“O Caçador e Seus Cães”

Saah Millimono é o colunista-chefe da seção de ficção do Daily Observer, o jornal mais popular da Libéria. Fomos apresentados ao Saah pelo nosso intermediário africano, Myles Estey, um jornalista canadense que se mudou para aquele buraco infernal devastado pela guerra porque lá é bom para o surfe. Ele gostou tanto de Monróvia, capital da Libéria, que acabou ficando por lá, trabalhando na formação de jornalista locais. Saah tornou-se um de seus alunos. Juntos, Saah e Myles escreveram histórias como esta, usando os computadores da redação do Observer e trocando ideias a partir de notas escritas em pedaços de papel—já que Saah é surdo. Toda semana, o Observer publica uma nova história de Saah. As histórias tratam de feitiçaria, magia negra, decepção e das dificuldades da vida cotidiana. E apesar da taxa de alfabetização na Libéria ser de apenas 35%, Saah tem um público leitor fiel, que o envia cartas regularmente. 

Myles nos disse: “Saah é incrivelmente positivo e bem-humorado, mas frustrado em relação à situação da Libéria. São poucas as oportunidades para as pessoas aqui. Ele também sofre com as típicas merdas de escritor. Ele nem sempre pode dizer o que pensa e ninguém quer oferecer a ele os recursos necessários para a realização do seu trabalho”.



Era uma vez um caçador chamado Gotokai. Ele tinha quatro cães: Tin, Kin, Roll e Rally. Os cães eram muito leais ao caçador e eram conhecidos por sua bravura, audácia e sua habilidade para caçar. Mas eles tinham uma fraqueza: eles não podiam comer pimenta. 

Embora todos soubessem disso na vila, Gotokai nunca disse a ninguém por que seus cães não podiam comer pimenta. Ele manti-nha isso em segredo. 

Na vila de Bampley, onde Gotokai vivia com seus cães, havia uma velha invejosa que vivia sozinha num pequeno barraco de zinco. Ninguém nunca a visitava porque suspeitavam que ela era uma bruxa. 

E talvez estivessem certos. Porque, à meia-noite, Kinte—como era chamada a velha—se sentava com espíritos do mal e tramava planos para matar as pessoas que odiava. 

Uma das pessoas que ela odiava muito na vila era Gotokai. A velha o achava honesto demais, amigável e generoso de um jeito que fazia com que todos os demais habitantes da vila parecessem cabras enquanto Gotokai desfilava como a única ovelha. Assim, sempre que Gotokai chegava de um dia de caça, compartilhando a carne com as pessoas da vila, Kinte se enfurecia e desejava que Gotokai caísse morto ali mesmo. 

Para a sorte de Gotokai, seus cães estavam sempre por perto. E Kinte, ironicamente, parecia ter medo deles. Ela pensava que os cães tinham poderes sobrenaturais que faziam com que Gotokai fosse imune às suas feitiçarias. 

Gotokai, por sua vez, não fazia ideia do que Kinte estava tramando. Ele, é claro, era um sujeito muito amigável, que confiava em todo mundo e sempre fazia o melhor para o bem de todos. Inclusive, era sabido para muito além da vila que Gotokai daria sua vida em troca do bem-estar de seus conterrâneos. 

Uma noite, quando Kinte estava voltando do mato carregando um punhado de lenha, ela e Gotokai se cruzaram no meio de uma trilha. Atrás de Gotokai vinham seus cães, seguindo fielmente seu dono. 

Kinte recuou horrorizada: “Tire seus cães da minha frente, Gotokai!”, ela gritou tremendo de medo.

Gotokai ficou surpreso com a reação da velha e não soube o que fazer. De qualquer forma, ele ordenou a seus cães que fossem para longe para não assustarem a velha. Os cães obedeceram imediatamente. Eles se afastaram de Gotokai à distância de uma pedra arremessada, e ficaram sentados sobre suas patas, sempre mirando o dono. 

Kinte suspirou com grande alívio.

“O que têm os cães que a assustam tanto, Sra. Kinte?”, Gotokai perguntou.

