Não é exagerado dizer que Yves Saint Laurent é o maior e mais evocativo nome da história da moda. Stefano Pilati é o director criativo da empresa de há dez anos para cá, definindo mais uma era com o seu olho analítico voltado para o estilo e as suas opiniões francas sobre o lugar da moda na cultura moderna. Antes de tomar o leme da YSL, Stefano trabalhou com Tom Ford e Miuccia Prada, provavelmente as figuras mais inovadoras da moda italiana dos últimos 20 anos.
O facto de Stefano ser o candidato mais apropriado para tomar conta desta bilionária casa de moda, após a partida de Tom Ford, não significa que não tivesse chateado muita gente até lá chegar. E embora escrever sobre moda e entrevistar pessoas dessa indústria possa transformar-se muito depressa em absurdos pretensiosos, sinceramente, para pessoas como eu, que vivem a moda da mesma forma que outros vivem a música ou a arte, o Stefano é do mais verdadeiro que existe. Até agora conseguiu manter a YSL economicamente viável ao mesmo tempo que hasteia a mesma bandeira de elegância e estranheza levantada pelo seu mentor, Yves — um génio psicótico cuja loucura criou uma nova forma de comunicação. Mas o mundo está a mudar para os designers de moda. Os tempos estão difíceis e as batalhas têm de ser seleccionadas cuidadosamente. Como dizia Kim Jong-Il, “aquele que tem medo de um desafio nunca será um bom revolucionário”. Stefano é, sem dúvida, uma figura revolucionária e não tem medo de uma provocação — quer isso signifique alimentar a controvérsia ou ficar sentado enquanto os bloggers de moda reclamam dele.
Esta entrevista a Stefano aconteceu via Skype. Ele estava sentado no seu escritório em Paris, bem vestido e todo aperaltado, enquanto eu preguiçava desleixadamente na minha cama, como numa fotografia de Nan Goldin.
VICE: A visão que trouxeste para a Yves Saint Laurent é muito diferente — e há quem diga que é mais arrojada e perversa — que a do teu predecessor, Tom Ford. Houve na indústria da moda quem não tivesse ficado contente com as tuas ideias e cuja oposição tiveste de ultrapassar?
Stefano Pilati: Claro que sim! Encontrei muitas dificuldades e, às vezes, ainda as sinto. O meu percurso tem sido sério, respeitável e profissional, com base na ideia fundamental de elegância da YSL. No entanto, algumas das opções que faço nas minhas colecções são puro negócio, mas isso não significa que não possam ser vistas como opções glamorosas. Isto tem a ver, em parte, com o facto de que a empresa estava a perder muito dinheiro quando eu comecei — 75 milhões de euros por ano. Eu não comecei do zero, comecei dos 75 milhões negativos. Tive de marcar um equilíbrio. Pediram-me que fosse inovador respeitando a tradição da maison, mas também tive de ser comercial e vendável. Estavam à espera de fogo de artifício, mas nunca lhes dei nenhum. Primeiro tive de criar os alicerces.
Seria justo dizer-se que a tua influência foi subtil mas significativa?
Sim, eu criei uma nova silhueta. Em 2004, estavam todos presos às calças e saias de cinta descida. Era nojento! Caminhavas pela rua fora e vias rabos gordos em jeans de cinta descida. Então, disse a mim próprio, “talvez não tenhamos de continuar a ver aquilo”. Foi quando subi a linha da cinta e apertei tudo com cintos e cenas. É a silhueta que ainda serve de base para muitas coisas hoje em dia, ainda funciona. E, de facto, apesar das críticas, deram-me valor por isso.
Que tipo de dificuldades enfrentaste quando te juntaste à YSL?
