Missão Skate Camarada

Chris entrega equipamentos de skate para uma multidão empolgada de adolescentes cubanos. (Foto por Zered Bassett)

Eu sou uma pessoa generosa. Não sei por que, mas é da minha natureza colocar os interesses alheios na frente dos meus. Ontem, por exemplo. Eu estava num drive-thru quando a mocinha dentro da caixa de vidro disse que meu total era de $5.55. Eu dei $21.05 pra ela. Ela disse que eu tinha dado muito dinheiro e tentou me dar $1.05 extra de volta. Eu expliquei que se ela usasse os $21.05 seria mais fácil me dar o troco: uma nota de 10, uma de cinco e duas moedas de 25 centavos. Ela ficou confusa. Eu a assegurei que se ela digitasse na caixa registradora o que eu tinha acabado de dar, a mágica da matemática simples tomaria conta de tudo, os planetas se alinhariam e as coisas aconteceriam exatamente como profetizei. Ela estava duvidando, mas resolveu tentar. E uau! Seu rosto se iluminou quando a máquina disse para me devolver uma nota de 10, uma de cinco e duas moedas de 25 centavos. Eu mudei o mundo daquela mulher naquele dia. Por quê? Porque eu me importo. Claro, ela não entende de matemática o suficiente para calcular qualquer outra coisa desse tipo, mas se algum dia ela for cobrar $5.55 de alguém, ela estará apta para dar o troco para $21.05. Fazer a diferença na vida das pes-soas pode ser muito gratificante.

No começo desse ano eu estava em uma encruzilhada na minha vida, incerto se minha próxima boa ação deveria ser começar a fome global ou acabar com a paz mundial, quando do nada meu amigo Augie da Acapulco Gold Clothing me mandou um link para um vídeo na internet chamado The Cuban Skate Crisis. Esse pequeno documentário mostrou como os skatistas cubanos foram afetados pelo embargo em curso que começou quase meio século antes deles nascerem. Eles andavam em skates deprimentes, shapes empenados e deteriorados, rolamentos enferrujados, rodas quadradas e tênis de skate que estavam tão usados e rasgados que pareciam mais sandálias ou chinelos de dedo do que qualquer outra coisa. Uma cena mostrava um menino quebrando um shape e chorando. Ele teve que colar, grampear e pregar o shape pra ter com o que andar. Foi de cortar o coração pensar que eu tenho três lojas de skate cheias de shapes e nem me dou conta disso. O único jeito daquele, ou de qualquer outro menino cubano, ter um shape é se alguém levar para ele.

Com o Obama assumindo e o sentimento imediato de que finalmente temos alguém aceitável na Casa Branca, eu decidi soltar um chamado às armas e levar o máximo de produtos que eu conseguisse carregar para Cuba. Mas como norte-americano, eu e meus compatriotas não temos como pegar um voo direto para Cuba há quase 50 anos, e qualquer norte-americano pego viajando para lá corre o risco de ser multado pelo seu próprio país em qualquer valor entre U$10.000 e US$100.000. Isso sem falar do que poderia acontecer conosco se o governo cubano nos prendesse. Não preciso nem dizer, mas estava me cagando de medo. Eu estava planejando uma missão para um lugar onde eu nunca tinha ido, onde não conhecia ninguém, não falava a língua, não entendia realmente o clima político fervilhante, além de ser o responsável pela segurança e bem-estar dos 18 skatistas que se alistaram para a missão… Eu também estava levando a minha esposa, grávida de cinco meses. Lá no fundo eu queria acreditar que tudo seria suave, que um poder maior iria nos guiar cegamente por todos os obstáculos porque, afinal de contas, nós estávamos embarcando numa missão de boa vontade. Como os Blues Brothers, nós estávamos numa missão de Deus. Como poderíamos perder?

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Antes: skates improvisados que te fazem chorar. (Foto por Chris Nieratko)

Bom, isso é um pensamento idiota. Agora eu já posso contar pra você que teríamos acabado na cadeia se tivéssemos ido para lá pelo Panamá como eu havia planejado. Como um gênio norte-americano, eu tava tipo “Mano, vamos só colar lá e distribuir um monte de produtos. Moleza!”. É por conta da providência divina do acaso que eu sou um homem livre e posso contar nossa aventura para você.

