Transitions
De Stijl
8/10
A primeira vez que vi o C. Spencer Yeh foi em Barcelona. Ele estava em palco a manipular um circuito de pedais e caixas de efeitos — ou seja, todo um monte de aparelhos a que um caçador podia dar o nome de “Anaconda do barulho”. Aquele rapaz de traços asiáticos pareceu-me, ao mesmo tempo, assustador e simpático e foi por causa da primeira característica que demorei algum tempo até ganhar coragem para entrevistá-lo. Foi isso que aconteceu entretanto e dessa conversa animada surgiu uma lenda e uma certeza. A lenda diz que o peixe-espada servido a C. Spencer Yeh, em Barcelona, estava praticamente envenenado. A certeza é de que um dos métodos favoritos do gajo passa, em primeiro lugar, por montar uma corrente de instrumentos e depois por provocar uma consequência como quem mete o dedo mindinho no rabo da gata à espera que a bicha fique assanhada.
A imagem é do próprio CS Yeh e não minha, mas diz bastante sobre o processo que levou o tailandês a um monte de discos de Burning Star Core, em que o drone era picado como um boi e manifestava-se de maneiras altamente imprevisíveis. Foram muitas as vezes em que Burning Star Core era sinónimo de um drone que estrebuchava até morrer como um fantasma mau num filme de terror igualmente mau. Contudo, CS Yeh, além de todas essas aventuras, às quais se juntam tudo o que fez com o violino debaixo do queixo, foi demonstrando também alguma vocação para composições mais ponderadas e próximas daquilo a que se pode chamar uma canção. Ainda longe das canções, mas provavelmente já a caminho delas, Challenger (2009) incluía arranjos muito mais assumidos do que os conhecidos até aí no universo Burning Star Core.
Confesso que me perdi um pouco do CS Yeh a partir daí, mas dá para perceber que a gata assanhada de outros tempos é agora um animal muito mais manso neste Transitions, o álbum em nome próprio, que será o primeiro realmente feito de canções e não apenas de aproximações a essa forma. Em primeiro lugar, é bastante curioso ver como uma figura tão proeminente da música experimental se safa a fazer synth-pop próxima daquela que celebrizou uns quantos gajos neuras de Manchester. Diríamos que se safa bem, mas sem conseguir escapar também a dois ou três momentos em que parece mais entretido em atirar barro à parede do que ocupado com uma canção capaz. Mas quandoTransitions entra em terreno positivo, consegue ser muito bom, como acontece em “Masculine Infinity”: uma daquelas malhas filosófico-depressivas em que tudo parece funcionar bem. Noutros momentos Transitions assemelha-se um pouco a um disco que Casiotone for the Painfully Alone (outro triste) faria caso estivesse numa de quebrar barreiras e desonrar o seu passado. Fico convencido, mas preciso de ouvir o que aí vem.
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