A seleção brasileira de futebol foi a campo nesta terça-feira tal qual um paciente visita o analista depois de um grande trauma. Foi o dia de encarar o passado, falar das mágoas de outrora, superar aquela sombra que acompanha a camisa amarela desde 8 de julho de 2014: o dia do 7 x 1, um dos mais esquisitos deste tão maltratado país.
Talvez você tenha assistido ao jogo com aquele medinho, talvez tenha torcido para um 14 x 1 ou talvez até estivesse esperando uma derrota brasileira para curtir o frete grátis prometido pela Läjä Records. A certeza é que você viu que, aos trancos e rebotes, conseguimos superar o fantasma do futebol alemão: ganhamos por 1 a 0 no maior estilo Tite, com gol esquemático, zaga segura e sem grandes sustos. Deu até pra perder uns gols com Paulinho.
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É leviano falarmos que o choque foi superado, já que ainda podemos ouvir os gritos melancólicos de “Gol da Alemanha” de Galvão em nossas mentes. Ainda temos muito a superar. Era apenas um amistoso com grandes desfalques para os alemães (Neuer, Ozil e Muller) e, convenhamos, com apetite apenas para nosso lado. Queríamos, inflamados pela imprensa nacional e pelo nosso inerente revanchismo, vingança a todo custo.
Mais do que o sabor de comer em prato frio, porém, foi ver que temos um cara para nos guiar numa eventual ausência de Neymar. A magra vitória de hoje foi um sinal de que nosso protagonista não será o camisa 10, e sim o 9, nosso menino Jesus.
Ver Gabriel Jesus, cria do Jardim Peri, na Zona Norte de São Paulo, meter gol contra os alemães, em Berlim, foi bom demais. Hoje aos 37 minutos do primeira etapa (tempo em que no 7 x 1 já estava 5 x 0 para a Alemanha), ele meteu a cabeça na bola e fez um gol chorado que mostrou toda sua disposição tática: objetividade, posicionabilidade, oportunidade e cabeçabilidade.
Jesus, que nasceu depois do tetra e que há quatro anos estava pintando sua rua de verde e amarelo com a camisa do time da quebrada, o moleque low profile que fala pouco, que tem tatuado no peito um trecho de “A Vida é Desafio” dos Racionais MC’s e que nas férias chama a bike no grau de quebradinha talvez seja a nossa maior esperança de hexa.

Ele ainda perdeu, aos 22 minutos do segundo tempo, um gol de cabeça sozinho. Mas fez o que era preciso. Meteu caixa e, na saída do jogo, afirmou: “Hoje eu não estava muito bem na questão técnica, mas troquei a técnica pela raça”. Se esse cara não for seu ídolo, não sabemos quem será.
Ainda não sabemos se o Tite (que fala igual ao Padre Marcelo) será o técnico do hexa, nem se o Joachim Löw, aquele que passa a mão na bunda e cheira a toda hora, levará a Alemanha ao penta, mas sabemos que você continuará dando aquela encurtada no braço no trabalho durante toda a Copa do Mundo. Fica de boa, a gente vai fazer o mesmo.
Vai, Jesus. Vai, Peri.
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