Sabes, infelizmente para mim, a YSL já tem uma definição muito forte no imaginário das pessoas. Toda a gente tem uma opinião sobre a marca. Fazes saias com folhos, pedem-te capas; fazes capas, pedem-te smokings; fazes o smoking, querem mais tipo anos 70; se fazes à anos 60, está mal, devias ter feito à anos 80. O meu maior desafio foi pôr estas merdas todas de lado. Quando crio uma peça de vestuário, penso na vida de hoje — dinamismo, o papel da mulher na sociedade, e o seu comportamento em determinadas situações. Falo de mulheres que têm papéis importantes na nossa sociedade, não só a esposa ou a amante esbanjadora que passa os dias a foder com o namorado rico. Tento incluir toda a sociedade nas minhas criações, o que é ainda mais desafiador. A Saint Laurent é talvez a marca mais complexa no sistema da moda, porque tem de enfrentar a imaginação de toda a gente, que é infinita, tão infinita como o trabalho do Yves. Ele foi talvez o designer mais prolífico na história da moda. Dos anos 60 aos 80 — refiro-me ao nascimento do prêt-à-porter — foi quando ele esteve mais activo, e foi quando a indústria da moda atingiu o nível seguinte.
Talvez o epítome de mulheres e glamour, pelo menos na cultura popular, é o vestido da passadeira vermelha — mulheres em Los Angeles, a usar vestidos de gala compridos às quatro da tarde, todas emproadas como se fossem pivôs de um telejornal, com penteados à anos 30. É uma das coisas mais deselegantes que consigo imaginar. Não temos ícones de elegância, não temos uma Grace Kelly. Existe alguma mulher actualmente que consideres um exemplo de elegância?
Falando na generalidade ou referindo especificamente à Yves Saint Laurent?
Em geral.
A minha ideia de elegância — e isto aplica-se tanto a mulheres como a homens — é quando uma pessoa mostra ter um bom conhecimento do que lhes fica bem, onde consegue encontrar naturalidade e autoestima. Não é exibindo-se. A elegância é o conceito de mostrar uma imagem optimista de si próprio e de não se perder na frivolidade do estilo e da moda. Hoje em dia ninguém se importa em ser elegante ou chique. Se o fazes, é por ti mesmo, porque é a tua maneira de ser. Quando não te preocupas se “isto é que é moda”, e não estás a comprar roupas para te afirmares, aí sim, estás no caminho certo. Se a moda vai para as cintas descidas e tu tens um rabo gordo, bem, esquece lá isso e não vistas jeans justos. Vão ficar-te terríveis. Devias vestir-te de preto, seria bem melhor. Mas agora a sério, não é fácil encontrar mulheres elegantes. Existem algumas, a maioria são velhas, e há uma ou duas que criaram um novo estilo quando eram jovens. Hoje em dia, quando vou a Nova Iorque e procuro arte e moda, vejo mulheres inteligentes e o nível é alto. Mas há uma diferença entre isto e dizer que uma mulher é elegante.
Alguma da arte à volta de Stefano, da qual, diz ele, não obtém quase inspiração nenhuma.
Existem alguns artistas em particular ou outras pessoas criativas que te inspirem?
Eu não sou assim. Na cultura sou autodidacta e baseio-me na curiosidade. Cresci nos anos 80 e os meus artistas de referência são Cy Twombly, Hermann Nitsch e… há uma batelada deles. Mas nunca dei por mim a folhear as páginas de um livro de arte e pensar, “ora vamos agora fazer uma colecção inspirada em Rothko”. Talvez na arquitectura. Para a minha próxima colecção apresentei aos meus assistentes alguns dos interiores de Gio Ponti da Universidade de Pádua. Têm uma forma rígida e linear combinada com traços de originalidade. Por vezes sigo a dica de algum mestre que tenha inscrito na sua obra um sentido estético geral que me inspira. Lembra-te que eu trabalho num ambiente altamente inspirador. Os nossos arquivos são loucos. O Yves criou muito trabalho diferente. Fez vestidos Mondrian, casacos Picasso, etc.
A ideia da moda como parte da cultura contemporânea, ao lado da música e da arte, ainda é válida? Ou o mercado transformou a realidade e a percepção do que é moda numa espécie de abstracção?
A moda já não está na moda. Tenho a certeza disso, mas mais ninguém se apercebe. O mundo está cheio de românticos como eu, pessoas que continuam a acreditar na moda. Agora “estar na moda” pode significar qualquer coisa. Tudo é moda. Tudo pode tornar-se moda. Há uns tempos atrás as coisas eram mais elitistas, o que permitia que a moda tivesse mais aspiração e direcção, o que por sua vez inspirava outros. Usando um termo horrível, poderá até ter “ensinado” outros. Hoje em dia, o que é que há para ensinar? Posso fazer uma colecção em flanela e o próximo faz uma colecção usando redes transparentes. O que irá reter disto alguém que não saiba muito de moda? O que é que há a aprender? Não faz sentido! Não podes usar a moda como um mapa de estradas, estarás perdido. Hoje em dia é tudo negócio.
