Marcello V.O.R. está na ativa desde 1994 e é nome familiar daqueles que acompanham a programação dos principais clubs, festas e festivais do Brasil e da Europa. Suas contagiantes performances e produções absorvem diferentes influências, mas estão sempre próximas do techno, da deep house e da disco. Nesta quinta (3), ele vai conduzir um workshop sobre criação, mixagem e masterização a partir das 20h no Skol Beats Factory, ao lado de seu colaborador de longa-data Gabe e de Thomaz Krauze. A trinca de DJs, que recentemente lançou um selo em sociedade, o Zero Eleven Music, vai emendar uma imperdível jam session após o workshop.
Pegamos o gancho do evento no Beats Lounge para conversar com ele a respeito do que os três vão apresentar por lá e outros lances caros a este universo dos equipos, laps, softwares e processos criativos. De quebra, o papo rumou um pouco para o passado e sinalizou novidades pelo caminho. Uma delas é que o Marcello e o Gabe estão a todo vapor com a parceria no projeto Velkro, que inclusive soltou há pouco um remix para o clássico “Switch“, do alemão Beckers. Fora isso, ele está com uma pá de outras parcerias e tracks autorais no gatilho, que devem ganhar forma ainda neste semestre, e o selo também promete boas surpresas, com uma coletânea pautada para o mês que vem. Chega mais na ideia que desenrolei com ele:
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THUMP: Vocês combinaram algum programa em especial para apresentar ao público neste workshop do Factory? Ou será uma parada mais solta?
Marcello V.O.R.: Nós pretendemos com este workshop mostrar um pouco daquilo que fazemos em estúdio, desde o processo criativo até técnicas de mixagem e masterização. Daremos uma passada rápida por cada assunto e, depois vamos abrir para responder às perguntas dos participantes.
Atualmente, quais os equipamentos mais práticos para um DJ iniciante interessado em começar a criar suas próprias tracks ou mesmo remixar?
Hoje, com um laptop e o software Ableton Live instalado já dá pra fazer muita coisa. Claro que com o tempo e a experiência você começa a procurar novos equipamentos, hardwares, que darão outro peso e textura para a sua produção.
Você usa algum software hoje em dia ou prefere toca-discos e CD-Js? Você acha que o equipamento utilizado pelo DJ serve para julgar se o cara é iniciante ou profissa, pela facilidade que os aparatos atuais oferecem, na hora de sincronizar as tracks, por exemplo?
Hoje em dia eu uso pen-drives no CD-J, pela praticidade, principalmente em viagens. Quando comecei, em 1994, tocava com vinil e CDs. Nessa época não havia softwares nem botão sync no CD-J (coisa que sou contra), então era preciso ter um bom ouvido para conseguir encaixar as batidas. Isso por anos foi considerada uma grande qualidade do DJ. O DJ que não sambava tinha muito respeito de todos. Com a chegada de novas tecnologias, o fator sync acabou virando uma realidade nas cabines, o que acabou nivelando todo mundo por baixo. Não me entenda errado, mas antigamente para ser um bom DJ era preciso ter a técnica da mixagem somada ao bom gosto musical, hoje em dia qualquer um com uma bom playlist e um software já se intitula DJ e sai tocando por aí. Ficou mais fácil de enganar.
Não julgo quem toca com computadores, mas se for apenas para passar de uma música para outra eu acho meio truque. Se a pessoa se propõe a tocar com computador, que faça disso algo realmente criativo, importando loops, acapellas, usando três ou quatro canais, criando algo ali na hora. Aí acredito que seja o modo honesto de se tocar com computador.
Como funciona o seu processo de criação? Quais etapas que você segue e o que define a qualidade de uma track na música eletrônica? O beatmaking, os samples, a construção instrumental…
Eu escuto muita música diferente no meu dia a dia. Quando estou em casa, no carro, escuto muito jazz, soul, funk e pesquiso também muita coisa moderna, na linha de breaks, glitch, dub, coisas que fogem da linha de som que eu toco e produzo e é daí que vem a minha inspiração. Quando chego no estúdio, procuro trazer um pouco dessa influência para uma pegada mais house e techno, que define mais meu estilo. Para mim, uma boa música eletrônica de pista tem que bater bem num grande sistema de som assim como bate no rádio do seu carro. Um bom arranjo com uma boa textura, um groove dançante e um hook marcante. Não existe uma fórmula, mas procuro sempre alcançar isso na minha produção.
Você, que é formado em engenharia de áudio, considera importante que os DJs/produtores procurem algum tipo de especialização?
Eu acho que existem vários caminhos. Com certeza uma especialização, para quem é totalmente leigo, já vai esclarecer muita coisa da parte técnica, mas esse é só o começo. Vários truques você só vai acabar descobrindo após muitas horas sentado sozinho no estúdio ou, então, com aquele toque que algum outro produtor vai te dar. O que eu quero dizer é que um curso pode ser muito bom, mas só o tempo e a sua dedicação, depois do curso, vão te tornar um bom produtor.
