O primeiro instante de notoriedade de John Moore aconteceu numa tenra idade como baterista do Jesus and Mary Chain. Depois ele formou uma banda menos conhecida mas altamente lucrativa, chamada John Moore and the Expressway. John também foi responsável pela reintrodução do absinto no Reino Unido. Ele é o principal compositor do grupo pop Black Box Recorder e editor de esportes da revista Idler. Já apareceu no Top of the Pops, University Challenge, Newsnight, 6 Music e BBC Radio 4. Também é colunista do Guardian e do Motoring Correspondent. Atualmente ele toca no John Moore Rock and Roll Trio, que está lançando um álbum esse mês. Quando se descreveu a si mesmo, falou na terceira pessoa: “John Moore tem os olhos de um poeta, a astúcia de um demônio, a mente de um gênio e o fígado de um defunto”.
Ele contribui para essa edição com uma história que trata basicamente de assuntos fecais; essa publicação deixou sua mãe extremamente orgulhosa.
Não cabe a mim dizer o que fez com que a merda tomasse vida. Tenho minhas teorias, é claro. Sou encanador há 30 anos e já vi muitas coisas inexplicáveis lá embaixo, mas isso, sinceramente, não consigo entender. Pra mim, bosta é bosta, bom, mais ou menos—resíduo humano. Todos fazem, e tem que ir para algum lugar. Sabemos quando as coisas tendem a ficar abarrotadas lá embaixo e tomamos nossas precauções. No dia em que a Inglaterra chegou à final da Copa do Mundo, sabíamos que teríamos um grande desafio no meio-tempo. As pessoas ficam especialmente nervosas quando seu país está para repetir 1966, e boa parte delas está fazendo festas e churrascos, comendo carne mal passada e tal e enchendo a cara, ou seja, é de se esperar um aumento de atividade.
E claro que eu estava de plantão, assistindo o jogo na lanchonete dos funcionários pela televisão que fizemos uma vaquinha para comprar, quando o telefone tocou. Eu estava meio enervado quando me ligaram. A Inglaterra ganhava de 2 a 0 a dez minutos de terminar o jogo.
“Derek Grainger”, respondi no celular.
Era o Jeff, que estava vigiando o tanque de excremento. Achei que ele estivesse de sacanagem.
“Vem pra cá. É uma emergência—alerta marrom.”
Obviamente isso significava “alerta vermelho”, mas homens do esgoto têm senso de humor.
“Não dá pra esperar um pouco, Jeff, você não está assistindo o jogo?”, perguntei.
“Não dá pra esperar porra nenhuma. A merda tá tomando vida.”
Bom, como eu disse, trabalho nisso há anos e nunca ouvi nada parecido antes. Obviamente achei que era uma piada, mas, pô, nem o Jeremy Beadle ia ser louco o bastante pra vir com uma dessa em plena final de Copa do Mundo.
Desci até lá, pensando que Jeff estava de sacanagem, e que eu iria cair na dele. Ele era um sujeito decente e pensei que talvez só quisesse um pouco de companhia. Poderíamos assistir ao final do jogo na sua cabana, eu não ligava.
Claro que todo mundo sabe o que aconteceu depois. Quando cheguei lá, o cheiro estava horrível e Jeff estava lá, apontando pro tanque. “Olha”, foi tudo o que ele conseguiu dizer. A coisa toda espumava e gorgolejava como a cratera de um vulcão, merda voando pra tudo que era lado. Eu nem pensei em sair pra colocar uma roupa de proteção. Fiquei lá, de boca aberta, vendo as bostas se juntarem numa forma inacreditável, que se tornou mais e mais detalhada até a gente perceber que era uma espécie de cabeça gigante, como a de um monstro pré-histórico, só que todo feito de merda. Devia ter uns 5 metros de largura… e então o corpo começou a tomar forma.
“Isso não está certo, Derek,” gritou Jeff. “O que esses paquistaneses andam comendo?”
Preciso dizer que o Jeff sempre é meio racista. Por acaso, ele é do BNP (British National Party).
Agora que Slough tem uma grande comunidade étnica, Jeff, que Deus o abençoe, decidiu culpá-los por praticamente tudo. Como trabalhador da rede de esgoto local, eu nunca tive problemas com eles e sei, de fato, que eles têm uma alimentação bem mais saudável que a nossa.
“Eles não têm nada a ver com isso, Jeff”, eu disse. “Acorda! Se tem algum culpado, são os torcedores da Inglaterra, comendo de tudo e usando uma porrada de drogas.”
“Não. Isso é bioterrorismo. A Al Qaeda mandou alguma coisa pelas privadas. São os cientistas deles. Outro 11 de setembro. De jeito nenhum isso é coisa de inglês.”
Conforme a gente discutia sobre as origens étnicas do monstro que estava se formando na nossa frente, outra grande onda de merda entrou no tanque.
“A Alemanha deve ter feito um gol”, disse Jeff.
A cada galão de merda fresca que surgia, a criatura ficava maior.
Como membro mais antigo da equipe, a tomada de decisão cabia a mim. Hesitei, por medo mesmo, antes de decidir qual seria a melhor ação. Sabia que o que estava diante de mim representava o mais sério problema de toda minha carreira nos esgotos, e que algo teria de ser feito. Mas, assim como Sir Winston Churchill fumando seu charuto ou Sir Francis Drake terminado seu jogo de bolws antes de derrotar a Armada espanhola, eu sabia que a Inglaterra estava a cinco minutos de levantar a taça, e que nenhum inglês iria me agradecer se eu arruinasse a festa. Futebol, como disse o velho Bill Shankly, é mais importante que Deus.
