Breakup Song
ATP
8/10
Vivemos num mundo obcecado por jingles, loops e toques de telemóvel. Alguns são mais insuportáveis que outros, isso é certo, mas todos fazem parte de uma gigante nuvem sonora que polui à sua maneira e sem ser visível como um céu cheio de smog ou um aterro carregado de lixo. E esta introdução parece uma composição feita na terceira classe, porque diz respeito a um novo disco dos Deerhoof, uma banda que me enche de sensações ingénuas desde que trinquei o velhinho Apple O’ pela primeira vez. Sim, a música dos Deerhoof normalmente retira 20 anos à idade mental de cada um, e a voz da japonesa Satomi Matsuzaki dá vontade de rebolar com ela no jardim e acabar com a boca cheia de terra e pedaços de malmequer.
Mas o que é que a segunda infância tem a ver com a poluição sonora? Tal como a atmosfera em geral, o mais recente disco de Deerhoof, Breakup Song, é um acumulado de detritos diversos. Detritos esses que a banda molda como se fosse um puto de quatro anos pela primeira vez apto a pegar nos géneros musicais (há rumba, calypso, synth pop) como se cada um fosse um monte de barro. Não nos surpreenderia que, ao prepararem este disco, os Deerhoof tivessem colocado a si mesmos a seguinte questão: “Se o mundo vive sujeito a uma praga de ruídos, porque não juntamos mais uns quantos gafanhotos sónicos a tudo o que nos come os ouvidos diariamente?” Servir a praga em vez de lutar contra ela até, porque o Mal já tinha sido derrotado no disco anterior.
Provavelmente os Deerhoof dirigiram a si uma pergunta mais curta e simples, mas a resposta é a mesma: Breakup Song, o álbum em que a banda parece mais próxima de uma filosofia de montagem de loops e riffs até que a torre pareça uma canção. É óbvio que todo este esbanjamento de ideias corria o risco de ser um exercício irritante (é um pouco também), mas isso só aconteceria se Greg Saunier não fosse um dos mais talentosos produtores da actualidade e os Deerhoof a sua máquina de polivalência. A prova disso está nos primeiros 40 segundos de “To Fly Or Not to Fly”, em que os Deerhoof invertem o processo da digestão e nos convencem de que até a merda da witch house soa bem quando passa por eles. E um disco capaz de me fazer curtir um pedaço de witch house só pode merecer todo o carinho e a nota que lhe dou ali em cima.
More
From VICE
-

Robin Williams (Photo by Sonia Moskowitz/Images/Getty Images) -

(Photo by Jim WATSON / AFP via Getty Images) -

Seinfeld (Photo by FILES/AFP via Getty Images)
