Iain Banks



Iain Banks é um escocês beligerante cujo lugar na ordem das coisas literárias do final do século XX é totalmente único. Num mundo de publicações que gosta de restringir escritores a um gênero ou outro, Banks forjou uma carreira tão aplaudida como escritor de ficção científica (que ele escreve como Iain M. Banks) quanto com livros que não têm robôs e naves espaciais (que ele escreve como o bom e velho Iain Banks).

Seu primeiro romance, The Wasp Factory, apareceu em 1984, e assim como os primeiros trabalhos de Martin Amis meia década antes, definiu a ficção britânica de seu tempo. A estreia de Banks também estabeleceu muitas das marcas temáticas e formais que continuariam a ser encontradas em sua escrita. Ou seja, um narrador não muito confiável, uma obsessão tanto com o futuro quanto com a morte, muita violência e bebedeira. Adicione aí uma preocupação com controle, uma crueldade emocional e sexual, e você tem um Banks excelente. O final de The Wasp Factory é bom demais para a gente contar aqui e estragar a sua diversão, mas ele faz o final do filme japonês Audition parecer tão chocante quanto um episódio de Barney e Seus Amigos. Não foi rotulado como “o equivalente lúgubre de um video nasty” peloSunday Express à toa.

Em 1987, o primeiro livro de ficção científica de Banks, Consider Phlebas, salvou o gênero das mãos pegajosas de tipos que frequentam convenções de Jornada nas Estrelas e choramingam sobre como David Lynch arruinou Duna (o que, aliás, ele não fez). A incursão inicial de Banks na ficção científica apresentou uma sociedade do futuro em uma cidade imaginária pós-carro chamada Culture, cujos habitantes são cuidados por seres artificialmente inteligentes conhecidos como Minds. Apesar de um monte de IAs sabe-tudo e todo-poderosos dirigindo o espetáculo, esse futuro é perturbado o suficiente para lidar com guerra, o uso de tortura e integração com sociedades estrangeiras. Tudo bem aplicável ao nosso presente, fevereiro de 2010. 

E falando do presente, 13 romances do Iain (só um traduzido no Brasil) e 11 romances do Iain M. depois, seu mais recente trabalho, Transition, é o primeiro a casar seus dois gêneros em uma só capa. Muito legal para fãs de Banks como a gente. 

PS: Se você não leu Raw Spirit, seu elogio desvairado à indústria de uísque da sua Escócia natal, coloque-o no topo da sua fila, por favor. É ótimo. 

Vice: Vamos começar pelo seu último romance. Transition não tem “M” na capa, mas contém elementos que o arremessam no território sci-fi. O “M” se foi para sempre para abrir espaço para uma sinergia entre seus trabalhos de ficção e ficção científica?
Iain Banks: 
Não, o “M” volta ainda esse ano, firme na capa do meu novo romance da série Culture. Quer dizer, volta a menos que eu, ou meus editores, decidamos de repente que ele realmente deva ser abandonado. Tendo, com Transition, publicado o que certamente poderia ser um romance de ficção científica sem o “M,” seria mais fácil agora dar esse salto. Sou bem otimista em relação à coisa toda—não me incomodaria. Quanto ao Transition representar o futuro do meu trabalho, não. Depois desse, é de volta à Culture, naves espaciais espaçosas de um jeito improvável, androides sarcásticos e armamentos exóticos. Eu comecei a escrever em janeiro do ano passado. Ainda não tenho título, mas o enredo está vindo de um jeito muito promissor. Deve ficar joia. 

Transition pode ser lido como um ataque à política externa dos EUA. Ele inverte a realidade, colocando os cristãos como terroristas em um mundo controlado pela Ásia. Ele também dá ênfase para tortura, que facilmente pode refletir Guantánamo.
Bom, não era a intenção, mas sempre me perguntam isso, então talvez eu comece a responder que sim. Vamos dizer apenas que eu não estava pensando especificamente sobre a política externa dos EUA quando o escrevi. O aspecto da tortura é algo em que eu vinha pensando há algum tempo e finalmente achei que acertei. O que eu penso é o seguinte: tortura é sempre errada, deveria ser proibida, e nunca deveria ser praticada ou tolerada—mesmo de forma indireta, como foi, pelo estado. Se existir realmente uma situação em que torturar salvará vidas diretamente, e isso é extremamente raro, então a pessoa que está considerando realizar a tortura deveria saber que depois será processada e punida por isso, mesmo se ganhar uma medalha também. Isso deve concentrar a mente do babaca. No final das contas, uma sociedade que advoga a tortura para se proteger não merece ser protegida em primeiro lugar. 

12!
 