“Eu só não gosto de cachorros”, Kinte respondeu.

“Mas meus cães não machucariam ninguém”, disse Gotokai, “a não ser os animais que eles caçam. Eu os ensinei que os homens são seus melhores amigos”.

“É mesmo?”, Kinte perguntou surpresa.

“É sim”, disse Gotokai.

“Bem, eu sempre tive muito medo de seus cães”, admitiu Kinte.

“Por quê?”, questionou Gotokai.

“Acho que eles fazem você parecer um homem muito perigoso.”

Gotokai sorriu, “Desculpe-me, Sra. Kinte”.

“E por que você não dá pimenta a seus cães?”

Gotokai sorriu, mas não disse nada. 

Ahã! Ele não respondeu por que isso o deixaria vulnerável, Kinte pensou.

Gotokai disse: “Eu preciso deixá-la agora, Sra. Kinte. Devo preparar algumas armadi-lhas na floresta”. 

“Não vá ainda”, disse Kinte. “Você ainda não respondeu à minha pergunta. Diga-me, por que seus cães não podem comer pimenta?”

“Eu lhe respondo outra hora”, disse Gotokai sorrindo meio sem jeito. Então, sem nenhuma palavra mais, ele se virou e andou em direção aos cães, que no mesmo instante se levantaram e seguiram o dono.

Kinte ficou muito decepcionada e amaldiçoou Gotokai. 

Desde então, Kinte decidiu descobrir o segredo de Gotokai. Mas sempre que o encontrava e lhe perguntava sobre seu segredo, Gotokai arrumava um jeito de desviar o assunto e partir com um sorriso no rosto.

Um dia, quando Gotokai estava deixando a vila para visitar um primo, ele levou seus cães até Kinte.

“Sra. Kinte”, disse Gotokai, “gostaria de pedir-lhe, por favor, para tomar conta de meus cães e garantir que eles não comam nenhuma pimenta”.

Kinte estava surpresa, mas não quis demonstrar. “Qual é o problema?”, ela perguntou.

“Estou partindo para visitar um primo meu”, respondeu Gotokai. “Ele mora a quilômetros daqui e não quero cansar os cães numa jornada tão desgastante.”

“Mas eu tenho medo dos cães”, confessou Kinte.

“Eles não vão fazer nada com a Sra.”, garantiu Gotokai. Então, gesticulando para que Kinte esperasse um momento, ele se virou e caminhou em direção aos cães, que o estavam esperando debaixo de uma mangueira próxima ao barraco de Kinte.

Ao se aproximar dos cães, Gotokai disse: “Tin, Kin, Roll, Rally?”

“Sim, senhor!”, responderam os cães em uníssono.

“Vou visitar um primo”, explicou Gotokai, sentando-se ao lado dos cães. “No entanto”, ele continuou, “não quero levá-los comigo, pois a jornada é muito longa”.

“Sem problemas, senhor”, retrucaram os cães em uma só voz.

 
Gotokai levantou sua mão ordenando silêncio. 

Os cães obedeceram e ficaram quietos.

“A viagem é muito desgastante”, Gotokai disse. “Não quero que vocês fiquem exaustos. Isso seria muito egoísmo meu, já que a viagem não tem nada a ver com a caça.”

“Bem, senhor, mas onde pretende nos deixar?”, perguntou Roll.

“Vou deixá-los com a Sra. Kinte”, replicou Gotokai. “Ela tem sido boa comigo e tenho certeza de que ela cuidará bem de vocês.”

“E se ela nos der pimenta?”, questionou Tin.

“Ela não faria isto”, explicou Gotokai. “Ela é uma boa senhora.”

“Mas ela é conhecida na vila por ser uma bruxa”, sugeriu Kin.

“Isso é apenas boato”, Gotokai respondeu calmamente. “Vivo nesta vila desde que me conheço por gente e jamais achei que Kinte fosse uma bruxa.” 

“Mas ela pode estar escondendo um segredo”, disse Rally.