O outro problema é que a moda, como sistema, é muito insular e introvertida. Estamos constantemente a reciclar os mesmos conceitos e expressamo-los através das mesmas formas de representação. A partir do momento em que começas a fazer filmes ou a afastar-te da passarela, a maior parte dos jornalistas não fará a mínima ideia do que estás a fazer porque não tem tempo, vontade ou cultura para compreender algo novo na sua totalidade. Serás mal interpretado e não terás outra opção senão voltar a trabalhar numa linguagem que toda a gente compreenda.
O Yves Saint Laurent trouxe a moda de rua para a passarela com a sua colecção Beats nos anos 60, e depois criou o prêt-à-porter. Nos últimos 20 anos ou assim, não me lembro de muitos designers que tenham cristalizado como ele a cultura jovem no seu trabalho. Talvez Raf Simons ou Junya Watanabe. Estará oficialmente terminada a relação entre a alta moda e o streetwear?
A verdadeira questão é: o que pode ser retirado da streetwear? Todas as miúdas usam mini-saias e leggings e casacos de cabedal. Já passámos por isso tudo. A streetwear nunca me ensinou nada. Considera o seguinte: Yves Saint Laurent foi um dos primeiros designers a revisitar o vintage. Verás isso se leres a biografia dele. Ele costumava ir a Londres, aos primeiros mercados de roupa em segunda mão e encontrava roupas dos anos 30. Foi assim que ele inventou o smoking. Ele comprou um casaco comprido e vestiu-o a uma das suas musas. Foi assim que começaram grande parte das suas inovações. Hoje podes fazer esse tipo de pesquisa, mas é difícil criar uma história destas porque já demasiadas pessoas ouviram falar de quase tudo. Eu vejo o meu trabalho como o de um artesão, sou muito egocêntrico. Trabalho na moda para expressar a minha pessoa, é a única maneira que conheço de o fazer.
Achas que a moda é mal entendida porque as pessoas que a criam falam linguagens criativas diferentes daquelas que a consomem e analisam?
Quando as pessoas entram na nossa loja pensam em caxemira, gravatas de seda, camisas em crepe da china, sapatos de pele de crocodilo. Obviamente que também criamos disso, mas é como se acertasse nos meus próprios tomates. Tenho 800 caxemiras e 900 gravatas de seda. O que estou a tentar dizer é que o trabalho não pode ser apenas uma viagem egoísta. Trabalhas para “uma” marca, não para a “tua” marca. Tens de te adaptar. Gosto de me deixar levar por algumas ideias, mas é necessário ter o resto da empresa no mesmo barco e lidar com os idiotas que não passam de homens de negócios, aqueles que arruinaram a moda, pessoas que vêm da Danone para a YSL como se fosse a transição mais normal do mundo.
Nos anos 70, no seu auge, Yves Saint Laurent viveu uma vida muito excitante, ou, pelo menos, assim parecia visto de fora: drogas, rapazes de aluguer, etc. Achas que um estilista contemporâneo, na paisagem da moda de hoje, conseguiria manter-se com esse comportamento?
Não acho que seja possível. A moda hoje é um verdadeiro trabalho de secretária que vai além da concepção normal do tempo que uma pessoa deve dedicar ao trabalho. Eu trabalho 24 horas por dia. Tenho de fazer uma colecção a cada duas horas. Há que estar em forma, mais atlético que uma estrela de rock. O verdadeiro problema é que a moda te mantém isolado. Quando sais desse mundo e te encontras com os 90 porcento da sociedade que não fazem ideia do que fazes, acabas por voltar para casa com os teus amigos. Ou então foges de tudo por dez dias, divertes-te como se não houvesse amanhã, passas os dez dias seguintes a recuperar e rezas para que ninguém tenha dado conta. Hoje em dia o excesso tem de ser mantido dentro de uma esfera privada. Mas sabes do meu passado e que eu costumava ficar pedrado. Quando eu usava e abusava, na Prada, um tipo descobriu e disse-me: “Bem, o David Bowie fez os seus melhores álbuns estando pedrado.” Essa foi talvez a última vez que senti que havia um mínimo de aceitação ao que eu andava a fazer. Hoje esse tipo de coisas é impossível. Sem entrar nos podres, o John Galliano quase pôs um fim a essa opção.
