“Não, Cara”

Sam McPheeters é um escritor freelancer que vive em Pomona, Califórnia. Ele é o ex-vocalista das bandas Born Against e Wrangler Brutes, membro fundador do Men’s Recovery Project e dono da extinta Vermiform Records. Além de escrever para a Vice, seus textos também já apareceram no Chicago Reader, OC Weekly, Stranger e no Village Voice. Sam nos disse que este conto foi inspirado por “a) a perseguição de Dog the Bounty Hunter a Andrew Luster, herdeiro da marca de cosméticos Max Factor e b) num trabalho de um dia em que ajudei a administrar o reembolso de impostos sobretaxados por uma concessionária de veículos”.


Em onze anos como um caçador de recompensas, Keith nunca aprendeu a arrombar fechaduras. Ele arrombou algumas portas, mas somente aquelas ocas, de armários e banheiros onde seus fugitivos se escondiam como animaizinhos de estimação. Agora, chegando ao fim de uma estrada de terra isolada do Caribe, ladeada por folhagem com a largura exata do seu sedan, Keith parou numa rotatória sombria, e identificou, em meio a uma clareira isolada, um casarão de estilo colonial como o típico lugar que ficava destrancado. Um Mercedes escuro estava parado debaixo dos beirais suntuosos do pátio superior. Ele bloqueou a única saída de veículos. 

Suas narinas úmidas chiavam, anunciando que uma sinusite surgiria junto com a chuva. Enquanto se rastejava até a porta principal, lhe veio à cabeça a discussão que havia tido com a sua esposa, Jenni, horas atrás, enquanto atravessava o terminal do aeroporto. “Carreira sem futuro” era a estranha acusação que ela lhe fazia no momento em que ele desligava o telefone em sua cara. Seu telefone via satélite se parecia com um telefone sem fio antigo, com uma espessa antena empinada a mais de 30 cm de altura. Ela tinha ligado para esse telefone ao invés do seu celular comum, mesmo ele ainda estando em Miami, humi-lhando-o em público a $1,59 o minuto. 

Sua carreira, de fato, o havia levado aos piores lugares que a América poderia oferecer—escadarias de cortiço cobertas de lixo e fraldas usadas, becos imundos com cacos de vidro e seringas. Mas, ao abrir a porta daquele casarão e entrar silenciosamente na sala de estar, percebeu que sua carreira tinha acabado de avançar. Um tapete turco vermelho cobria o assoalho de madeira nobre. Ao lado da porta, uma mesa estreita, em forma de semicírculo, servia de apoio para um abajur de cobre aceso. Sentiu que o estavam esperando. Inclinou-se para observar a edição atual da revista Diver World, a etiqueta de assinante colada na capa destruía a foto de uma praia não identificada de um mar azul-safira. As letras pontilhadas impressas na etiqueta revelavam o nome falso de sua presa: STEVEN STEEL. Subindo os degraus acarpetados em três longos e silenciosos passos, ele parou por um instante em frente a uma porta fechada e ouviu conversas, ou burburinhos, de dentro do quarto. Ele fechou os olhos para saborear a minúscula pausa que antecede o caos.

Ele invadiu o quarto gritando. 

“Ei! Ei! Ei! Mãos na cabeça!” 

Percebeu se tratar de outra sala de estar. O homem de perfil paralisado, de meia-idade e feições indianas—segurando uma taça de bebida, e não uma arma—era de fato o seu homem. 

“Mãos na cabeça! Agora! Agora! Agora!” 

O indiano sorriu enquanto levava as mãos à cabeça, ainda segurando sua taça, “Eh merda”. 

Keith segurou o outro braço do suspeito e o torceu por trás de suas costas. Havia uma passividade familiar na reação lenta do sujeito. Em algumas pessoas, o impulso de lutar é subjugado pelo choque. Em outras, esse impulso ficava adormecido por horas ou minutos. 

“Bipin Nuwara?” 

“Steven Steel.” 