“Dá no mesmo”, Gotokai insistiu, “ela nunca foi pega fazendo feitiçaria para ninguém. Portanto, não acredito nesses boatos mentirosos. Agora, devo partir. Preciso chegar à próxima vila antes do cair do sol para que eu possa descansar e continuar minha jornada na manhã seguinte”.

Os cães balançaram suas cabeças murmurando aprovação. 

Quietos, eles seguiram Gotokai de volta até a cabana de Kinte.

Gotokai acariciou seus cães pela última vez antes da partida e disse a Kinte para não ter nenhum medo deles.

Porém, assim que Gotokai deixou a vila, Kinte cozinhou um enorme caldeirão de sopa de carne e adicionou um saco de pimenta caiena. Os cães engoliram a sopa de uma só vez, acreditando que Kinte jamais os daria pimenta, já que Gotokai confiava nela e havia dito isso a eles.

Bem, os cães todos caíram no sono assim que acabaram de tomar a sopa de carne. Eles dormiram tão profundamente que parecia até que estavam mortos. Kinte ficou tão feliz que mal podia acreditar. Agora ela iria lidar com seu odiado Gotokai. Conclamando todos os seus poderes mágicos, ela desapareceu no interior da floresta a toda velocidade.



Gotokai, andando por uma trilha, ouviu um ruído numa moita ao seu lado. Seus cabelos arrepiaram e ele imediatamente ficou assustado.

De repente, Kinte saltou de trás das plantas com um olhar horripilante. Seus olhos estavam vermelhos como semente de palmeira, seu cabelo havia crescido e se desmanchado, e seus dentes e unhas haviam se tornado imensos, podres e pontiagudos como uma navalha.

Gotokai gritou e começou a correr. Kinte o perseguia como um raio.

O pobre caçador teve sorte e subiu numa árvore um segundo antes da bruxa o pegar. Ele escalou a árvore o mais rápido que pôde e se protegeu entre dois galhos, onde Kinte não podia alcançá-lo. 

Kinte tentou subir na árvore, mas não conseguiu. Suas unhas eram tão longas e afiadas que fincavam na árvore de forma que a bruxa tinha suas mãos atadas. Ela então começou a roer a árvore com seus dentes pontiagudos. 

Gotokai, desesperado, começou a cantar assim:

Tin… Kin… Roooooooll…
Tin Kin Raaaaaally, seu mestre partiu. 
Tinkin Rinkin Tink Bamb,
Tinkin Rinkin Tink Bamb.


Enquanto isso, Kinte continuava a roer o tronco da árvore com seus dentes.

E o caçador continuava cantando:

Tin… Kin… Roooooooll…
Tin Kin Raaaaaally, seu mestre partiu.
Tinkin Rinkin Tink Bamb,
Tinkin Rinkin Tink Bamb.


Neste momento, os dentes afiados da bruxa já haviam roído quase toda a árvore, que estava tombando para o lado e prestes a cair.

O caçador começou a chorar, mas mesmo assim seguiu cantando.

Enquanto isso, na cabana de Kinte, os cães ainda estavam dormindo profundamente. Desde que haviam comido a sopa de carne com pimenta, nenhum deles havia movido um músculo sequer. Agora o seu mestre estava prestes a morrer sem sua proteção. 

Na floresta, a árvore em que Gotokai estava ia ficando fina como uma agulha, mas como estava apoiada numa árvore maior ao lado, ainda não havia caído. 

De repente, houve um milagre. Os cães, como se houvessem escutado a voz de seu mestre, levantaram-se instantaneamente e correram para a floresta. Pararam por uns instantes para ouvir os sons que vinham da mata para se certificarem de que era mesmo a voz do seu dono. 

Foi então que a voz triste de Gotokai foi trazida pelos ventos. Os cães enfurecidos partiram em disparada por um caminho que levava à floresta. 

Quando a árvore de Gotokai finalmente caiu, Kinte abriu sua imensa boca para engolir o caçador. Mas no mesmo instante os cães apareceram como um raio e esquartejaram a bruxa. 

Gotokai abraçou seus cães e chorou de alegria. E, juntos, voltaram felizes para a vila. 
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