Música

A Kali Uchis Quer te Dar uma Nova Perspectiva Sobre a Vida, a Música e Tudo Mais


Foto: Carlos Basto, cortesia de Kali Uchis

É 2015, e as pessoas querem saber qual é a próxima grande tendência. O que elas vão anexar à sua identidade e marca pessoal agora? Gótico tropical? Surfe solar? Pode ser qualquer coisa! É tudo questão de perseguir o futuro! Ou, sabe, talvez tudo seja mesmo questão de ser fiel a si mesmo e ao que importa para você e deixar as suas verdadeiras inspirações, testadas e aprovadas, aflorarem em um contexto moderno.

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A Kali Uchis faz exatamente isso. A cantora e compositora colombiana radicada em Los Angeles faz música pop que não só é insanamente grudenta, mas também inseparável da sua personalidade e estética. O estilo dela se relaciona com pontos de referência clássicos, dos anos 60 aos 90, mas ela se apresenta de uma maneira que nunca passa a sensação de que está apenas lucrando em cima de nostalgia. Em vez disso, ela é apenas atemporal, e o estilo dela simplesmente funciona. Mesmo sem ter lançado um disco ou EP, ela atraiu atenção e amigos influentes no mundo da música nos últimos dois anos, fazendo aparições em faixas do Snoop Dogg e do Tyler, The Creator. Em “On Edge”, do Snoop, a sua voz etérea foi o complemento perfeito para a vibe californiana dele: super descontraída, mas substancial e facilmente viciante.

Mas Kali não está satisfeita em ser conhecida apenas pelos seus amigos; está claro que ela quer que você lembre dela pelo que ela é. Todos os lançamentos dela até agora nos mostraram a sua poderosa estética: o clipe de “Know What I Want”, por exemplo, lembra uma antiga revista Teen Angels pintada em tons de rosa e roxo. O EP Por Vida, lançado em fevereiro, é a sua última manifestação de ousadia. Ao longo de apenas nove faixas, Kali passeia por lugares bastante excêntricos e surpreendentes, abrangendo uma variedade eclética de estilos e conseguindo parecer vulnerável sem soar cafona ou exagerada. A faixa de abertura, “Sycamore Tree”, faz lembrar o doo-wop à capela de antigamente, mas mesmo assim ela é capaz de usar as camadas de voz para tornar a música quase assustadora. O oposto disso está presente também: a faixa seguinte, “Call Me” (produzida pelo Tyler, The Creator), permite que a batida nebulosa e a crueza da sua voz acalmem e relaxem o ouvinte. E tudo isso só nos primeiros cinco minutos. Todas as faixas do disco fluem juntas de modo coerente, mantendo ainda a sua identidade própria. Em 2015, você vai saber muito bem como soa uma faixa da Kali Uchis.

Noisey: Ter crescido na Colômbia e, também de uma forma geral, que tipo de coisa contribuiu para o seu estilo e estética?
Kali Uchis:
Muito veio das minhas experimentações com coisas diferentes. Curto filmes antigos e sou mais inspirada por coisas vintage porque elas me fazem sentir alguma coisa.

Os seus vídeos passam uma tremenda vibe tarantinesca, e com certeza essa é a história do Tarantino, buscar inspiração em filmes mais antigos.
Sim, acho que é assim que deve ser. Homenagear as paradas clássicas que estão aí há séculos em vez de apenas tentar buscar inspiração nas coisas de agora.

Na adolescência, quais foram os artistas que mais marcaram você?
Gosto muito de Ralfi Pagán, Brenton Wood. Eu meio que sempre gostei desse tipo de coisa. Loose Ends, Bootsy Collins. Sou muito visual, então sempre gostei muito de capas de discos de vinil, e foi assim que comecei a curtir música antiga inicialmente, quando era mais nova. Tipo, “ah, essas capas são tão legais!”, olhando a coleção do meu tio.

As músicas que ouvi do seu novo EP, Por Vida, abrangem vibes diferentes. Como você descobriu que batida usar para cada música?
É tudo questão de… Tipo, passei o ano passado experimentando musicalmente e com o meu próprio alcance vocal, descobrindo o que soava mais natural. Tipo, o Tyler [The Creator], por exemplo, e o Dam Funk me ofereceram ajuda. Quando trabalhei com eles, aconteceu de forma muito natural e orgânica, e esse é o tipo de coisa que realmente combina comigo. Sinto que as minhas músicas favoritas, tipo as que você acabou de escutar, fiz todas elas em menos de dez minutos. Só as escrevemos e fazemos. Acho que é assim que a música deve ser. Não deve ser tão pensada, ou feita por um monte de pessoas tentando chegar numa estrutura formulada ou algo do tipo. Elas são muito cruas, e esse é o tipo de coisa que eu respeito. Então adoro trabalhar com gente assim, que não faz música em função de tendências, mas porque a ama. Nenhum deles liga em estar no mainstream ou tocar no rádio. É sobre ser verdadeiro.