“Bipin Nuwara de Long Beach, Califórnia”, ele continuou, radiante, “considere-se preso”. 

Ele tirou a bebida da mão do homem e baixou seu outro braço, empurrando o prisioneiro contra a parede enquanto pegava as algemas com dois dedos e a trancafiava em torno dos seus pulsos roliços submissos. Bipin virou sua cabeça com a atitude desleixada de um bêbado. 

“Tome cuidado com a minha pulseira de alerta médico, por favor.” Um bafo de bebida revirou o estômago de Keith. 

“Vou revistar seus bolsos. Tem algo em seus bolsos?” 

“Agasalho esportivo”, murmurou Bipin Nuwara. 

“Agulhas? Seringas?” 

“É um agasalho esportivo. Não. Não tem nada disso.” 

Os bolsos estavam limpos. Keith virou seu novo prisioneiro e encarou-o de frente, assim como um pai encararia seu futuro genro—uma mão em cada ombro. 

“O que você vai precisar? Escova de dentes?” 

“Não. Isso não será necessário.” 

Atrás do homem, através de uma janela se via uma paisagem distante, Keith teve, por um instante, a fantástica visão de uma praia. Talvez o mesmo litoral deslumbrante, de areias finas e brancas, estampado na capa da revista que havia visto no andar de baixo. Metade do céu era de um violeta carregado. 

Ele conduziu seu prisioneiro escada abaixo e através da rotatória, onde o vento soprava forte, e inclinou a cabeça de Nuwara acomodando-o no banco traseiro do sedan policial. Keith, antes da perseguição, havia organizado com uma dupla de policiais de Antígua a locação desse carro. 

A presença de Keith pareceu divertir os policiais, como se ele fosse o ponto alto de uma piada particular deles. O carro custou $625 por dia, mais barato do que normalmente pagava por um carro policial no México. Ao sentar-se ao volante, Keith mais uma vez se sentiu grato pela grade que o separaria do prisioneiro. Ele contornou com cuidado a rotatória de pedregulhos, no mesmo instante em que as primeiras gotas enormes de chuva caíram, através das folhas gigantes, sobre o parabrisa do carro. 

Do banco de trás, Bipin disse: “Você parece com o Don Imus. Por acaso alguém já te disse… que… você parece com o Don Imus?” 

A chuva começou a cair mais forte agora, despencando sobre a copa das árvores de uma só vez. 

“Benvindo a Antígua, aliás. Fiz questão de escolher um país que começasse com a letra ‘a’. Assim você não iria precisar me procurar em tantos países antes de me achar.” 

O carro entrou numa estrada de terra que parecia ter estreitado de repente. A chuva se agravava. 

“Vejamos… tem o Afeganistão, Algéria, Angola…” 

“Nuwara, tem duas coisas que eu não suporto. Mau hálito e pessoas que falam demais. Sabe como resolver esses dois problemas?” 

“Abro a porta e corro pra diabo?” 

A estrada era estreita demais para que Keith parasse o carro para esmurrar seu prisioneiro. Ele tensionou suas mandíbulas, antevendo a longa jornada que teria pela frente. 

“Mas não valeria a pena”, continuou Bipin desanimado. “Você me pegaria de qualquer jeito. Eu sabia que você iria acabar me pegando. Desde que li na internet você anunciando que me pegaria pensei…”, ele suspirou. “Esse cara vai me pegar.” 

Keith olhou no retrovisor, sem dizer nada. 

Bipin perguntou, “Quais são seus planos para nós?”. 

“Dirigir de volta a St. John’s. Pegar um táxi para o aeroporto. Colocar nós dois num voo para San Juan. Pegar o voo noturno para Los Angeles. Entregar você para as autoridades de Los Angeles. Pegar meus 10% pela sua recompensa. E ter uma vida tranquila enquanto você cumpre de 15 a 25 anos de prisão.” 

“Putz! Isso é tempo demais! Não cheguei a estuprar nem a matar ninguém.” 

“Você roubou muito dinheiro.” 

