O Movimento do Movimento

Imagens: Cortesia Editora Manifesto

Em sentido horário: Desconhecido, Izalco Sardemberg, Flávio Aguiar, Ricardo Maranhão, Alcy Linares, Paulo Barbosa, Maria das Graças Simon Rodrigues, Eduardo Mussi, Jota, Chico Caruso e Juca Martins; sentados, Cecília Magalhães, Tereza Ferreira, Raimundo Rodrigues Pereira, Sérgio Buarque de Gusmão, Francisco Marsiglia e Flávio de Carvalho Serpa. Arquivo pessoal Paulo Barbosa.

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Fazer revista dá trabalho pra caralho. Sempre tem um monte de ideia, a pauta fechada, mas come o tempo: matéria que fura, foto que não sai, colaborador que some. E olha, repórter adora esperar pelo último segundo pra mandar o texto—eu inclusa. E depois pra juntar tudo e fazer algo que preste? Isso hoje, na era da internet, globalization, o diabo a quatro. Agora, imagina organizar essa zona toda 35 anos atrás, quando o telex era considerado avançado, o telefone custava os olhos da cara—comprava-se a linha—, fora que a coisa era mesmo na máquina de escrever. E a polícia usava fusquinha, a baratinha. Não: imagina montar um jornal semanal, sem um puto, cujos donos eram os próprios jornalistas—sem patrão—com a missão de defender a liberdade em plena ditadura. E com o focinho dos policiais fungando ali, na nuca, o tempo todo.

Bom, imagine, mesmo, porque vai ficar só na imaginação. Que viver o que a turma fundadora do jornal Movimento viveu, só eles mesmos. Entre 1975 e 81, o Movimento foi uma das principais vozes de resistência ao regime militar no Brasil, um dos mais descarados e teimosos defensores da democracia. Durou seis anos, lançou a campanha pela Constituinte, irritou diversos milicos do poder. O general [e presidente] Ernesto Geisel chegou a dizer uma vez que a leitura do Movimento não era “salutar”. E só porque ele deu muita azia praquele povo já tá mais que justificado o projeto “Jornal Movimento—Uma Reportagem”, que eu tenho tocado ao lado dos jornalistas Carlos Azevedo e Marina Amaral. Vai ser um livro-reportagem sobre o semanário, escrito a partir de pilhas e pilhas de documentos [eles guardaram quase todas as atas de todas as reuniões], centenas de entrevistas e os exemplares amarelados e esfarelentos do jornal, que vão ser digitalizados e incluídos num DVD. O livro sai no final do ano. Tem muita história pra contar.

Era São Paulo, era 1975. Em 11 anos, a ditadura já tinha torturado, matado e caceteado grande parte da esquerda; centenas estavam no exílio ou na clandestinidade, sob nome falso [caso do Carlos Azevedo, idealizador e autor do projeto], na moita. Por outro lado, a crise do petróleo tinha empobrecido o povo, a inflação era surreal, saca só: de 64 a 77 o custo de vida mínimo saltou de 54 cruzeiros pra 2.542! E a oposição “bem comportada” crescia. Nisso, o governo começava a falar em abertura controlada, a chamada “distensão política”, fazendo eleições gerais e liberando a censura de quem podia até falar mal, mas sempre com carinho: o Estadão. Ia demorar muito pra liberarem mais que isso.

Foi quando nasceu o Movimento, claro que a partir de uma rebeldia. A equipe de jornalistas “rachou” com o dono do jornal em que trabalhava, o Opinião, depois que o dono demitiu o editor Raimundo Pereira – conhecido pela sua teimosia, por ser um grande jornalista e por andar na redação de bermuda e chinelo e aquela cara de bicho-grilo. Era uma turma bem boa. Exemplo, os jornalistas Tonico Ferreira, Marcos Gomes, Teodomiro Braga e Bernardo Kucinski, além de Jean Claude Bernardet, o artista plástico Elifas Andreato, o sociólogo Chico de Oliveira e o escritor iniciante Aguinaldo Silva (sim, hoje ele escreve novelas da Globo). Decidiram fundar um jornal sem patrão, dos próprios jornalistas, com eleição pra editor e diretoria e um programa político assumido, diferente da maioria dos jornais que têm partido, mas ficam no armário. O programa: oposição à ditadura militar, pelas liberdades democráticas e em defesa dos interesses nacionais. E simbora.

