Mayara Assunção, 29, mora na cidade de São Paulo e já recebeu críticas inclusive de pediatras por compartilhar a cama com o filho de dois anos e seis meses. Há médicos que acreditam que essa conexão possa atrapalhar o desfralde. Outro motivo recorrente que causa estranheza é o sling, um tecido que pode substituir o carrinho e deixar a criança mais próxima de seu cuidador. “O meu marido é angolano e lá é comum, porém aqui nossos amigos achavam que apertava o bebê ou que ele estava desconfortável”, diz.
Muito se fala sobre os conceitos da maternidade ativa em rodas e grupos de discussão de mães, mas poucas pessoas fora desse círculo entendem seu funcionamento na prática. Trata-se, na verdade, de uma luta pacífica, um boicote a padrões de criação pré-estabelecidos.
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Por meio de diferentes práticas, como a cama compartilhada, amamentação prolongada ou educação positiva [focar nos acertos e nas qualidades, e não nas falhas], mães em todos os cantos do Brasil procuram formar crianças mais seguras, empáticas e amorosas. Por causa disso, muitas vezes, são vítimas de preconceitos, olhares acusadores e constrangimentos.

Luciana Bento, 33, mãe de duas meninas, também compartilhou a cama e, além disso, segue a linha Montessoriana [um método que deixa a criança livre para explorar um ambiente próprio para o seu desenvolvimento], dando independência e liberdade às filhas. Para ela, respeito e diálogo são mais importantes. “Mesmo que as minhas filhas discordem de mim, aceito o sentimento e as escolhas delas, porque sei que elas não têm nenhuma obrigação de fazer as coisas do meu jeito”, explica. A família dá atenção especial a educação positiva e a diversidade. “Nossas filhas convivem e respeitam as diferenças e isso é algo que é muito importante para nós.”
Benjamin tem um ano e seis meses. Ele nunca foi à escola e nem irá até o próximo ano. Para acompanhar os primeiros anos do filho, Bianca Pizzato, 32, teve de pedir demissão da empresa onde trabalhava, na cidade de Porto Alegre. “Eu não queria terceirizar a criação do meu filho, eu queria estar perto”, justifica. No aniversário do filho de uma amiga, ela notou que a criança não quis ficar com a mãe, mas com a babá. “Isso me chocou muito.”

Para o pediatra espanhol Carlos González, autor de oito livros relacionados à primeira infância, criação com afeto, alimentação e lactância, é como se atualmente criar os próprios filhos não fosse uma responsabilidade nossa. “Muita gente acredita que o trabalho é o que realmente importa, que é através dele que nos realizamos e que os filhos são uma carga”, afirma.
O ideal, segundo o especialista, é que a criança fique com a mãe até os três anos. Antes disso, ela não é capaz de entender que os pais voltarão do trabalho, por exemplo, e acabam sofrendo.
Para conciliar o trabalho e os filhos, a pré candidata à presidência pelo PCdoB, Manuela d’Ávila, tenta sempre levar a filha Laura, de dois anos e quatro meses, aos compromissos. Ela vai nas reuniões, brinca e interage.
“Maternar é militância, sim”, diz à VICE. Para ela, coisas que parecem simples são altamente politizadas, como ter um parto bem assistido, conseguir apoio para amamentar, escolher a creche. “As mães devem ocupar os espaços políticos e públicos, não podemos fazer com que a maternidade seja segregadora destas mulheres”, fala.
Manuela ainda questiona por que não nos perguntamos quem cuida dos filhos dos políticos homens. Para ela, essa ainda é uma pauta exclusivamente materna e, como a política é um ambiente majoritariamente masculino, ninguém percebe a ausência das mulheres. “Enquanto um homem brilha construindo a sua carreira, geralmente tem uma mãe abrindo mão da sua dentro de casa.”
A importância da livre demanda
Cada bebê é um mundo. Assim, seguir uma regra na hora de amamentar acaba sendo uma incoerência, como “o bebê deve mamar a cada três horas” ou “deve ficar 20 minutos em cada peito”. Por isso, a mais recente cartilha pediátrica publicada pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda a livre demanda, sendo que, até os seis meses, o aleitamento materno deveria ser exclusivo, e de forma complementar até os dois anos ou mais.

