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Jackie Chan quer cantar, dançar, dar porrada e trazer a paz mundial

Matéria publicada originalmente na VICE UK.

O novo filme de Jackie Chan, O Estrangeiro, que estreia no Brasil no próximo dia 30 de novembro, é baseado no romance The Chinaman de Stephen Leather, que gira em torno de um dono de um modesto restaurante em Londres (Chan) que vai em busca de justiça depois que a filha (Katie Leung) é morta num ataque terrorista ligado ao IRA. Com mais ninguém na família e nada a perder, o pai enlutado persegue um ex-membro do IRA que se tornou político (Pierce Brosnan) atrás dos nomes dos terroristas — se emaranhando numa rede de política, passados enterrados e segundas intenções.

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Considerado um thriller de ação estilo Busca Implacável, as sequências de luta de O Estrangeiro são explosivas — como esperado de um filme com o astro internacional de ação, e dirigido por Martin Campbell de 007 Contra GoldenEye e Cassino Royale. Mas o destaque é a performance vingativa e a fisionomia impassível de Chan como Quan.

Para muitos, não é familiar ver o ator de 63 anos num papel dramático. Mais conhecido por suas comédias de ação, Chan diz que o papel já estava sendo trabalhado há décadas. E ele ainda tem muitas ideias para seus próximos grandes projetos, e meio que usou nossa entrevista como um mini brainstorm.

Mas isso não quer dizer que ele está largando de vez as comédias de ação. Falei com Chan sobre como ele se prepara o mundo para o tipo de filme que ele quer fazer, por que ele acredita que O Estrangeiro tem uma mensagem de paz, e por que é a hora certa para A Hora do Rush 4 — mas não para Bater ou Correr na China.

VICE: Você disse que quer ser conhecido como um ator que sabe lutar, não como um lutador que sabe atuar. Por que essa diferença é importante para você?
Jackie Chan: Eu vejo a história. Todos os meus amigos que são astros de ação, depois de uma certa idade, somem. Quantos astros de ação ainda estão no negócio? Tem sempre um astro de ação surgindo de novo, de novo e de novo. Quando eu tinha 30 e poucos anos, eu já sabia disso.

Então estou me preparando para o que farei no meu futuro. Nos últimos 20 anos, se você acompanha meus filmes na China e nos EUA, você percebe: personagens diferentes, roteiros diferentes, ações diferentes, diferentes tipos de atuação. Estou me preparando há muito tempo — deixando o público me aceitar lentamente: “Mesmo se Jackie não estiver fazendo ação ou comédia, ainda queremos vê-lo”.

Isso leva tempo, e é muito desafiador; é como apostar. Massacre no Bairro Chinês, Heart of Dragon — bons filmes, mas não foram bem de bilheteria — aí o estúdio volta imediatamente para filmes de ação. Isso é errado. Hoje em dia, não me importo mais com a bilheteria. Os críticos são muito importantes para mim. Quarenta anos atrás, eu era “bilheteria boa, vencemos”. Isso é errado. Você tem que deixar as pessoas lembrarem o filme — esse é um bom filme. Quero fazer algo de que as pessoas vão lembrar.

Você acha que poderia ter feito O Estrangeiro antes na sua carreira, ou só com experiência?
Acho que vem com experiência. No começou, isso não funcionava — pego um roteiro, escrevo meu próprio roteiro que seja apropriado para minha idade. Quantos anos tenho, que tipo de coisa posso fazer? Antes, eu costumava fazer muitas caras engraçadas [ contorce o rosto, depois ri] — mas não posso mais, porque não sou mais jovem.

Prefiro fazer algo como Busca Implacável ou Sniper Americano. São tantos filmes norte-americanos, por que não consigo esse tipo de roteiro? Por que os diretores não me contratam para fazer esses tipos de filmes? O Pierce [Brosnan] pode fazer Mamma Mia 2 agora! Adorei Mamma Mia! Se o Pierce consegue, eu também consigo — com luta, ação, dança, canto. Espero que eles me convidem para fazer Mamma Mia 3.

Muita gente ainda vê asiáticos como estrangeiros. Olhando para filmes como A Hora do Rush ou Karate Kid, parece que Hollywood ainda prefere ver os asiáticos como simpáticos ou o ajudante. Você acha que seu papel como Quan joga com esse medo do “estrangeiro”?
Acho que não. Isso depende do roteiro. Todo mundo é um estrangeiro, mesmo norte-americanos são estrangeiros. Ninguém é norte-americano. No filme, além de falar de terrorismo, ainda pensamos sobre amor e união. Dizemos aos terroristas “Olha, vocês mataram tantos inocentes, isso é errado”. Por isso eu quis fazer esse filme.

Como diretor, produtor ou cineasta, você tem que fazer algo pela sociedade. Há tantos desastres naturais, mas agora humanos criam desastres todo dia. Seja lá o que eu faça, estou sempre promovendo paz e amor. Se todo mundo fizer um pouquinho, acho que o mundo todo pode ter paz.

Achei que nunca veríamos Hora do Rush 4, já que você tinha dito que queria se afastar dos grandes filmes de ação. O que te fez querer voltar para esse roteiro?
[Quando] recebo roteiros norte-americanos, é sempre: polícia de Hong Kong, polícia chinesa, CIA de Hong Kong, CIA chinesa. Sempre que me dão um roteiro tipo A Hora do Rush, eu devolvo. Dinheiro falso, máfia — não gosto. Uma coisa que não gosto. Mesmo com Bater ou Correr, eles queriam fazer Bater ou Correr na China— Bater ou Correr, Bater ou Correr em Londres, Bater ou Correr na China — mas o roteiro é péssimo! Sequestram o último imperador, o pai de Owen Wilson está vendendo armas na China, eu volto para ajudar o imperador, aí descubro que tenho outro filho que é guarda imperial. Aí eu devolvo [o roteiro].

Um mês atrás, Brett Ratner me jogou uma ideia. Eu disse “Sim, pode funcionar. Me mostre”. Semana passada ele me mostrou a primeira página. Aí concordei. Pelo menos aceitei que havia coisas novas. Não tem dinheiro falso, nem máfia, nem ópio, nem nada assim.

O público pode esperar os mesmos Lee e Carter?
Mesma equipe, história diferente, área diferente, lugar de filmagem diferente. Por que aceitei? Porque tenho O Estrangeiro. Aí, no próximo filme norte-americano, espero que seja uma comédia. Talvez depois de A Hora do Rush 4, eu possa ter Karate Kid 2. Claro, também espero estar no Avatars ou Kingsmen.

Como você espera que as pessoas vejam e se lembrem de Jackie Chan?
Espero que as pessoas se lembrem de mim como um bom ator que pode fazer muitas coisas. Já provei que sou um diretor, roteirista, cantor, coordenador de dublês, astro de ação — e também sou um ator. E sou um bom professor. E que sou apenas… uma boa pessoa.

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