Pra começar, passaram o chapéu em várias cidades do Brasil, chamando conhecidos e nem tão conhecidos a colaborar. Vendiam cotas de sociedade a um valor meio pesado, mas que valia a causa (e ainda podia ser dividido em módicas parcelas mensais). Em alguns meses juntaram quase um milhão de cruzeiros e 300 acionistas, alugaram uma casinha em Pinheiros e montaram a banca. Arrecadaram apoios de peso. No Conselho Editorial estavam Audálio Dantas, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Chico Buarque, o indigenista Orlando Villas-Bôas e o futuro ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Cada acionista doava metade mais um para a equipe, que assim podia tomar as decisões da empresa democraticamente, em discussões que duravam horas e horas e horas e horas e não raro viravam noites.

Considerando isso, até que a coisa andou rápido. No dia 2 de julho, a redação na Rua Carvalho Pinto já funcionava naquele caos: telefone, máquina de escrever, falatório, discussões fervidas. Gente espalhada nas poucas mesas que representavam cada editoria. Estavam terminando a primeira edição pra ir às bancas na semana seguinte, quando o editor de Nacional, Sérgio Buarque, ouve um chiado de walk-talk:

“Entra um cara meio gordo, chega bem no meio da sala e diz:

—Com licença.

Olhei para o Flávio Aguiar, na mesa em frente, ele fez aquele sinal de ‘Porra, já entrou’.

—Sem rodeios, nós somos da Polícia Federal.

Aí, tinha uma coisa, essa coisa brasileira, com essa origem lusitana, que é um formalismo patético. O cara foi levar um ofício da Polícia Federal, pra dizer que o jornal estava censurado com base no AI-5 e tal.

Ligamos para o Raimundo. Ele chegou, começou a reclamar, o cara ligou pra alguém e falou:

—Olha, o sujeito aqui tá criando caso…

O Raimundo reclamava:

—Como é que vocês vão censurar uma coisa que ainda não saiu?

Mas não teve jeito, né?”


A ordem vinha do presidente da República.

Colaboradores do Movimento em Brasília: Teodomiro Braga, Luis Bernardes e Paulo César. Moça desconhecida. Arquivo pessoal Paulo Barbosa.

Assim, quando o Movimento saiu, no dia 7 de julho de 1975, já saiu censurado. E bem feio. A capa era toda preta. A foto era estra-nha, fora de quadro, meio corpo de um homem em pé olhando um trilho onde um relógio de parede, amassado, mostrava nos ponteiros parados: 4 horas e 55 minutos. A legenda, pequena e torta, dizia “Central do Brasil”. Era uma matéria de Aguinaldo Silva sobre os quebra-quebras que estavam acontecendo na estação central do Rio por causa da superlotação e do atraso dos trens. Era boa. Mas era nada menos que a quinta opção de capa: os censores vetaram as quatro anteriores, e mais 18 matérias inteiras, oito fotografias, dez ilustrações e 12 charges. E não tinha jeito: naquela semana foi um vai-e-volta até a sede da PF, em Higienópolis, pra tentar reunir uma edição inteira. Muito do que voltava vinha com aquele carimbo sinistro: Censurado. A edição, por isso, saiu com 17 horas de atraso. Chegou a muitas cidades só uma semana depois.

Mesmo assim, 21 mil leitores compraram. Por quê? Pelo mesmo motivo que irritava tanto a tesoura da Censura: o jornal era cricri. E fazia bom jornalismo. Mesmo censurado, denunciou uma porrada de coisas. Na primeira edição, uma matéria esmiuçava timtim por timtim um acordo nuclear com a Alemanha em que o Brasil estava comprando reatores com uma tecnologia que ainda não tinha sido totalmente testada. O jornal já questionava também a tal “distensão” – será que a coisa ia abrir mesmo ou tavam fazendo a gente de idiota? E sempre pegou no pé da exploração de pretróleo por multinacionais, que naquela época começava a acontecer com os chamados “contratos de risco”. Tanto que uma edição inteira sobre o tema foi proibida de circular, e o jornal ficou proibido de tocar no assunto dali por diante (uma censura, aliás, inédita). Pior, o diretor Tonico Ferreira ainda recebeu a seguinte ordem: bico fechado e não conte a ninguém sobre a proibição. “Mas isso é impossível! Quando eu for avisar à redação sobre a apreensão do jornal já estarei violando a ordem!”, respondeu.