“Bom, tecnicamente… tecnicamente… outras pessoas roubaram esse dinheiro. Na verdade, OK… sim, eu roubei um dinheiro da importadora de veículos Lafferty Luxury, de Cerritos. Mas eles roubaram dos seus clientes. Eles é que são os verdadeiros ladrões. Quando você vir a figueira ali na frente já estaremos quase na metade do caminho.” 

Uma dor de cabeça tinha realmente começado a latejar atrás dos olhos de Keith. A adrenalina tinha desencadeado a dor. Bêbados faziam sua sinusite piorar. 

“Como foi em Baja Califórnia?”, perguntou Bipin. 

Keith revirou os olhos. Semanas atrás, ele havia passado quatro dias miseráveis em Baja Califórnia, à procura de Nuwara, sofrendo de mais uma crise de sinusite, impotente em meio a hotéis, carros e policiais sacanas querendo arrancar seu dinheiro. Todo esse contratempo por causa de uma placa-mãe encontrada numa moita próxima ao escritório de Nuwara. Keith havia pago $600 a um especialista em computação em Van Nuys para recuperar os dados da memória cache desses pedaços de eletrônicos, e acabou encontrando links de páginas sobre Baja Califórnia. Mas foi somente em sua última noite de aventuras no México, confinado num banheiro com uma disenteria amébica, que Keith se deu conta de que estava sendo enganado. 

“Mas sério, cara”, Bipin disse. “Sério. Não é justo dizer que eu roubei aquela grana. Não fui eu. Não fui eu que fiquei repetidamente cobrando impostos a mais dos meus clientes, fui? Eu não fiz isso. Fui só o cara que ficou atolado de trabalho, administrando os reembolsos que a justiça os fez devolver. Sou o mocinho.” A estrada desviou bruscamente para a esquerda no momento em que folhas gigantes de árvores tropicais despencavam sobre o parabrisa. A chuva era torrencial, um pesadelo infantil de lava-carros. 

 
Bipin continuou: “Mas eles não queriam seus reembolsos, entende? Tínhamos uma equipe de assistentes que ficava ligando para esses ricaços babacas, mas eles achavam que éramos do telemarketing. Eu achava que os assistentes não estavam sendo claros, que não estavam seguindo as orientações ou algo parecido. Então, finalmente, eu mesmo liguei para um desses clientes, seguindo o nosso roteiro: ‘O senhor comprou um Lexus usado na concessionária tal e tal?’ ‘Sim senhor, não senhor, só é necessário preencher os formulários que nós o enviamos.’. ‘Sim, precisamos do número de identificação do veículo para entrar com o processo’, Sabe como é, essa ladainha toda. Finalmente o sujeito me perguntou quanto iria ganhar e eu respondi sem rodeios, 220 paus. E sabe o que ele disse?”. 

Uma guinada na direção fez Keith perceber que estava dirigindo sem freios ABS. Era difícil dizer o quão inclinada era a beira da estrada, mas com certeza era inclinada o suficiente para estragar o eixo do carro. Ele podia sentir a dor de cabeça provocada pela sinusite aumentando, pressionando seu crânio e espremendo seus miolos. O telefone via satélite vibrou no estojo. Só podia ser a Jenni, ligando para continuar a discussão do aeroporto. Ela era 15 anos mais jovem, um “troféu”, como sua ex-mulher Gloria a havia chamado um dia. Apesar de todos os seus defeitos, Gloria sempre respeitou a natureza do seu trabalho, o caráter sagrado da caça aos criminosos. Gloria jamais o teria ligado numa situação dessas. 

Bipin continuou, “Sabe o que ele disse? Keith? O que ele disse?”. 

Keith se inclinou para alcançar o telefone e o desligou. 

“Ele disse, ‘Você me custou mais com esta ligação. Eu ganho isso em duas consultas. Sou advogado.’ E então desligou. Você percebe o quanto isso é humilhante, Keith? Eu também sou advogado. E lá estava eu, levando uma bronca de um colega por desperdiçar o seu tempo.” 