Você lidou com o tema da guerra e sua justificativa religiosa em Look to Windward, que você dedicou aos veteranos da Guerra do Golfo. Complicity oferecia sombras do conflito do Golfo. O 11 de setembro está em Dead Air, e The Steep Approach to Garbadale pode ser lido como um comentário sobre a guerra ao terror. Podemos afirmar que você tem sérias críticas sobre essa guerra e às atitudes e perspectivas do Ocidente em relação a ela? 
Sim. A guerra exerce certo glamour apavorante, e o jeito que as sociedades justificam as guerras para si mesmas me fascina. Porém, eu sou basicamente contra guerra. Se você é uma pessoa, não comece brigas. Se você é um estado ou uma sociedade, não comece guer-ras. Você tem o direto de se defender, mas é só isso. Provavelmente a maioria das pessoas concordaria com essas declarações, mas daí, no mundo real, fica mais complicado. De qualquer forma, acho que a guerra contra o terror é tão sensível—e tão vencível—quanto a guerra contra as drogas. Novamente, eu não quero botar muita responsabilidade no sentido de é-isso-que-eu-acho nos ombros de Transition, mas acho que colocado ao lado dos outros livros que você mencionou, mais os romances da série Culture em geral, ele indica os limites confusos, incertos e discutíveis dos meus pensamentos sobre o assunto. 

Você tem uma reputação por complexidade estrutural, sejam os narradores não confiáveis ou os narradores múltiplos de The Bridge ou Walking on Glass, o mundo paralelo pelos quais os Transitionaries podem se mover em Transition, ou os capítulos alternados, simultaneamente ascendentes e descendentes de Use of Weapons. Quando você se aproxima de um novo romance, a complexidade e a invocação formal são preocupações, ou a narrativa dita a forma? 
Tem que vir da narrativa. Na verdade, no caso de Use of Weapons, isso veio do [escritor escocês de ficção científica] Ken MacLeod; ele sugeriu os capítulos ascendentes/descendentes e assim resgatou um manuscrito que eu ia tratar como causa perdida. Fazer esse tipo de coisa só por fazer significa que você está sendo auto-indulgente ou tentando se mostrar. Pode parecer legal para algumas pessoas, mas você vai perder mais leitores do que impressionar. 

Álcool e drogas estão por toda a parte em seus romances, das glândulas de drogas em Culture ao estilo de vida de Prentice McHoan em The Crow Road e Cameron Colley em Complicity. Os Transitionaries de Transition se movem entre dimensões alternativas via injeção de Septus, e você detalhou o mundo do uísque em Raw Spirit. Você admitiu ter usado drogas no passado. A presença de substâncias no seu trabalho reflete a presença delas em sua vida? E agora que você não usa mais, elas irão desaparecer? 
Eu ainda bebo. Afinal de contas, ainda tenho uma reputação de champagne socialist a zelar. Mas as drogas parecem ter perdido o apelo. Pode ser uma coisa da idade, apesar de que eu ainda acredito que as leis de drogas são estúpidas, burras, irracionais e sem dúvida alguma criam uma série de danos. Eu já tentei escrever chapado, bêbado, de tudo que é jeito, mas não funciona. Na hora você pode achar que deu certo, mas quando relê sóbrio, vê que geralmente é uma bobagem vergonhosa. Desconfio que eu ainda vá acabar usando cocaína uma vez ou outra, mas a) minha namorada é muito antidrogas e b) é difícil de justificar, dado o tanto de violência associada com a manufatura e distribuição da parada. Usando, você está mandando dinheiro para algumas pessoas muito desagradáveis. Então eu sinto um pouco de falta, mas só um pouco. Acho que ter usado algumas drogas ao longo dos anos teve o efeito de me deixar confiante sobre escrever a respeito delas, mas eu não quero superestimar a importância delas nem na minha vida, nem no meu trabalho. 

Seu ritmo é muito rápido. Nesses tempos de instabilidade financeira, você acha que mais escritores passarão a ter uma abordagem de produção mais mecânica em relação ao ofício de escrever romances?
Esse pode ser um efeito. É igualmente possível que as pessoas—escritores e leitores—se voltem para a fantasia para escapar da amargura da realidade. Eu não alegaria ser uma autoridade no estado do romance, mas me parece bem saudável, e acho que a ideia de que um dia ele desaparecerá é bem idiota. O teatro não acabou quando o cinema apareceu, e pinturas não deixaram de ser pintadas porque alguém inventou a câmera. 

Você está lançando uma versão resumida em audiobook de Transition no iTunes. Você acha que esse tipo de coisa vai virar um procedimento padrão seu?
A versão de Transition do iTunes é um experimento interessante, mas não é tão diferente assim do audiobook em CD. Acho que se der dinheiro—diretamente ou vendendo mais cópias das versões em CD ou em papel—então vai virar procedimento padrão. O e-reader da Sonny e o Kindle representam uma mudança mais radical. A maneira com que irão afetar a compra de livros certamente será profunda. 
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