Como você compararia as coisas que fez quando estava começando com a música que está fazendo agora?
Inicialmente, como eu estou fazendo agora, comecei no doo-wop e no soul, inspirada na cultura low-rider e em músicas antigas. Era muito inspirada por isso. Quando comecei a trabalhar com produtores – porque antes eu só sampleava músicas mais antigas – foi quando eles começaram a extorquir o que eu estava tentando fazer. Então meio que saiu do controle, tipo naquele clipe, “Honey Baby”, a música se transformou em tipo uma batida de trap, uma parada mais R&B. O que não era necessariamente o que eu estava tentando fazer. Só era tudo o que eu tinha à disposição. Gosto de cantar, então ia acabar cantando sobre qualquer som que pudesse, porque por mim, tudo bem. Mas, agora que tenho mais recursos e mais gente para trabalhar comigo que me entende, estou de volta ao terreno onde comecei.

Qual é faixa do EP na qual você gostaria que as pessoas prestassem atenção?
Uma música chamada “Loner”, gosto muito dela. Às vezes, quando estou num carro com um motorista, coloco-a para tocar e não digo que sou eu, só observo a reação das pessoas à ela. Se elas realmente estão escutando, você pode vê-las ir para um lugar onde pensam e sentem de verdade aquele momento. Porque eu acho que todo mundo já teve aquele momento tipo, “não quero trepar com ninguém, só quero ficar sozinho, ninguém presta”. [risos] Porque as pessoas não prestam, e às vezes todos nós, individualmente, nos sentimos vitimizados pelas nossas vidas, então é uma coisa muito fácil de se identificar, que eu acho que nos conecta como seres humanos, não importa o quanto a gente tente parecer durão. É tipo uma coisa humanizadora.

Esse elemento humano era a sua visão desde o começo, ou foi algo que apareceu com o projeto?
Todas as músicas são autobiográficas. Foi uma coisa pela qual eu estava passando que simplesmente apareceu. Não lançava um projeto há mais de ano, mas toda a música deste aqui é desses últimos meses. As músicas antigas eu joguei no lixo. Não levei todo esse tempo para fazer esse projeto – só levei muito tempo para fazer o projeto certo. Eu devo ter feito uns quatro projetos no ano passado, provavelmente, porque estava passando por tanta coisa diferente, experimentando e evoluindo como artista. Parece que alguns artistas são formulados e feitos por uma marca, então eles têm alguém para fazer isso por eles e dizer a eles como eles devem ser. Mas fiz isso sozinha, então levou um tempinho até eu descobrir essas coisas sozinha. Só crescer e tudo mais, ficar mais velha e resolver a questão toda de quem eu quero ser.


Foto: Marilyn Hue, cortesia de Kali Uchis

Você acha que as pessoas te rotularam como uma artista de rap porque você trabalhou com caras como o Tyler e o Snoop Dogg?
As pessoas me rotularam como artista de hip hop porque eu não me vestia do jeito que me visto agora. Cresci muito como pessoa no ano passado, e dois anos atrás eu não me vestia do jeito que me visto agora porque mudo o meu estilo o tempo todo. Dois anos atrás, eu vestia saias xadrez, pulôveres e botas de plataforma da Timberland, usava tranças e coisas assim. Mas agora me sinto muito mais crescida. [risos] Só me visto de uma forma totalmente diferente, do mesmo jeito que a minha música está totalmente diferente. Acho que as pessoas me rotularam assim porque viram como eu me vestia, o meu cabelo loiro, então imediatamente me associaram com outros artistas e tiveram essa percepção. E essa é a prerrogativa de todo mundo, mas eu definitivamente estava tipo, “tenho que mudar isto!”.

Se você desse este EP para uma pessoa na rua, e ela fosse escutá-lo um pouco, como gostaria que ela saísse desta experiência?
Eu gostaria que ela tirasse algo disso e pensasse sobre a sua própria vida ou fora das suas próprias perspectivas. Que depois ela ficasse tipo, “ah, talvez eu estava errado quando fiz isto”, “talvez eu deva um pedido de desculpas a esta pessoa” ou “eu deveria ligar para esta pessoa” depois que terminasse de ouvi-lo. Fazê-la sentir de alguma forma. Ou fazê-la se sentir independente. É legal pensar que você pode tocar as pessoas de uma forma, dar a elas uma ideia diferente. Acho que é por isso que as pessoas gostam de chapar, só para ver as coisas de uma perspectiva diferente, e é isso que eu quero que a minha música faça, fazer as pessoas se distanciarem sem precisar chapar. Só é legal.

John Hill tem o pior senso de estilo do Twitter.

Tradução: Fernanda Botta

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