Uma das rodas atingiu uma raiz e o carro deslizou. Keith pisou nos freios assustado, fazendo jorrar uma onda de sangue fresco para a sua cabeça latejante. 

“Então peguei um pedaço de papel ao lado do telefone e fiz as contas: Dezenove mil clientes sobretaxados na primeira queixa, em 1999 até a data de encerramento do caso, em 2006. Cada um deles deveria receber uma média de $550 de reembolso. Quer dizer…” 

“Mais que 10 milhões”, completou Keith. 



Eles saíram na estrada principal, raios de sol intensos atravessavam a chuva que se dissipava, uma fila de mini-vans e ônibus a diesel perfilavam junto a carros populares europeus e japoneses por uns 500 metros. Ele precisava se lembrar de dirigir do lado britânico, apesar da direção do carro estar no sentido oposto. 

“… direeeeeeeeto para o trânsito do meio-dia”, disse o Bipin. “Adorável.” 

O carro parou logo atrás da carroceria corroída de um caminhão. Keith estava impressionado com a feiura cotidiana caribe-nha. A única paisagem que valia a pena ser vista tinha ficado para trás, na estrada que acabara de deixar, e naquele vislumbre da praia. 

“Você podia ligar a sirene.” 

Keith colocou o dedo indicador sobre os lábios, mas Bipin continuou a falar. 

“Falando sério. O que eu poderia ter feito? Que escolha eu tinha? Refleti sobre isso naquela viagem de barco. Como eu poderia não ter pego toda aquela grana? Aqui estou, com 40 anos, tenho psoríase, uma pensão alimentícia de quase $600 por mês. Apesar disso não chegar nem perto dos $1.650 que você tem que pagar para a Gloria Feller todo mês. Ops! Agora é Gloria Armstrong.” 

Keith parou o carro, destravou as porta, saiu do carro e abriu a porta traseira. Ele já estava no meio do banco traseiro quando o Bipin disse, “Os antiguanos não gostam que homens brancos agridam pessoas de pele mais escura”. 

Keith deu uma olhada pela janela e viu que era verdade. Rostos escuros e zangados encaravam-no dos carros mais próximos. A dez metros dali, vários homens já estavam se aproximando, vindos de uma barraquinha azul-brilhante na beira da pista onde se lia CERVEJA e ABACACHÍ”. 

“Desculpe”, disse Bipin acanhadamente. 

Keith saiu, sacudiu-se feito um cão molhado e voltou a sentar no banco do motorista. 

“Você vai me dizer como conseguiu essa informação.” 

“Detetives particulares”, respondeu Bipin. “Sem ofensa. Mas depois que li aquele artigo de jornal na internet, comecei a gritar. Sabia que você ia me pegar. Quer dizer… Keith Feller. Que tipo… Que porra de nome é esse? Soa como Thief Killer (assassino de ladrões), disse a mim mesmo. Então comecei a pensar em como me defender de um caçador de recompensas.”

Keith emitiu um rugido. Carros se amontoavam à frente enquanto a chuva voltava a cair devagar. Esses dilúvios tropicais lhe davam nos nervos. 

Bipin sorriu. “E quando pedi para investigarem você, sabe o que descobri? Que você é um cara correto.” 

O carro avançou lentamente pelo acostamento. 

“Você… é… um.. cara OK. Um ‘viciado em adrenalina’, vi você se definir em algum lugar. Quer dizer, poderia ser muito pior.” 

O carro deslizou e entrou num buraco. Havia uma vaca a poucos centímetros da porta de Keith, observando seu desconforto com olhos gelatinosos. 

“Você poderia ser um viciado em drogas, por exemplo.” Bipin olhou pela janela satisfeito. 

A vaca piscou os olhos, em sinal de abor-recimento. A distância, uma orquestra de buzinas soava em uníssono. Keith fechou seus olhos e massageou sua testa com a ponta do dedo, na tentativa de aliviar a dor. 