Em janeiro, eu procurei meu amigo na Red Bull para ver se ele ajudaria a pagar para que alguns de seus skatistas fossem para Cuba. Ele disse que tinha acabado de ser procurado pelo documentarista Tomas Crowder, que queria fazer um filme sobre a cena de skate cubana e que nós deveríamos conversar. Duas semanas depois eu voei para LA para encontrar o Tomas. Ele me explicou que se tivéssemos aparecido com aquele monte de equipamento em uma pista de skate, teríamos sido parados por soldados com metralhadoras, tido todo o nosso material confiscado e sido presos e interrogados. Mas o fato é que Tomas vinha trabalhando com o governo para ajudar os skatistas de Cuba há anos, e ele conseguiria todas as permissões de que precisávamos para conseguir fazer isso. Três meses atrás, 18 de nós embarcamos em voos de nossos lares para Havana (via Panamá) com 50 skates completos, 150 shapes, 100 pares de rodas, 200 pares de tênis da És e Vans, e mais coisas de skate que a loja de skate do seu bairro.

Chegamos em Havana sob o manto da escuridão às duas da manhã. Um por um, deslizamos pela alfândega, incertos sobre o que poderia acontecer conosco assim que chegássemos na segurança. Mas conseguimos. O primeiro de nós que conseguiu atravessar já tinha ido atrás de cervejas para que todos ce-lebrassem. Nós conseguimos! Todos os 18. Exceto pelo último cara. Óbvio. Nosso mano Tomas foi parado e interrogado durante uma hora. Eu só pensava que tínhamos perdido nosso guia, não conhecíamos ninguém e estávamos na merda.


Depois: O futuro de Cuba curtindo ao máximo com equipos bem loucos, sumemu! (Foto por Chris Nieratko)

No final das contas eles o soltaram sem maiores danos. Agora tínhamos que descobrir quantos táxis precisaríamos para 18 pessoas, cada uma delas carregando duas sacolas que pesavam entre 20 e 30 quilos cada.

A cidade de Havana é tudo o que você sempre imaginou: um lugar que já foi majestoso congelado no tempo. A maioria dos carros nas estradas é de antes dos anos 60 e feito nos EUA. Pros caras que curtem carro é como estar dentro de um filme pornô de carros. Eu consigo visualizar as pessoas pobres daquele país sendo estupradas e roubadas pelos colecionadores de carros norte-americanos assim que o Obama suspender o embargo.

Em geral as pessoas foram amigáveis, felizes por verem norte-americanos, todos cheios de perguntas a respeito do mundo exterior. Ainda assim, há um sentimento de medo permanente que permeia as ruas. Cidadãos cubanos estão sempre desconfiados, observando quem possa estar os observando. Eu estava no meio de uma conversa com um cara num pico de skate e ele estava me contando como, por causa do embargo, as coisas mais básicas não estão disponíveis para ele, como peças para consertar um carro ou um computador. Ele estava contando que ele tem uma serralheria onde fabrica e produz brake pads caseiros, e assim que as palavras “brake pads” saíram de seus lábios ele notou um homem num uniforme de soldado olhando em nossa direção. Sem soltar outra palavra o cara saiu correndo.

Mais do que qualquer outra coisa, essa viagem me fez estimar a liberdade que tenho nos EUA. Tinham tantas leis e penalidades absurdas que eu não sabia que existiam antes da minha visita. A polícia pode simplesmente te mandar pra cadeia por três anos por quase nada. Se você não tem um emprego, a polícia te dá 15 dias para arranjar um. Sem emprego por 15 dias? Três anos na cadeia. Tem um skatista cubano das antigas chamado Che Alejandro Pando Nápoles que ganha a vida como tatuador. Ele me disse que uma vez ele arranjou um autoclave no mercado negro mas se livrou dele rapidamente porque não tinha a documentação certa para possuir uma máquina daquelas, e tinha medo de ser acusado de roubo e pegar dez anos de cadeia. Agora ele esteriliza suas agulhas com líquidos e as coloca em uma panela de pressão. Como acontece com os skatistas, o único jeito de ele arranjar tintas ou agulhas é se alguém milagrosamente voar para Havana e der para ele.

Na manhã do dia em que a gente ia dar os skates na pista, nós todos ficamos em volta da piscina, bebendo mojitos e montando os skates—tipo uma linha de produção. Pessoas do go—verno, usando as câmeras de segurança do hotel, viram o que estávamos fazendo e insistiram em saber quais eram as nossas motivações. Eles ligaram para o hotel e mandaram pessoas lá para nos interrogar. É bem perturbador saber que você está sendo cons—tantemente vigiado. A vigilância em Cuba faz o Ato Patriota parecer um rabisco de bêbado num guardanapo de bar.


Agradecimentos especiais a todas as marcas e skatistas que doaram seu tempo e seus produtos a essa missão.

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