É que a censura não tinha nada de aleatório. Isso o pessoal foi percebendo aos poucos, porque era gente teimosa, que a cada edição fazia um relatório contando tudo o que foi cortado e mandava pra acionistas, colaboradores e amigos. Descobriram um padrão: primeiro, eram vetadas todas as críticas às políticas centrais da ditadura, ou à ditadura. Depois, qualquer denúncia sobre tortura e repressão.

Outra coisa que dava horror aos milicos era uma das obstinações do jornal: a seção Cena Brasileira, que relatava a vida do povo nos mais diferentes confins. Não saiu, por exemplo, uma bela entrevista com um preso comum, “Hiroito, o rei da boca do lixo”, e uma reportagem sobre o “Diário de Dorinha”, um folheto feito pras meninas da Febem que ensinava a serem boas domésticas, serviçais às patroas e ainda sorrirem na hora de ganhar o trocado do mês. Curioso é que a censura também tirava matérias que não tinham a ver com nada disso, mas eram boas: podiam atrair novos leitores.

A ideia era fechar o jornal, sem fechar. Estrangulando.

Em dois anos, foram mais de 3.090 artigos censurados na íntegra, 4,5 milhões de palavras, 3.162 desenhos. Isso significava, na redação, mais trabalho. Além de muitas matérias extras, tinham que mandar os rabiscos dos chargistas meio prontos, pra ver se passavam: só daí o ilustrador podia completar o desenho. Muitíssimas charges de primeira nunca saíram. No time, Chico e Paulo Caruso, Jota, Henfil, Alcy, Nilson, Zero.

E pra mandar aquilo tudo pra Brasília, onde a censura passou a operar? Ia de avião, com a finada Vasp. Paulo Barbosa, que traba-lhava no setor de vendas, era estudante na época e tinha uma motoca—por isso, era muitas vezes quem levava a pilha de folhas datilografadas à máquina.

“Sempre tinha umas matérias de última hora. Isso aconteceu muito. Você tinha uma matéria ou duas, o resto já tinha despachado. Aí eu ia correndo pro aeroporto, e ficava vendo quais voos que iam pra Brasília, qual era o primeiro que ia sair… Então eu ia lá na companhia e via quem tava fazendo o check-in, aí eu conversava com ele:

—Olha isso aqui é um material de imprensa, o senhor leva pra Brasília? Um rapaz retira com o senhor no aeroporto…

A grande maioria aceitava. Aí eu ligava pra sucursal de Brasília e falava: ‘ah, é um homem tal, barbudo, tá com um terno’, dava um nome, olha, tá no voo da Vasp número tal’… Aí ficava no desembarque de passageiros pra identificar o cara lá e pegava o envelope.”


Depois que a PF, em Brasília, dava o sofrido OK, os repórteres da sucursal passavam para a redação de São Paulo em longos e tediosos telefonemas (interurbanos, os olhos da cara): “Artigo de Chico Pinto, vetado; matéria sobre os trabalhadores na cana em Pernambuco, cortada da linha dez da primeira lauda até o fim do segundo parágrafo…”

“Chegava a momentos ali que a gente tinha vontade de chorar. Frequentemente censuravam todas as opções de capa. Numa época, passaram a proibir capa preta, uma série de proibições para não passar a mensagem para o leitor da censura. Então, o leitor, quando recebia o jornal, não tinha a menor ideia de quanto jornal tinha sido censurado”, diz Teodomiro Braga, que era chefe da redação de Brasília.