O seu comportamento pode ter parecido imperdoável na altura, mas ainda me choca que o Galliano tenha sido expulso da Dior. As suas passagens de modelos estão entre as melhores e mais incisivas que já vi.
Completamente.
O que achas de toda aquela confusão?
Acho que foi uma situação trágica, tanto para ele como para a maison. A verdade é que, voltando ao que disse antes, gira tudo à volta do excesso. Não devemos esquecer que não somos apenas criadores com namorados ricos que financiam o nosso trabalho e nos dão a mãozinha enquanto fazemos o que nos apetece. Trabalhamos para empresas com centenas de pessoas que vão para casa às duas da manhã de metro, e não com motoristas privados. Existem fábricas cheias de pessoas que produzem as nossas coisas, e de certa forma existe um sistema de comunicação público que nos coloca no centro de tudo, um sistema no qual nós somos a cara de uma empresa inteira. Tens de estar seguro das tuas responsabilidades e escolhas. Se és uma pessoa com as suas pequenas coisas a decorrer, podes continuar, mas não podes esperar estar de pé ao lado da Charlize Theron em frente a milhões de pessoas. Se estás naquele palco ao lado da Charlize Theron tens de ser capaz de te manter em pé e falar com coerência. Porra, se nem consegues falar direito, e chegas duas horas atrasado fodido da vida, para ir embora dez minutos depois após dois copos de vinho, teria sido melhor se tivesses ficado em casa.
Temos de compreender que as pessoas estão lá “por nossa causa”. As nossas criações têm um poder, e nós temos um poder, o qual transmitimos para outros. Querem dar-te esse poder, e no momento em que to dão já esperam ver à sua frente uma pessoa que saiba dar-lhe valor. De certa forma, faz-me pensar na cama que fazes e na qual te deitas. Podes fazer o que te apetecer, em casa. Mas quando sais, organiza-te. Ouve, foi uma situação trágica e não estou a justificar os actos de ninguém. Se tiver de escolher lados, consigo justificar o John, mas faço-o com tristeza. É triste. Mas não me sinto mal por ele.
No que respeita a vida social, consideras-te mais tipo Scott Walker ou Truman Capote?
Não gosto de elogios. Não me interessam para nada. Acho que sou tão extremamente egocêntrico que nem me interessa o que os outros pensam. Se faço algo que gosto, acho que é válido. Devo admitir que nos primeiros anos nesta posição, como quando dei por mim num elevador com a Kathryn Bigelow e o Richard Gere a subir para o apartamento do Mick Jagger, chegava a casa e dava estalos em mim próprio para confirmar que era mesmo eu. Claro que fico fascinado com esse tipo de vida social, mas prefiro ficar em casa, a relaxar, a ver televisão ou passar tempo com o meu parceiro. Mas repara que eu trabalho como um cão e quando chego a casa estou tão arrasado que quase não faço nada. Neste momento vou apenas para os meus espaços, e posso até ir comer uma pizza com amigos ao domingo. O mínimo essencial do que é esperado de uma vida social. E, de repente, tudo parece trabalho, trabalho, trabalho. Vais a estas coisas porque te pedem, porque tem de ser, faz parte do ofício. Não tenho grande relação com a alta sociedade e tipos sociais.
Mas adoro esta experiência e adoro o meu emprego. Sinto-me mais grato pelo estilo de vida que este emprego me trouxe do que pela fama ou pelo reconhecimento. Se for na rua e alguém me reconhece e me pede um autógrafo… bem, fico surpreso. Pergunto-me “o que terei feito?”. Quer dizer, de certeza que queres o meu autógrafo? Se vivêssemos no tempo do Picasso, o que faria esta pessoa se o visse na rua? Pedir-lhe-ia que o matasse? Sou um designer de moda. Por outro lado, acabo por compreender, sou alguém que alimenta os sonhos das pessoas, vivo rodeado de beleza e sou visto nesse contexto, como uma pessoa privilegiada. Infelizmente, a imagem do “designer de moda” continua a ser deificada.
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