“Ei. Você já assistiu ‘Fuga de Nova York?’.” 

Bipin respondeu à sua própria pergunta. “Talvez esteja passando no avião.” 

E adicionou, “Mas você tem que admitir que é um conceito bem intrigante”. 

Depois de um minuto de buzinas incessantes, o carro finalmente saiu do buraco. Um bando de pássaros negros sobrevoava os carros a diante. 

“O quê?”, perguntou Keith atormentado pela dor de cabeça. 

“O que o quê?” 

“O que é o ‘conceito bem intrigante’?” O simples exercício de falar empurrava seu cérebro contra seus olhos. 

“Oh. Me defender contra caras como você.” 

“Uh-hã.” 

“Pra começar, eu teria que fazer algo bem dramático. Para atrair a sua atenção, sabe? Tipo explodir o seu carro.” 

 
Keith relaxou suas mãos sobre o volante. Ele estava acostumado com este tipo de prisioneiro—mentiroso, que faz ameaças. Quando certos prisioneiros se dão conta de sua situação, começam a falar essas besteiras. Todo mundo tem um primo que poderia fazer isso e aquilo, ou um irmão maluco que acabara de sair da cadeia. 

“Obviamente, não poderia fazer isso pois estou tendo aulas de mergulho. E moro em Antígua agora. Então eu teria que contratar alguém para fazer o serviço para mim. Sabe… um matador de aluguel. Um mercenário. Do tipo que você encontra na internet se procurar direito.” 

O caminhão na frente deles acelerou de repente, liberando todo o tráfego. Eles passaram por um bloqueio de pedras e depois por um outro obstáculo de alvenaria, e por uma série de barracas vazias, decoradas com fiti-nhas feitas de saco plástico. A estrada curvou para o leste, e Keith pôde avistar por um momento mais uma vista estonteante do oceano na distância. O mastro branco de um catamarã solitário balançava de um lado para o outro sobre águas verdes. Foi apenas uma visão de relance dessa vida, e desapareceu. 

“Então, o que eu pensei, foi que eu deveria fazer isso logo após ser capturado, antes de eu ser levado de volta aos EUA. Sabe, para chamar a sua atenção. Pois quando eu chegar em solo americano, já era. Quando eu estiver no avião, já era. Mas aí que está o problema, certo? Quer dizer, você não vai me deixar telefonar para o meu amigo mercenário. Então, o que eu pensei foi que eu iria precisar de um transceptor, para eu poder avisá-lo que estou em apuros.” 

Keith chegou a uma conclusão fatigante. Certos tagarelas precisavam apanhar até virarem recheio de sanduíche. A lógica desse espancamento faria bastante sentido estando assim, tão longe de casa. 

Bipin não parava, “Mas ‘transceptor’ não é o termo correto. Teria que ser tipo… um ‘transpositor’. Transponder. Algo leve, mas com um GPS, e com um único botão que eu pudesse apertar e acionar o meu matador 24 horas por dia, de qualquer lugar do mundo. Como um botão de pânico. É incrível o tipo de coisas que você pode encomendar pela internet. Precisa ter di-nheiro, é claro. É possível até ter este aparelhinho disfarçado de pulseira de alerta médico. Assim eu poderia chamá-lo mesmo estando algemado”. 

Keith piscou os olhos. 

“O sinal seria transmitido via satélite para o bipe do matador, lá na Califórnia. Assim que ele recebesse o sinal, ele ligaria para a sua mulher no trabalho—sabe, lá no edifício Stennis & Stennis na esquina da Grove com a Sherwood, nono andar—só para ter certeza de que ela não tivesse saído, sei lá, para levar as roupas à lavanderia, ou voltando para a sua casa na Rua Sprout, 424, em Modesto. E assim que ela atendesse o telefone, logo que meu matador tivesse 100% certo de que ela não se machucaria, eu o mandaria explodir o carro por controle remoto, usando o meio quilo de explosivos que eu mandei ele colocar debaixo do pára-choque traseiro dela dois dias após você anunciar que iria me capturar.” 