No entanto, o preconceito pode inibir a livre demanda, já que amamentar em público pode ser um desafio. Mães que postam fotos em suas redes sociais amamentando muitas vezes são alvo de críticas, como Manuela, que publicou uma foto oferecendo o peito à Laura, quando ela tinha apenas quatro meses. “O desmame da Laura aconteceu há um mês, foi gentil e gradual, respeitando os tempos dela. Eu tive uma consultora de amamentação para isso. Primeiro, fizemos o desmame noturno, depois, durante o dia, buscamos estratégias para que ela fosse reduzindo a necessidade de mamar em troca de novas brincadeiras, lanches especiais, passeios.”
Na época, a pré-candidata estranhou a foto ter causado tanta comoção: “Eu era uma lactante exercendo o direito de amamentar minha filha. Mas a viralização permitiu o debate sobre o assunto das mães no ambiente de trabalho e como nossa sociedade ainda se importa tanto com um peito que amamenta”, pontua.
Mayara também optou por prolongar a amamentação de Adriano por quase dois anos e recebeu diversas críticas. Ele começou a frequentar a creche com quatro meses e, para garantir o aleitamento exclusivo, ela ia até o local oferecer o peito em uma sala privada. “Apesar desse período não ter durado muito, foi muito bom esse diálogo, já que era uma creche municipal. Depois, ele acabou voltando à escola com um ano e meio e, conversando com a coordenação, chegamos ao acordo de que eu levaria o meu leite congelado para que oferecessem a ele. Depois disso, naturalmente, ele desmamou”, conta.
Fortalecendo os vínculos contra o racismo
Luciana, mãe das duas meninas, mantém um ambiente que valorize a cultura e a ancestralidade negra em casa, para que as meninas se enxerguem de forma positiva. “Priorizamos brinquedos, livros e outros artigos com personagens negras. Valorizarmos a presença negra nos filmes e desenhos animados e em todo lugar que tradicionalmente vemos muito mais personagens brancos e por isso recebemos críticas”, desabafa.
Para ela, há uma dificuldade em compreender a questão racial no Brasil, pois uma família branca nunca é questionada por não incluir diversidade na criação dos seus filhos. “É um desafio constante mostrar que elas podem ser e fazer tudo que elas sonharem. O primeiro passo é fortalecer a autoestima. Quem se ama, sofre menos com o preconceito dos outros. Eu vejo a autoestima como a principal ferramenta interna de resistência ao racismo e a que nos dá base para nos manifestar contra ele”, pontua.

Para González, uma criança que recebe carinho também o oferece e é mais empática. Por isso, ao ver os pais sendo vítimas de racismo saberão como responder ou não diante dessas situações.
O filho de Mayara entende que pode ocupar os lugares públicos, porém ainda não tem consciência de que isso é uma exceção, que muitas vezes as crianças negras não costumam ter esse acesso. Mesmo nos aniversários, em momento felizes, as crianças negras são minorias. Mayara afirma: “Ele é uma criança extremamente carinhosa e cuidadosa, é a repetição do que a gente faz em casa – estar perto, apoiar. Ele, em algum momento da vida, vai sofrer racismo, mas, por enquanto, nós vamos o fortalecendo para que, talvez, essas marcas sejam menores. Eu não sei se essa criação irá protegê-lo, mas a gente espera que sim.”
Licença maternidade
A primeira Proposta de Emenda à Constituição (PEC) apresentada este ano visa aumentar a licença maternidade de quatro para seis meses. No Brasil, a licença maternidade é de quatro meses, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o aleitamento materno exclusivo até os seis meses.
González afirma que quatro meses é um tempo muito curto quando comparado a outros países –onde a licença maternidade é de mais de um ano e, depois disso, há ajudas públicas para que as mães que não querem voltar ao emprego (a fim de cuidar dos seus filhos) não fiquem sem um salário básico. “Na Espanha, se você deixa de trabalhar para cuidar de um filho não recebe absolutamente nada. Porém, uma família onde apenas um membro trabalha paga os mesmo impostos e taxas que uma família na qual duas pessoas trabalham. Assim, o que menos precisa acaba sendo beneficiado”, pondera o especialista.
Quando terminou a sua licença maternidade, Bianca pretendia ficar mais tempo em casa e propôs à empresa onde trabalhava uma licença não remunerada de dois anos, que costumava ser concedida para estudos. “Eu fiquei muito decepcionada quando negaram o meu pedido pois a companhia se vende como parceira da mulher moderna, mas, na prática, quando você quer estar próxima do seu filho e exercer a maternidade, ela não está tão ao seu lado assim.”
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