“Finge que a gente não viu nada, Jeff”, foi o que consegui dizer.
“Vamos ver o resto do jogo e se ainda estiver aí depois, damos um jeito.”
É claro que depois desse dia a Inglaterra mudou para sempre, mas pelo menos seguimos nossos afazeres ligadões.
No 92º minuto, a Alemanha teve um gol polêmico anulado e o juiz apitou. Enquanto os “Hans” saíam do campo loucos da vida, Wembley ia à loucura e o país todo vibrava. Dava pra ouvir de tudo que é canto, homens e mulheres ingleses com seus corações felizes e seus ânimos elevados, gritando por tudo o que valiam.
Eu e o Jeff combinamos de não mencionar nosso pequeno contratempo. Afinal, não éramos qualificados ou treinados pra lidar com esse tipo de emergência. Depois que finalmente paramos de nos abraçar e comemorar, sabíamos que tínhamos uma tarefa para cumprir. Tomados pelo espírito de um bulldog, fomos ao trabalho.
É claro que o apito final e toda a excitação e euforia enviaram uma enorme cascata de merda pelos canos, e a coisa agora tinha, fácil, uns 30 metros de altura. Foi então que o triunfo virou desespero.
Quando os nossos colegas saíram da lanchonete para o ar livre, tomados pela emoção dos 2 a 1 em cima da Alemanha, não estavam preparados para o que viram. Você não pensa numa hora dessas. Você não espera ver a cauda de um Tyrannossaurus rex totalmente feita de merda te chicotear no pátio e te esmagar até a morte.
A besta estava completamente viva agora, e saiu do tanque de excremento e começou a caminhar. O chão tremia conforme seus pés enormes batiam contra o asfalto e pulverizavam tudo no caminho. Você seria capaz de escutar seu rugido se estivesse em um lugar tão distante quanto Reading, era alto assim.
A gente tinha muito orgulho do nosso trabalho aqui na Estação de Purificação de Água e Esgoto de Slough, e fizemos o que pudemos para impedir que esse Fecalossauro se tornasse uma ameaça pública, mas não adiantou. Se as nossas mangueiras de alta pressão estivessem funcionando bem naquele dia, talvez tivéssemos conseguido destruí-lo com jatos d’água. Mas, graças a problemas de manutenção e à baixa pressão da água devido a uma onda de calor e seca, estávamos insuficientemente munidos para lidar satisfatoriamente com a situação. Uma vez que ele foi em direção das árvores e atingiu a M4, sabíamos que não poderíamos mais conter a situação.
Mal posso imaginar o sentimento de terror que os motoristas devem ter sentido dirigindo pela M4 num horário supostamente tranquilo, e então avistar essa coisa surgir a distância, pegando os carros em ambas as direções e arremessando-os, como bebês jogando brinquedos pra fora de seus berços. Meu único consolo, e não é pequeno, é que a maioria daqueles que foram mortos não eram leais torcedores do futebol inglês. É claro que sei que nem todo mundo gosta de futebol, e algumas pessoas—como motoristas de táxi, trabalhadores de serviços de emergência, ou refugiados—são forçadas a trabalhar em qualquer situação, e meu coração está com elas.
No entanto—e eu realmente agradeço por isso—ninguém estava esperando que essa coisa acontecesse. Os serviços de emergência, que Deus os abençoe, estavam todos preparados para a violência do futebol, com razão. Se a Inglaterra tivesse perdido, o país inteiro teria protestado—mais uma vez, com razão—, então, dizer que a resposta deles foi insuficiente ou atrasada é um tanto injusto.
Dá pra imaginar o que as pessoas sentiram quando viram na TV as notícias interromperem a transmissão da celebração da Copa do Mundo? Muitos produtores tentaram impedir a transmissão dessas imagens; e imagina os patrocinadores e os anunciantes, todo o dinheiro que investiram—deviam estar furiosos—, mas quando um monstro de merda de 145 metros de altura está destruindo a M4, é meio difícil manter o silêncio da mídia.
Agora, o que as autoridades mais temiam era um ataque ao Castelo de Windsor. Eles, com toda sua sabedoria, supunham que tudo era obra de terroristas, e que o impacto no estilo de vida e prestígio internacional britânico, por ter a monarquia varrida do mapa por um monstro de merda, seria inimaginável.
Numa operação conjunta improvisada, os serviços de emergência e as Forças Armadas decidiram derrotar o Fecalossauro, bombardeando-o pelo ar e destruindo-o com uma pesada artilharia, levando sempre em consideração, claro, que Slough é uma área altamente urbana.
É claro, como eu disse, que não tenho nada contra nossos amigos étnicos, mas devo dizer que nesse caso em particular, nesse dia em particular, eles foram bem inúteis. Dentro de pouquíssimo tempo, líderes locais e os cidadãos mais idosos, apoiados por metade de Slough, estavam saudando este monstro como se ele fosse uma espécie de divindade e prometendo protegê-lo—estavam cagando para o cheiro. Então, muitos pacifistas apareceram e se juntaram à causa, clamando que não tínhamos o direito de tirar a vida de outro ser vivo—ele era feito de merda, pelo amor de Deus!
Bom, inevitavelmente isso inflamou os ânimos de muitas pessoas que já eram sensíveis, e o BNP usou isso como uma desculpa. Assim, além de tudo que já estava acontecendo, deu-se início uma baderna inter-racial. Torcedores de futebol embriagados provocando todo mundo, islâmicos malucos com machados de carnes, l&eacut
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