A sucursal do DF, aliás, uma das cinco que o jornal conseguiu montar, em salas às vezes alugadas pelos próprios correspondentes, às vezes com a linha telefônica cortada e sempre a perigo de fechar, era como as outras: apesar de tudo isso, fervilhava. Em todo Brasil as salinhas do Movimento se tornaram ponto de encontro de políticos, intelectuais, estudantes; promoviam debates, dicussões e leituras nas noites, e mutirões de venda nos fins de semana. Ali, na capital, tinha um peso mais institucional: funcionava como base para os políticos do MDB, o partido de oposição “consentida”. Em especial o grupo dos “autênticos”: aqueles que não se vendiam nem se rendiam ao regime. O líder era o baiano Chico Pinto, chefe da sucursal, cassado por Geisel porque criticou o ditador chileno Pinochet quando ele visitou o Brasil em 1974. Ficou um ano preso. Depois foi pro Movimento.

Os colegas emedebistas o visitavam na redação, trocavam ideia e viravam fonte do jornal, o que rendia um sólido respaldo político. “A sucursal era tão interessante, porque era frequentada pela intelectualidade. Um negócio extremamente pujante, às vezes era difícil trabalhar de tanta gente que ficava ali”, conta o repórter Antônio Carlos Queiroz. Muitos dos que trabalharam pelo fim da ditadura passaram por lá—incluindo, pasme, alguns militares progressistas.

Como o Movimento atraía essa gente toda? Simples: ele falava o que os outros não ousavam falar, mesmo quando livres da tesoura da censura. E foi se tornando receptáculo de ajudas inesperadas, como de jornalistões da grande imprensa que passavam matérias que ninguém mais ia dar, ou até gente do governo, insatisfeitos. No Rio, o correspondente Marcos Gomes viveu um desses episódios:

“Fiz uma matéria sobre a Light que havia sido oferecida a todos os jornais. Ninguém aceitou fazer. O presidente da Eletrobrás era o Antônio Carlos Magalhães. Foi o Mario Kertész, chefe de gabinete dele, que me passou:

—Essa matéria aqui é que o pessoal do Rio, esse bando de advogados administrativos de grandes multinacionais, quer pegar o dinheiro do governo para comprar a Light. Nós temos aqui o documento inteirinho. Vocês publicam?

—Publicamos, desde que você me dê o documento com as assinaturas.

—Nós já demos para o Jornal do Brasil, para o Globo… (não quiseram publicar).

—O
Movimento publica, está sob censura. Mas essa matéria tem chance de ser publicada. Você me dá essa última página com todas as assinaturas.

Aí eles foram para outra sala, ficaram em confabulação e decidiram me dar. A matéria saiu, a Gazeta Mercantil repercutiu, houve um alarde. Então, quer dizer, estávamos ali fazendo o nosso trabalho”.

Movimento Movimento Movimento Movimento Movimento “Ficamos lá esperando chegar o fusquinha da rádio patrulha pra fazer a ocorrência. Estávamos nesse papo quando dali a pouco chegou a polícia. Um caminhão da tropa de choque. Desceu a tropa de choque imediatamente, um caminhão inteiro, perguntando:

—Quem é o cara?

O sujeito da casa:

—É ele.

Fui algemado e levado até o delegado de plantão, colocaram aquele monte de papel, jornal, em cima da mesa e ficaram ali com uma cara até de orgulhosos. O delegado pegou uma edição do jornal e começou a folhear com atenção. Folheou, folheou, depois pegou outro, folheou, folheou… até que ele virou e falou:

—Vocês apreenderam isso aqui porque vocês acham que isso é subversivo? Subversivo é o preço do feijão!.”
Movimento Movimento “Eu tinha jornais ali comigo, a polícia chegou à paisana:

—Bora, entra.

Tinha uma menina que trabalhava com a gente secretariando. Aí ela disse:

—Ah, não, eu vou junto.

Quando a gente vai descendo, o Carlos Alberto, que era o presidente do diretório acadêmico, vem vindo.

—Estamos sendo presos e eu disse que a gente só tinha 30 jornais.

Ele veio junto para o fusca da polícia. Quando a gente chegou na delegacia, que ficava no térreo da Câmara de Vereadores, o cara já chegou assim:

—Trouxe todo mundo. E o outro, com uma cara de ‘quem mandou?’

Por volta das seis da tarde, a gente já estava sendo interrogado: botava um pra uma sala, outro pra outra… Aí chega o diretor da faculdade, Sebastião Guimarães Vieira. Cara corajosíssimo.

Já chegou perguntando:

—Fizeram alguma coisa de mau pra vocês?

Só saiu de lá com os três”.
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