Keith parou o carro no acostamento, pulou para fora, escancarou a porta traseira e foi direto para o pulso de Nuwara. A jóia espessa, na verdade, não era uma pulseira de alerta médico. Uma plaquetinha oval de cobre havia sido instalada com a precisão de um antigo relojoeiro. Através dela, dava para ver um botãozinho vermelho. Bipin virou-se de perfil. 

“Acho que deveria ligar para a sua esposa.” 

Levantando-se para estender a antena sem ponta do telefone via satélite, Keith tentou permanecer firme, enquanto ligava o telefone. Viu as luzinhas formarem a frase 1 MENSAGEM DE VOZ. Por 30 segundos inesgotáveis, ouviu com tensão os cliques e pausas entre ele e a Califórnia. Carros ultrapassavam-lhes em velocidade. O trânsito do meio-dia já tinha passado. De onde estava via as favelas que sinalizavam a periferia de St. John’s, a um quarteirão de distância. Finalmente, ouviu a voz estremecida de Jenni. 

“Amor…” alguém estava gritando ao fundo. “Amor? Querido… O carro…” 

Keith desligou, fechou gentilmente a porta traseira e se acomodou atrás do volante. Massageando sua testa em círculos lentos, ele deu partida no carro e voltou à rua movimentada. 

“Aonde vamos?”, Bipin perguntou gentilmente. 

“A algum lugar fechado, onde eu possa remover os seus dentes.” 

Dirigiram em silêncio, as favelas foram dando lugar a barracos mais povoados, dois rapazes de camiseta laranja tentavam organizar o tráfego em torno de uma linha de barris enferrujados, fazendo-o retornar à pista. 

“Não, cara. Pense. Eu explodi o carro da sua mulher. Você não deveria escutar o que mais eu tenho debaixo da minha manga?” 

Keith diminuiu a velocidade quando se deu conta disso. 

“É como eu disse, isso foi só para chamar a sua atenção”, Bipin explicou. “A hora que o meu matador ler na internet que eu cheguei nos EUA ele vai fazer coisas horríveis com a Jenni, e com a sua ex-mulher Gloria e com o seu filho de 15 anos, Carl, que está na Academia Militar St. Catherine, em Anaheim. E à sua mãe Dorothy, no lar de idosos Yardmont, em Appletown, Wisconsin. Eu designei um detetive particular para cada membro da sua família. Então, se alguém fugir, meu homem vai descobrir. É estranho. Esse negócio todo de ter que lidar com mercenários. Teve uma coisa terrível que eu falei para o mercenário fazer com a Jenni caso eu fosse pego, e ele simplesmente se recusou. Não é estranho?” 

O carro desviou bruscamente mais uma vez, para evitar outra cratera perto do meio-fio. 

“Mas ele conhece um cara na Bósnia que faria o que eu pedi. Você representa grande parte dos meus gastos e planos. Vamos ver, tem gastos com comida, utensílios, assinaturas de revista, testar os defeitos do caçador de recompensas…” 

Keith tensionava e relaxava sua mandíbula. A dor de cabeça já tinha tomado conta dele, um estado miserável contínuo, que só acabaria após uma noite de sono que ainda estava a quilômetros de distância. 

“Então, funcionou?” 

Keith segurou o volante com a mão esquerda e levou as costas da outra mão à testa. 

“Funcionou o quê?” 

“Eu consegui provar que sou infalível?” 

Ele parou no semáforo, o primeiro da rua. Na esquina da St. John’s, havia norte-americanos, um desfile de rostos brancos sorridentes e rostos asiáticos saindo de lojas de telhado de zinco sob o sol que reaparecia, e rindo das chuvas repentinas desta terra. A tempestade que parecia ter começado em uma outra vida tinha, na verdade, ocorrido no intervalo de tempo que levava para entrar e sair de uma loja de antiguidades. Keith observava essas pessoas vestindo roupas de tons pastéis e penteados caros como se estivesse muito distante, pessoas que vi-nham de algum patamar superior, do qual ele jamais teria acesso, pessoas que poderiam viver uma vida inteira sem nunca saber da existência de caçadores de recompensas que se escondem em arbustos. Depois das férias, essas pessoas voltariam renovadas à terra da “carreira de futuro”. 

