The Creators Project: Você acha que a tecnologia e a arte se mesclaram ao ponto se tornarem inseparáveis?
Mira Calix: Acho que isso é uma ideia falsa. Ambas têm essa coisa da “busca pelo novo”, mas também acho que ambas são muito mais do que isso. Os artistas se tornam muito apegados à tecnologia simplesmente pelo fato da sua existência, e isso acontece com qualquer outra coisa que você faça. Se você remove tudo menos a tecnologia não sobra nada. A tecnologia é apenas uma ferramenta.
Sim, mas a tecnologia tem um papel fundamental no seu trabalho. Para artistas e músicos como você é necessário acompanhar os últimos avanços tecnológicos?
É importante para mim. Admiro quem faz um trabalho artesanal sem o uso da tecnologia. Mas para mim, não existe outra maneira de fazer música. Meu computador se torna um instrumento, como o violoncelo de 300 anos que está a seu lado. E isso é fascinante.
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Mesmo assim, deve ser mais estimulante para você porque o violoncelo foi feito há 300 anos. Os computadores ainda estão evoluindo a cada dia.
Sim, e o fato de eu usar um computador em particular como um instrumento já significa que ele está obsoleto – já existe algo mais poderoso prestes a ser lançado. Há uma busca constante para conseguir algo maior, melhor e mais rápido. E essa é a diferença entre os dois instrumentos: um está perfeito do jeito que é, e o outro está em constante evolução.
No meio da música eletrônica as pessoas ficam se gabando de seus computadores ou novos programas?
Ah, sim! Mas acho que sofremos uma lavagem cerebral quanto a isso. Compus meu primeiro disco há nove anos com menos memória do que meu celular tem hoje e não sei como fiz aquilo. Tudo está em processo de evolução.
Muito do seu trabalho parece estar focalizado na mistura de sons naturais com efeitos digitais.
Sim. Fiz o meu segundo disco “Skimskitta” utilizando praticamente só pedras seixos. As praias daqui têm essa pedra, então pude fazer muitos experimentos e produzir vários sons. Depois trabalhei com os sons no computador até que eles não soassem mais como pedras. O desgaste, a forma e o tamanho das pedras afetavam o som. Eu gravava um som muito natural, depois processava e usava a tecnologia para transformá-lo em outra coisa. Na maioria das vezes o som ficava irreconhecível quando comparado ao original. É esse processo que faz algo tão simples virar música.
Como você teve a ideia de misturar música eletrônica com sons orgânicos?
Comecei este processo porque eu tinha pouco equipamento, pouco dinheiro, e todos esses sons não custam nada. Não sou uma purista, de forma alguma. Se o som soar melhor com bateria eletrônica, vou usar uma bateria eletrônica, mas não tenho receio de usar um galho. Às vezes, o galho é ótimo porque você tem som diferente e que é só seu. No fim, é tudo uma questão de utilizar a tecnologia para executar o que você está tentando fazer.
Agora você está tocando com orquestra. Já sofreu alguma resistência de quem toca instrumentos de maneira tradicional?
Quando estou tocando com músicos de uma orquestra, estou com meu laptop e meu rosto iluminado pelo azul da tela. Mas as pessoas têm me aceitado com o computador. Elas têm sido tão expostas aos computadores que agora o aceitam como um instrumento.
Para mais Mira Calx acesse The Creators Project.
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