmente inesperado, deste herói improvável. Mas, se tivesse de apostar em alguém que conseguiria disparar contra um prisioneiro desarmado, apostaria no Ahmed.
No dia em que saiu do hotel, ele chamou-me à parte e disse, baixinho, ao meu ouvido: “Não confies no Muhammad. Ele é um mentiroso. Ele não matou o Mutassim, só quer dinheiro. Só eu é que sou o assassino.” Parecia dizer-me isto mais com tristeza do que com orgulho.
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