O farol abriu. 

Keith perguntou, “Para onde?” 

“Agora você vai reto nesta rua até passar o Creekside, mantenha-se à esquerda e siga dirigindo no sentido de St. John’s”, respondeu Bipin. “Você vai me deixar num bar chamado Pee Wee’s. Vou continuar bebendo e, em algum momento, vou pegar um táxi e voltar para casa. Você vai pegar um voo para San Juan e depois o voo noturno para Los Angeles. Eu vou mergulhar na quarta-feira e, em mais seis aulas, vou tirar meu certificado de mergulhador. Você vai dizer para todo mundo que não faz ideia de onde estou. Eu vou dizer a todo mundo, ‘Vejam! Eu sei mergulhar!’”. 

Bipin se inclinou para perto da grade e baixou a voz, como um padre ouvindo uma confissão. 

“E se eu ouvir mais uma sílaba de você, em qualquer momento da minha longa e pacífica vida, vou te tirar tudo o que você tem e todas as pessoas com as quais se importa. Fui claro? Responda que fui claro.” 

Keith não respondeu, mas ao ver o sinal para Creekside, virou à esquerda. Entraram nas ruas tumultuadas do centro de St. John’s. 

 
“Aqui mesmo”, ordenou Bipin. 

Estacionaram em frente ao Pee Wee’s. 

Vindo de trás, Keith ouviu, “Algemas”. 

Keith puxou o freio de mão e saiu do carro se sentindo um nada. Abriu a porta traseira, sacou as algemas e libertou seu prisioneiro. Bipin saiu pela rua e andou devagar sob o sol do meio-dia. Outro grupo de turistas americanos saía do Pee Wee’s enquanto Bipin atravessava a calçada. Ele parou na porta do bar e gritou, “Tenha um bom voo!” antes de entrar pela porta, retomando à vida de Steven Steel. 

Keith sentou-se atrás do volante. O relógio digital no painel indicava 4:00, depois 4:01. Em casa, ainda era meio-dia. O carro quente cheirava a couro queimado. Seu telefone vibrou no encosto na fenda do banco do passageiro. 

“Jenni…” 

“Não, não, sou eu”, ele ouviu Bipin dizer, “Não se preocupe—essa conversa ainda não conta como você nunca mais falando comigo. Mas esqueci de dizer que pedi para seus colegas policiais deixarem um envelope com travelers cheques debaixo do banco do passageiro. Deve ter uns $ 8.460, que acredito ser o valor de tabela do Honda Civic 2003 da sua mulher. Caso ela não tenha rodado mais que 100 mil quilômetros com ele, você ainda vai sair com uma grana extra. Desculpa. Isso tudo foi muito estranho.” 

Um acúmulo de sujeira havia escurecido o carro depois que eles deslizaram sobre a rua encharcada, indo de Antígua para Barbuda, movendo alfabeticamente de ilha para ilha. A voz no seu ouvido suspirou. 

“Sabe, Keith, pesquisei tanto para essa tarde, aprendi tanto sobre você. É uma pena que as coisas tenham que acabar aqui. Sei que você não bebe uma gota de álcool há quatro anos, mas talvez, num universo alternativo, você pudesse vir aqui para bebermos um refrigerante ou algo parecido. Por minha conta, é claro. Eu sei que isso não vai acontecer. Mas não seria uma viagem?” 

Keith abriu a boca pra falar, mas não soube o que dizer. Ele tentou imaginar o voo de mais tarde e a vida além dele. A dor de cabeça ainda estava lá, comprimindo-o contra o assento. A voz ainda lhe falava. 

“Não seria? Keith? Não seria uma viagem?” 
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