Como andam os trabalhos com o selo Zero Eleven Music? Qual é exatamente a proposta do selo e quais os planos para este ano?
A Zero Eleven Music está com oito meses de vida. Além do Gabe, do Thomaz Krauze e de mim, que somos os sócios, já lançamos nomes como Alok, Luthier, Touch Talk, Victor Ruiz, Vintage Culture e Wehbba, entre outros. Foram sete EPs lançados até o momento, com mais dois engatilhados e uma coletânea quentíssimo que sairá mês que vem. Temos recebido muitas demos de artistas de todo o Brasil e tem chegado muita coisa boa. Estamos felizes com o forte time de produtores nacionais que estão com a gente. Alguns nomes mais conhecidos, outros nem tanto, mas que estão vindo com tudo e a nossa ideia é mostrar esses novos talentos e a cara da música eletrônica brasileira para o mundo.
Há quanto tempo você vem se dedicando à música eletrônica e o que mudou no seu som/jeito de tocar desde quando começou?
São quase 20 anos tocando profissionalmente como DJ. Já passei por várias épocas e diferentes cenas. Muita coisa mudou de lá para cá e é impossível ficar tocando a mesma coisa para sempre. Tenho o meu estilo, que vai se lapidando e mudando através dos anos, mas a essência e o amor pela música ainda é o mesmo desde o começo.
Quais são os cinco momentos/realizações mais importantes da sua carreira até aqui?
Algumas das minhas apresentações e momentos mais marcantes foram:
2006 – Skol Beats Festival, São Paulo;
2007 – Glade’s Festival, Inglaterra;
2010 – Bar 25, Berlim, Alemanha (lançamento do meu EP junto com o Gabe pela Sprout, selo do D-Nox);
2012 – Total Solar Eclipse Festival, Austrália;
2013 – Time and Space Festival, Tulum, México.
No momento você está trabalhando em algum release/projeto/parceria que possa adiantar para os leitores?
Além do projeto Velkro, com o Gabe, tenho trabalhado também com os amigos Angelo Fracalanza, Mack, com seu projeto Facing Odds, Nicolau Marinho, e também feito algumas produções próprias, que devem sair nos próximos meses.
Quer dizer então que o projeto Velkro está de volta? Em que medida a convivência com o Gabe influencia ou acrescenta ao seu estilo pessoal?
Sim, estamos de volta com tudo. Esta semana mesmo saiu nosso remix para o clássico “Switch”, do alemão Beckers, pelo selo Great Stuff Recordings, de Munique. Temos feito muita música nova e também estamos com várias datas fechadas para os próximos meses. Trabalhar em parceria é bem diferente. Quando você está sozinho no estúdio, você só precisa convencer a si mesmo, enquanto que quando tem outra pessoa, vocês precisam concordar com algo, e às vezes um ou outro discorda, o que acaba levando o som para outro lugar ao qual você provavelmente não levaria sozinho; e é aí que a mágica de uma boa parceria acontece. Quando nos juntamos no estúdio, temos um objetivo em comum, que é fazer música para as pessoas dançarem. Nós acabamos nos influenciando bastante, temos um background musical bem diferente, mas que no fim do dia só vem a somar e mostrar novas possibilidades, o que nos faz crescer como artistas.
Baseado em sua experiência em todos esses anos na cena, a cultura clubber/dance daqui está alinhada com o que rola na gringa, em termos de público, tendências musicais e infra-estrutura?
Acho que a cena brasileira amadureceu bastante nos últimos anos. Hoje em dia temos clubs como o D-Edge e o Warung, que não deixam nada a desejar a um bom club londrino ou de Ibiza, com ótima curadoria musical, além de uma pista sempre fervendo. Temos festas e festivais como o Universo Paralello, a Tribe, a Tribal Tech, em Curitiba, que também mandam muito bem em termos de infra, decoração e qualidade musical. Contamos com boas revistas como a House Mag e a Mixmag, que ajudam a difundir a cultura da música eletrônica por aqui. Só acho que poderia ter mais espaço para sonoridades um pouco mais experimentais, com as quais só acabamos tendo contato em festivais como o Sónar. Sempre tem um stage garantido para esse tipo de música nos grandes festivais do mundo, mas isso acaba ficando meio esquecido aqui no Brasil.
SKOL BEATS FACTORY
Rua Pedroso de Moraes, 1036, Pinheiros, São Paulo.
Tel.: (11) 3814-7383
BEATS LOUNGE
Quinta, 3/7. Das 18h à 0h.
Workshop às 20h. Jam Session a partir das 21h.
Entrada gratuita. Sujeito a lotação.
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